Lugar seguro

Crescemos a ouvir repreensões sobre o que está errado, como se houvesse sempre um lado certo que escapa aos olhos infantis. Foi assim connosco e assim continua a ser com as crianças de hoje. Não admira que “não” seja uma das primeiras palavras que aprendemos a dizer de forma correta. Não admira que tenhamos de nos render constantemente à dicotomia do certo/errado. Em crianças aprendemos, às vezes à força, a diferença segundo a perspetiva dos mais velhos, mas, em adultos, podemos (e devemos) questionar-nos. 

Acredito na singularidade de cada um de nós. Portanto, vemos o mundo e o que nos acontece de uma forma única. O que é certo para mim, pode não o ser para outra pessoa e vice-versa. Está tudo bem. São pontos de vista, trazidos, em primeiro lugar, pela lente da sociedade e, depois, pela nossa, e é isso que nos distingue. O que vivemos, ouvimos, dizemos, sentimos e pensamos condiciona e vai ajustar a nossa lente a cada instante. Deste modo, ainda que duas pessoas observem um mesmo acontecimento, a interpretação que vão fazer dele nunca será igual. 

Para compreender e aceitar diferentes catalogações do certo e do errado, há que perceber, primeiro, que também nós temos o nosso próprio catálogo, que é apenas mais um entre tantos. A verdade absoluta é algo que não existe. Ao questionarmos o ponto de vista do outro, devemos interrogar-nos também acerca do nosso, pois nada é definitivo e tudo pode ser válido.

Os padrões de certo e errado também condicionam as escolhas. Gostamos de viver a pensar que escolhemos o que é correto. Isso é bom, no entanto, o ideal será vivermos conscientes do poder de escolhermos o que é melhor para nós e não para os outros. Já não somos crianças que obedecem aos adultos.

Nem sempre é fácil assumirmos a nossa vontade e agirmos de acordo com isso, quando são muitos os que exercem o seu domínio sobre nós. Contudo, quando aceitamos e procedemos em conformidade com aquilo que ressoa em nós, o coração serena, pois encontrou o seu lugar seguro. Essa sensação de segurança responde a uma das nossas necessidades básicas para podermos viver em pleno.

Da próxima vez que tiveres de decidir o que dizer, fazer, pensar, sentir e, até, escrever, vai até esse lugar seguro que é o teu coração e escuta-o.

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AUTOR(A)
Ana Costa
Ana Costa

Ana Costa é natural de Viseu. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas Variante Estudos Portugueses e Franceses pela FLUC, conta com mais de vinte anos de experiência no ensino. Apaixonada pela vida, pela natureza e pelo bem-estar físico, mental e espiritual, dedica-se há cerca de dez anos ao desenvolvimento pessoal e às terapias naturais. É mestre de Reiki e terapeuta/ monitora nível 1 de Chi Kung. Sempre acalentou o gosto pela escrita, publicando textos num jornal académico — Letrear — criado quando era estudante e em jornais escolares de várias escolas por onde passou. Em 2004, publicou em coautoria o livro As Faces Secretas das Palavras com a editora ASA. Em 2020, participou com um poema na Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea Vol. XII – Entre o Sono e o Sonho da ChiadoBooks. Em 2021 participou com outro poema na coletânea Alma de Mar também da ChiadoBooks. Ainda neste ano, publicou o conto “Uma ponte para o passado” na coletânea Não vão os lobos voltar e o seu primeiro livro juvenil Mergulhos na maré vazia, ambos edição de autor. Está envolvida em vários projetos literários e dinamiza Oficinas de Escrita Criativa. Acredita na força da palavra escrita e no seu poder transformador.

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