BIBLIOTERAPIA | Tudo é Possível

BIBLIOTERAPIA | Tudo é Possível

Escrevo na recta final de 2021, naquela fase em que, como profissional de Biblioterapia e como pessoa que lê por puro deleite, esboço um balanço das leituras feitas nos meses anteriores. São quase sessenta títulos de vários géneros literários — Ficção, Ensaio, Poesia, História, Biografia, Divulgação científica, Religião, Filosofia —, com destaque para a chamada Literatura Infantojuvenil, já que li dez livros comumente classificados nesta categoria (embora um bom livro infantil ou juvenil não tenha faixa etária e possa ser lido com fruição em qualquer fase do nosso desenvolvimento). E é precisamente do último livro infantojuvenil que li em 2021 que vos quero falar. Trata-se de “Tudo é Possível” —, um título sugestivo, agora que encaramos um novo ano, com a habitual carga psicológica do recomeço — escrito por Kobi Yamada, ilustrado por Gabriella Barouch e publicado em Portugal pela editora Zero a Oito.

Um dos benefícios da Biblioterapia enquanto arte que cuida de nós através da leitura de histórias[1], é o facto de “fomentar a independência do leitor e o seu papel activo no processo terapêutico ao receber, inferir e descobrir a mensagem do texto”[2] sozinho e a partir do seu conhecimento prévio, isto é, tudo aquilo que já sabe ou experimentou na vida. É a partir dessa plataforma — desse ponto onde o leitor se encontra e a partir do qual vai alcançar e interpretar o mundo —, que acontece este exercício de leitura profundamente subjectiva e de carácter existencial em que “não se procura compreender a intenção do autor, mas o efeito do texto sobre o leitor”, em que não há interpretações certas ou erradas, falsas ou “verdadeiras, mas apenas interpretações justas”.[3] Assim, o mediador de Biblioterapia de Desenvolvimento (distinta da Biblioterapia Clínica) deve ter o cuidado e a sensibilidade para, ainda que seja ele a selecionar e a recomendar as histórias a serem lidas, interferir muito pouco nesse processo de leitura e respeitar as conclusões a que o leitor chega por si.

Posto isto, é natural que me perguntem com que critérios e com que legitimidade seleciono e recomendo livros aos meus clientes ou a leitores no geral, como vós, já que a lógica que impera em contexto biblioterapêutico é o clássico “cada cabeça a sua sentença”. No caso dos meus clientes, é imperativo que eu os conheça bem, que consiga, através de determinadas ferramentas, traçar um perfil bastante preciso das pessoas que são e dos objectivos que almejam. E no caso dos leitores em geral, aqueles cujas idiossincrasias não posso conhecer, um dos critérios que funciona com razoável grau de sucesso é recomendar livros que me tenham comovido — que tenham mobilizado as minhas emoções, que me tenham feito passar de um estado emocional para outro, de preferência melhor — porque há uma maior probabilidade de comoverem outros leitores também. É aqui que encaixa o delicadíssimo “Tudo é Possível”, que na simplicidade do seu texto e na beleza das suas ilustrações me arrebatou e entrou para o topo das minhas leituras em 2021.

“Já alguma vez pensaste porque estás aqui?”. Esta é a primeira frase do livro, que não nos conta uma história, levando-nos antes por uma série de reflexões filosóficas acessíveis e explicações originais para o facto de cada ser humano ser único e irrepetível, dos caminhos possíveis para a sua vida serem potencialmente infinitos e dos obstáculos serem inevitáveis. Se para uma criança reflectir sobre isto poderá ser um exercício completamente novo, um adulto, mais cínico, poderá encolher os ombros e pensar: “Conta-me algo que eu não saiba”. Porém, outro dos benefícios da Biblioterapia é fazer incidir sobre temas de sempre, sobre aspectos corriqueiros do dia-a-dia, luzes que ajudam a revelar perspectivas novas. Graças à sua linguagem poética, ao tom humanista e esperançoso, às imagens que espoleta na nossa imaginação e às encantadoras ilustrações — cada uma, uma obra de arte —, “Tudo é Possível” instiga, no mínimo, em espanto renovado pelo privilégio que é estar vivo. Porque é possível que estejamos aqui para ajudar “os outros a encontrar a beleza de cada dia”, a “iluminar lugares que estão na escuridão há demasiado tempo” ou a “ser a voz daqueles que não conseguem falar por si”. Gostava que a leveza que toma conta e mim após cada leitura deste livro fosse sentida também por vós durante todo o ano de 2022.

Bom ano! Boas leituras!

[1] “Leitura e Terapia”, de Clarice Caldin, 2009.

[2] “Biblioterapia: o estado da questão”, de Ana Cristina Abreu, Maria Ángeles Zulueta e Anabela Henriques,

   Cadernos BAD ½ (2012/2013).

[3] “Bibliothérapie: Lire, C’est Guérir”, de Marc-Alain Ouaknin, Points, 2015.

AUTOR(A)
Sandra Barão Nobre

Cidadã portuguesa nascida em França em 1972, regresso a Portugal em 1980 e vivo em Portimão até ao fim dos estudos secundários. Em 1995 licencio-me em Relações Internacionais, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa. Desempenho funções na Telecel, na Câmara de Comércio Uruguaio-Portuguesa (em Montevideu), na Fundação de Serralves e na livraria on-line WOOK (do Grupo Porto Editora). Em 2011, crio o acordofotografico.com e em 2014 parto numa volta ao mundo para fotografar leitores. Desta experiência resultou a publicação do livro “Uma Volta ao Mundo com Leitores”. No regresso a Portugal mudo de vida:  obtenho um certificado internacional de Coaching Practitioner, faço formação em Biblioterapia e em 2016 lanço abiblioterapeuta.com e todos os meus serviços de Biblioterapia.

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