“intervenções” de um rabugento

“intervenções” de um rabugento

São muitas as vezes em que um leitor acompanha o nome Michel Houellebecq com um esgar a denunciar sabor azedo, ou olor desagradável.

Falar sobre este “sacana” da literatura francesa é perder tempo, dizem. E isso afasta o leitor que nunca leu a ficção de Houellebecq e se ficou por umas frases endossadas por quem leu algumas das suas declarações.  Ora, não sabe o leitor o que perde.

Se quer começar pelas suas declarações, tem aqui um bom livro:
“Intervenções” (Alfaguara) reúne ensaios, entrevistas e opiniões do autor nascido na ilha de Reunião, em 1956.

A partir deste documento epitextual à ficção de Houellebecq encontramos chaves de leitura importantes para uma mais completa fruição de livros como “Submissão” e “O Mapa e O Território”, entre outros.

Além da descodificação de vários dos seus romances, desde o comportamento de personagens, estrutura narrativa e ideias fundamentais, existem considerações sobre Trump (“Resumindo, o presidente Trump parece-me um dos melhores presidentes que a América já conheceu.), a União Europeia (“Ou seja, uma ideia nefasta, ou na melhor das hipóteses estúpida, que se transformou aos poucos num pesadelo, do qual acabaremos por despertar.”), feminismo (“Pela minha parte, sempre vi as feministas como umas imbecis amáveis, inofensivas por natureza, infelizmente tornadas perigosas pela sua desarmante falta de lucidez.”), islamofobia (“Atacar uma religião é um direito. Por isso, sim, sinto-me obrigado, mesmo que não queira, a defender a liberdade de expressão.”), entre outras considerações.

A incisão moralista na literatura tem separado livros reaccionários dos progressistas; progressão como louvor ao novo, à mudança, antes mesmo de ser formalizada a qualidade intrínseca. Quanto ao reaccionário, esse rabugento, é avesso, logo de início, à mudança e só o tempo e o empirismo o podem resgatar da má disposição.

Cair nos livros que ecoam a sensibilidade do leitor é isso mesmo, uma queda. Não pára o leitor de cavar um buraco onde se acabará por refugiar do que o agride. Ora, a literatura é também uma picareta na nuca, um desconforto durável para lá da última página. Ainda que nos revolva as entranhas, ou principalmente por nos revolver as entranhas, deve ser lida. É imperioso contrariar as palavras do autor:
“A expressão puramente negativa deixou de ser aceite.”

Houellebecq é um dos autores que indispõe muita gente. E por isso -além da qualidade da sua escrita- é importante lê-lo. Apesar da acidez dos seus comentários, por vezes até revoltantes, a rabugice chega a ser hilariante (“Serotonina” é um excelente exemplo).

Houellebecq irrita-nos, faz-nos rir, leva-nos por boas histórias e nem tanto por boas ideias. É o sacana rabugento tantas vezes no avesso do que pensamos.  Consegue manter a nossa atenção porque é acutilante e inteligente. “Intervenções” é mais uma boa prova disso.

AUTOR(A)
Mário Rufino
Mário Rufino

Mário Rufino é professor de português língua estrangeira há 17 anos e crítico literário há nove anos.

Tem escrito crítica literária e ensaios para a revista Ler, Observador, Sábado online, P3/Público, Comunidade Cultura e Arte, entre outras publicações.
É autor do site Livrómano, onde reúne a sua crítica literária.
Fez parte da organização do Festival Literário da Madeira entre 2016 e 2018. É membro da organização do Escritaria- festival literário de Penafiel desde 2019″

Tem um filho.

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