Com-abrigo em casa abandonada

Na casa, já só resta uma porta que não fecha e uma janela com vidros apedrejados por alguém. A água que lá existe nasce de uma mangueira fina que se estende, feito cobra, pela rua, desde a casa do vizinho, dois números de porta adiante, para encher a dezena de garrafões plásticos deslixados de um contentor amarelo. Vai servir para cozer a sopa ou lavar o carecido de o ser e uma vez para reduzir apenas a fumo aquoso, um princípio de fogo que ameaçava dissolver as paredes de treliça, vestida de saibro esfarelado e camas de aranha pintadas de poeira. É neste cenário feito tristeza, que lhe semeia a cabeça de esquecimentos, que vive o Zé, um idoso seco de carnes e de falas, na companhia de ratos anafados que já lhe perderam o respeito e o medo. Apesar das privações e dos cigarros pretos que fuma sem nunca dar descanso a lábios e a pulmões, tem aparência saudável. Nem a alimentação à base de finos e de pão barrado de margarina rançosa por ausência de frigorífico e de sandes de mortadela parecem afectá-lo. É a Gusta, a dona do café que, na maior parte das vezes, os fornece em troca de mais um registo no livro dos fiados. Até que a pensão chegue aos correios por volta do dia oito de cada mês.

A boina, que lhe resguarda os cabelos do frio e tapa os esquecimentos de pente em cada manhã, já foi preta. As duas fitas finas de seda que teimam em manter-se agarradas à parte de trás, já tiveram cor de bandeira nacional. Não sei se alguma vez a Pátria o obrigou a vestir uma farda manchada de tons verdes e castanhos, dizendo-lhe que tinha de servir o país, nos comandos ou nos paraquedistas. No exército não seria, porque esse manda que a boina seja castanha. Tão pouco sei se, terá sido combatente. Se sofrerá de alguma patologia fruto de vivências extremas ou ligeiras de uma guerra que pensasse ser sua. As suas poucas falas, em tentativas de meter conversa, pouco me dizem. Os monossílabos usados e raros, nada mostram, a não ser uma cara fechada a tresandar a lutos e antipatias que parecem significar um “oh pá não me chateies”. Aos bons dias, que faço questão de lhe desejar quando os nossos passos se cruzam, recebo um invariável e desmotivador silêncio, ou, pior ainda, um resmungo que mal se percebe.

O Zé da boina fuma muito. Tanto que o fumo dos cigarros pretos que sorve com um prazer efémero, pendurados nos lábios ou nos dedos, lhe alourou o bigode. A cor do fato de treino já aliviou o luto, mas ainda mantém o cheiro a tabaco que o anuncia quando ainda vem longe. As escassas lavagens no balde sem asa e de múltiplos usos não fazem milagres.

O Zé da boina tem um amigo de quatro patas que nunca vai pela trela. Tal como o dono, não precisa de amarras. Devido às artroses da idade e da vida, é com alguma dificuldade que sempre o acompanha para todo o lado. Não aceita festas nem conversas e rosna sem grande convicção a quem, amigavelmente, ouse fazê-las.

Nos dias em que a maré está alta, é frequente ver o Zé na pesca, empoleirado nas rochas do paredão ensalitrado de branco do molhe. A sua cana é um pau tosco e curto com fios de nylon com alguns anzóis amarrados. Quando os mergulha bem fundo, por entre espaços nas pedras que conhece de olhos fechados, por vezes, lá trazem agarrado um congro, um robalo ou uma dourada que se deixaram levar pelo brilho enganoso dos anzóis. Se a quantidade ultrapassa as suas necessidades diárias, quase sempre a vende, meio em segredo, junto à lota. É com esse dinheiro que compra outros alimentos para si e granulados dos mais baratos para o cão. Acho que o Zé não tem consciência de que esse tipo de prática não é permitido perante as leis emitidas da capitania. Nem quer saber. Por isso não se preocupa em escondê-la, como naquele dia, indiferente aos salpicos das ondas que batiam zangadas. Tanto ele como o cão não se dão conta da aproximação dos soldados de farda azul, que percorrem o cais em carro novo, de motor que só vomita silêncio.

Diz-lhes, de forma natural, que não sabe que esse tipo de pesca dá direito a multa. O silêncio da situação amarfanha-lhe a língua e o pensamento. Não manifesta revolta, nem tem ganas de bater em alguém quando dizem que lhe vão levantar um auto de contraordenação, que não sabe o que é. Não diz que é roubalheira quando vê levarem-lhe os petrechos de pesca.

Diz-lhes ainda não ter consigo qualquer documento que mostre quem é. O BI de validade vitalícia com a sua cara de novo, só o usa para levantar a reforma de sobrevivência e ficou na casa térrea com porta sem fechadura e sem vidros na janela que habita e nem sequer é sua. Cede-a uma amiga generosa enquanto não decide se a restaura ou demole para a transformar em prédio de quatro andares e talvez um recuado, porque na zona, o terreno vale ouro e obriga a que o rentabilizem ao máximo.

Os polícias de farda azul consumam a ameaça e levam-lhe o utensílio usado para cometer o delito. O único robalito desse dia, também. Sente quem assiste à cena, e não aceita a solicitação de dar o seu nome como testemunha, que não era aquilo que os militares queriam fazer. Mais do que a gravidade do delito, têm de levantar o respetivo auto, por se tratar de uma denúncia feita por alguém que não gosta do Zé ou da vida que leva. Mesmo assim, os militares seguem o lado certo da sua consciência: devolvem o robalo, para que o prevaricador não fique privado de almoço nesse dia. Quanto ao auto de delito, não foi sequer elaborado, por falta de endereço fiscal para onde ser enviado.

Dois dias depois, o Zé da boina volta à sua faina, com novos apetrechos, que algum dos raros amigos lhe ofereceu.

Outros tantos depois, surpreendentemente, sem palavras, apenas com um menear de cabeça, que interpretei como querendo dizer “Toma, é para ti”, estende-me um saco plástico azul com um prateado robalo dentro. “É para compensar as palavras que me dás”. Pela primeira vez na vida, senti-me obrigado a ser conivente num ato de ilicitude e, ainda mais, porquanto não me é permitida qualquer retribuição monetária. O Zé, apesar das carências, ainda mantém intactos princípios de gratidão e outros que bebeu em pequenito e que hoje tão raros são.

Nota: por desejo do autor, este conto não segue o Acordo Ortográfico de 1990

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AUTOR(A)
José Mendes

José Mendes nasceu em V. N. de Famalicão. Vive, após reformar-se, em Vila do Conde. A sua formação é da área tecnológica. Passou por duas Escolas Industriais e pelo Instituto Industrial do Porto (hoje Instituto Superior de Engenharia) de onde foi arrancado antes de tempo, para ser actor no palco da guerra colonial.

Desenvolveu a sua atividade profissional, de quase quarenta anos, na  Indústria Electrónica (área da Qualidade), só interrompida por uma curta passagem pelo ensino. Após conhecer e frequentar com entusiasmo o curso “Escrita em acção”, seguido do “Livro em acção”, publica o seu primeiro conto, na colectânea de contos “Que o caminho não nos fuja”. Participa regularmente na revista literária “Palavrar”. É membro do “Clube dos Writers Premium”, onde participa nas suas diversas actividades. Os “Retiros literários”, organizados por esta Comunidade, têm-lhe permitido colher novos ensinamentos e conhecer novas vozes que, como ele, vivem a escrita com gosto.

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