A Velha das Fitas Vermelhas

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Conheci-a, ao acaso, em reportagem, na vida urbana, entre multidões comuns, quando não aparentava ter mais do que vinte anos, formosa e subtil garça. À noite, quando se invoca, dança desvairada e revela a natureza milenar: cabeleira nevada, rugas cavadas na face, dedos chupados e estalactites na vez de dentes. No alvoroço da mutação, irrompe da cabeça a tiara circular de ouro, donde pendem a toda a volta fitas de seda vermelha, com um côvado de comprimento e dois dedos de largo. Oculta-se nesse véu escarlate e permanece em silêncio até sentir-se impelida a montar o seu Cavalo de Cal e correr pelos campos de alfange ao alto, agitando as vestes nacaradas e as fitas de seda, criaturas vivas ondulando no ar.

No tropel desenfreado, madrugada fora, combate os entes da escuridão e concede liberdade aos animais encurralados, lacerando trincos de pocilgas e cavalariças. Nem o cão subjugado à corrente de aço escapa à misericórdia libertadora. Tal temeridade impressiona as criaturas do mundo oculto, dispostas a aceitar a Velha das Fitas Vermelhas como guia ou a nela dardejarem ódio. Os aliados de peso são os transmorfos lobisomens, os lamentosos corrilários, as moiras das rochas, as jãs fiandeiras, os moirinhos dos muros e as peeiras das fragas. Quando juntos, dispõem-se a bravatas com temíveis cocas e papões, ou outros seres do mundo obscuro.

Em estado de moça, é namoradeira e lúbrica. Quando assume faceta de velha, prefere não se cruzar com humanos. Uma vez por outra, não se impede de dar castigo aos perversos que atormentam os animais sem propósito que não a malvadez. Jornais relatam a sorte dos que se colocam ao alcance da lâmina curva do alfange de prata. As entidades policiais nada conseguem explicar e eu, apesar de saber os segredos da sombra, nada posso afirmar, sob pena de perder a cabeça.

Contou-me fonte segura, de íntima amizade, que ela viveu uma paixão centenária com um oniromante, o mais belo, o melhor dos mestres. Tão poderoso que, um dia, arrancou do sonho de uma criança o Cavalo de Cal, capaz de voar sem asas. Achou-o tão belo que não resistiu a ofertá-lo à outra metade de si, a Rapariga das Fitas Brancas, como era conhecida naqueles tempos. Porém, um dia, o oniromante saiu para um sonho e não regressou. Três décadas ela esperou. Trinta anos desesperou. Depois, entregou-se à busca eterna, todas as noites correndo na sua fiel montada, o Cavalo de Cal, e alfange de prata em riste. A saudade ardia nos olhos. As fitas brancas douraram, depois foram ocre escuro e, por fim, o retinto rubi dos nossos dias.

Tanto procurou a justiça, que se tornou o rosto da justiça, a mão do castigo e o olhar da acusação. Hoje, temem-na homens e criaturas do obscuro e até os deuses evitam os seus caminhos.

AUTOR(A)
Porventura Correia
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