Chegado o fim

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Se o que me dizes é verdade, não sei quanto tempo ainda me resta, por isso, serei célere. Quero contar-te a minha história para que a espalhes por este Portugal. Tudo o que me revelas, compadre corvo, entristece-me, verga-me o espírito, mas já entendi: não será a crueldade dessas palavras que me derrubará e não cairei sozinho.

Os homens agora também tombam? Um fumo negro corrói-lhes os pulmões? Tristes notícias, estimado amigo. Mesmo neste montado distante, vivendo só com os meus irmãos, testemunhei o poder da ganância do dinheiro sobre a frágil vontade desse bicho Homem.

Sinto-me fraco. Dei-lhes a minha pele — a maior riqueza que possuía —, emprestei-lhes a sombra para se refrescarem, escutei os segredos dos seus corações, mesmo depois de cravarem uma faca no meu. Deixaram-me nu e, ainda assim, continuei. O que esperam mais de mim?

São das terras do Levante? Há oliveiras ancestrais aqui, mas não como as que descreves… Tens a certeza? As folhas já não são santas mezinhas? O fruto é veneno? Os ramos não crescem? Juntas, umas às outras, torturadas à noite, privadas da companhia dos compadres pássaros desejosos de repousar-lhes nos galhos? Lamento essas tristes vidas, exploradas. Lamento a morte inglória dos teus irmãos.

Não te esqueças desta história. Canta-a ao ouvido de quem a quiser escutar e leva contigo as minhas filhas para bem longe, na esperança de perpetuarem o que ainda sou. Concede-lhes outro recanto para crescerem, onde a morte fria não lhes corte a seiva; onde haja homens de bom coração. Sei que ainda os há.

Tenho medo, confesso. Não por mim. Mesmo parado, sou um viajante do tempo. Duzentos anos prepararam-me para assistir sereno ao fim. Não sou apenas eu a morrer. É esta tela dourada de manto de flores, arco-íris espelhado na terra de ribeiros teimando em correr que desaparecerá para sempre. Dizes tu: a água lá é preta? És um corvo. Vês tudo à tua similitude! Sempre me disseram que eras mau agouro e nunca acreditei. E se me estás a mentir? Sei que não… Observo ao longe o fumo de que falas. O vento já o trouxe até mim. Sinto o odor dos que já partiram.

É o Alentejo. Aqui ninguém vê. Moro no meio dos montes; sou somente árvore, fração da paisagem que deixará de o ser. O olival invasor devastará esta planície e o Homem escolhe o silêncio. Antes de ires, ensaia a nova canção. Embala-me com a tua voz. Recorda-me quem ainda sou e de onde vim. Evoca o nosso cante, o canto deste Alentejo que chegará ao fim. Depois, vai e não pares.

AUTOR(A)
Analita Alves dos Santos

Nasceu na Alemanha, a 20 de outubro de 1974. A leitura e a escrita foram sempre as suas grandes paixões. Desde pequena que sonha escrever livros e partilhar as suas palavras com miúdos e graúdos. Mora no Algarve, é casada e mãe de duas filhas que a inspiram todos os dias a imaginar histórias com significado. Lançou em 2019 o seu primeiro livro infantojuvenil e integrou diversas coletâneas. É colunista em várias publicações, mentora do Concurso de Escrita Criativa Poeta António Aleixo e curadora do clube de leitura «Encontros Literários O Prazer da Escrita».

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