Ler é conhecer. Escrever é eternizar.

Quando se abre um livro, abre-se a porta a um mundo novo. Um mundo de palavras e letras, que convivem numa miscelânea perfeita, capazes de nos fazer sorrir, chorar, emocionar, até viajar, ao sabor da pena que tão bem nos transporta.

 

Desde que tenho memória, convivo com livros. Em minha casa sempre os houve – muitos. Lembro-me de me sentar no chão, enquanto desfolhava com curiosidade as muitas páginas de livros intermináveis. Tão depressa as passava, que cheguei a arrancar algumas. A cada página, a imaginação fluía. Tagarelava toda a tarde – conta a minha mãe – debitando em voz alta, o que achava estar escrito a cada passagem. 

Não me recordo de quem herdei este gosto. Apesar de a minha mãe comprar bastantes, e de ter feito quase todas as coleções lançadas, nunca a vislumbrei a ler um que fosse. Um dia, já mais crescida, confrontei-a com essa observação, ao que obtive um “foi para que tu e a tua irmã tivessem muitos, podiam precisar para a escola”. Acho que o seu propósito era só mesmo colecioná-los.

Da minha avó paterna, recordo as horas passadas a cantar e a versejar, ao mesmo tempo que costurava a roupa das suas clientes. Escrevia poesia. Quando estava triste, quando estava alegre, tudo era motivo para escrever. Qualquer pedaço de papel servia, para dar vida às suas palavras. Páginas e páginas de memórias, que perduram no tempo, após a sua partida.

Na escola primária, a professora tinha por hábito oferecer-nos um livro, quando estes transitavam de ciclo. Recordo o quão excitada fiquei quando recebi, das suas mãos, um recheado de aventuras. Li-o dezenas de vezes. A partir daí, comecei a pedir que me oferecessem mais, daquela coleção. Confesso que ainda hoje gosto de os reler. Há histórias que até já sei de cor. Continuo a comprá-los para os meus filhos. Mas sou quem os lê primeiro.

A par da leitura, a escrita também sempre me acompanhou. Um dia a minha mãe inscreveu-me num curso de datilografia. Um curso de verão. Ao início, contrariada (uma miúda no início da adolescência tem mais que fazer do que passar as tardes de sábado em aulas de datilografia), o entusiasmo floresceu. A máquina de escrever, o mais próximo da tecnologia que tinha experimentado até então, tornou-se uma grande companhia. Recordo as teclas tapadas com autocolantes coloridos, que indicavam os dedos correspondentes a cada uma. Depois veio a elétrica, que excitação. Era apetrechada com corretor, o que aliviava a pressão de cometer erros.

A tecnologia evoluiu. A miúda cresceu. O computador é hoje o parceiro favorito de escrita. As tardes de sábado tornaram-se em longas e solitárias noites de escrita. A escrita é um processo desafiante – conjugar as palavras, dar-lhes sentido. Tocar o leitor, transmitir a mensagem, despertar sentimentos, é a magia de quem escreve. De quem toca a alma do leitor. O coração. Provoca interrogação. Ação e transformação. 

Para mim, cada livro lido é uma experiência que fica, marca, e faz pensar. Confesso que a minha predileção, a par dos livros de aventuras da infância, são os romances. Histórias de amor, sofridas, mas quase todas com um final feliz. 

Esforço-me por transmitir aos meus filhos o gosto pela leitura. A importância de ler. Mostrar o fascínio de conhecer novos lugares através de um livro. Ter em casa muitos ajuda, mas não chega. É importante incentivar, dar o exemplo. Embora comigo não tenha sido exatamente isso que aconteceu… 

Hoje em dia há diversas atividades que facilmente despertam a atenção dos jovens. A leitura é muitas vezes vista como aborrecida. Como pouco interessante. Cá por casa existem estratégias, incentivos, metas e recompensas. Não há fórmulas mágicas. Nem mudanças instantâneas. O gosto pela leitura cultiva-se. Aos poucos. Devagar. Com tempo, com carinho, dedicação. Incentivo e estímulo. Sem imposições ou recriminações.

A leitura ajuda-nos a conhecer novos mundos. Traz-nos novas palavras. Novos significados. Melhora a escrita. Pese embora não tenhamos todos aspiração a escritores, a escrita está presente no dia-a-dia, nas mais variadas formas. Todos escrevemos, seja de que forma for. Mensagens de texto. Redes sociais, sobretudo nestas, escreve-se cada vez mais. E não há nada que me possa ferir mais a visão do que um texto pejado de erros, ortográficos ou gramaticais.

Ler é conhecer. Escrever é eternizar. Deitemos palavras ao mundo. Deixemos a semente germinar.

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AUTOR(A)
Ana F. Pinheiro

Ana F. Pinheiro, nasceu em 1985, em Almancil, Loulé. Casada, mãe de dois rapazes, licenciou-se em Educação Social. Atualmente exerce funções de Diretora Técnica numa IPSS.

Apaixonada pela leitura, descobriu o prazer da escrita com a participação no Concurso de Escrita Criativa Poeta António Aleixo. Permitiu-se soltar as suas palavras, pondo a sua «Escrita em Ação» e percebeu que é a escrever que se sente completa, feliz e realizada.

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