onde tudo começa

Onde tudo começa

Nada melhor do que um bem conhecido poema de Sebastião da Gama para começar:

 

“Pelo Sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo sonho é que vamos.

 

Basta fé no que temos,

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e do que é do dia a dia.

 

Chegamos? Não chegamos?

– Partimos. Vamos. Somos”

Está aqui implícito tudo o que se queira salientar sobre como “o sonho comanda a vida”, conforme se afirma noutro poema tão famoso, “Pedra Filosofal”, de António Gedeão, que Manuel Freire canta como ninguém. Não é que seja mais fácil sonhar nestes tempos de pandemia, de alterações climáticas à escala global ou de crise política por cá. Mas é nos contextos mais exigentes que o sonho se impõe como necessidade essencial para todos nós.

A verdade é que precisamos de dormir e sonhar para que a vida ganhe outras cores. Não podemos é ceder à tentação de abusar do sono e passar pela vida adormecidos. Muitos até seguem à risca a máxima de que vale a pena sonhar acordado, servindo essa inspiração para que se consigam tantos feitos extraordinários. Quantas obras de artes plásticas nasceram de sonhos? Quantos filmes, quantas músicas, quantas empresas, quantas invenções? Se não sonhássemos, quantas ideias geniais ficariam pelo caminho?

É por isso que imaginamos, ousamos, partimos, vamos, somos. Tal e qual como escreve Sebastião da Gama. É por isso que ambicionamos ter mais felicidade e um mundo melhor para todos. É por isso que não nos conformamos com pesadelos tão reais como a desigualdade, as discriminações, as injustiças, o racismo, a corrupção, as mentiras, a hipocrisia.

Sonhemos, pois. Mas sem nunca nos iludirmos ou enganarmos – sonhar não está sujeito a imposto, mas existe a possibilidade de não gostarmos do outro lado do sonho. Porque a realidade ultrapassa em muitas ocasiões a ficção, o choque é mais doloroso quando percebemos que nem todos os sonhos passam a barreira da vontade coletiva. 

E, afinal, de que somos feitos? A resposta chega-nos de clássicos de épocas bem diferentes: Humphrey Bogart, na pele do detetive Sam Spade, falava disso na célebre passagem do filme “The Maltese Falcon” (1941) ou “Relíquia Macabra”, na tradução portuguesa. Mas no filme já se recorria a uma obra bem anterior: “A Tempestade”, de William Shakespeare. É Próspero quem nos fala na cena I do Ato IV: “Somos feitos da matéria dos sonhos; a nossa vida pequenina é cercada pelo sono.”

Rompamos o cerco do sono. Tornemos as nossas vidas maiores. Não deixemos de sonhar. Como na película “O Clube dos Poetas Mortos” afirma Robin Williams feito professor Keating, “não importa o que nos digam: palavras e ideias podem mudar o mundo”. Mas antes delas estão os sonhos. É aí que tudo começa.    

AUTOR(A)
Paulo Pereira
Paulo Pereira

PAULO JORGE PEREIRA nasceu a 13 de agosto de 1970 em Lisboa. Licenciado em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa (FCSH), a paixão pelo Jornalismo levou-o a trabalhar , a partir de 1992, em jornais como A Bola, Record, Diário Económico e Jornal Económico. Em 2017 trabalhou no Sindicato dos Jornalistas e publicou o romance “Filhos da Primavera Árabe”. De janeiro de 2018 a maio de 2019 foi chefe de redação do semanário Contacto, jornal português no Luxemburgo. Em maio de 2021 entregou a Carteira Profissional de Jornalista, passando a exercer funções como assessor de imprensa do Ministério do Ambiente e da Ação Climática.

MAIS ARTIGOS