Pelo sonho é que vamos

Pelo sonho é que vamos

Penélope (para o forasteiro, na verdade, Ulisses que ela não reconheceu):

              — Ouvi meu sonho e vede o que significa. (Homero. A Odisseia)

Desde sempre, esta faculdade com que a natureza nos dotou intriga-nos e impele-nos a desvendar-lhe sentidos. Na Grécia antiga, acreditavam ser uma dádiva do Deus Prometeu, que assim concedia aos mortais um contacto com o sobrenatural, a antecipar-lhes os perigos ou glórias que haviam de enfrentar. O caráter profético do sonho manteve-se ao longo dos séculos e, ainda hoje, há quem se debruce sobre a interpretação de simbologias oníricas. Na era moderna, o sonho ganhou atenção científica, principalmente após as teses de Freud, que entendia os sonhos como a expressão dissimulada das nossas fantasias e desejos mais obscuros.

Mas sonhar, para os humanos, não se restringe a esse torvelinhar de imagens que se soltam no cérebro enquanto dormimos. E, se é certo que poderão reger as nossas atitudes ou opções, muito mais nos guiam os outros, aqueles que sonhamos de olhos bem abertos. Com eles, projetamos expetativas, construímos subterfúgios de libertação, criamos ilusões para ludibriar a dureza de uma realidade insustentável que a vida nos imponha e, em casos extremos, podemos mesmo transformá-los em estratégia — consciente, ou não — de sobrevivência. Este sonhar acordado é imaginar, é o acreditar que nos impulsiona na busca da superação.

 

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce

(F. Pessoa. Mensagem)

 

Dessa busca se tem feito a história da humanidade. Mau grado termos de reconhecer que, tantas vezes, porque alguns sonharam e se focaram na concretização, renegando ou menosprezando danos, muitos outros sofreram. As conquistas, o progresso, a evolução tecnológica e científica de que dispomos têm os pés assentes nas ossadas ensanguentadas das vítimas de gerações que nos antecederam. Na história da civilização quantos sonhos se tornaram perversos? Quantos sonhadores destruíram e mataram, acreditando perseguir um bem maior, como servir a deus, ao rei, ao país, a valores ou tradições? Deus quer, o homem sonha, a obra nasce, diz Fernando Pessoa, e a referência divina acrescentará fulgor épico ao seu verso, porém, sabemos que só ao homem cabe o querer, o sonhar e o fazer. Por isso, e recorrendo a Gedeão, que o sonho seja espuma e fermento e nos incite a prosseguir, mas também tela, cor e pincel, para que possamos pintar o propósito final sem, no entanto, descurar as implicações na vida dos outros, ou o que teremos de abandonar da nossa, durante o percurso.

 

Somente através da arte conseguimos sair de nós mesmos e conhecer a visão do outro sobre o universo.

(Marcel Proust)

 

Poucas coisas serão tão poderosas para açular o sonho como a arte e, em particular, a literatura. Nas páginas do livro, o escritor enleia tranças de palavras para que cada leitor as desenlace a seu modo, vivenciando o texto na medida da bagagem de vida que carrega, e assim o recrie, e se recrie. Ao ler, superamos fronteiras cronológicas e espaciais, experimentamos sensações e sentimentos, encontramos perspetivas com as quais nos identificamos e que nos apaziguam — pela frase que expressa o que não fomos capazes de verbalizar — e outras que nos inquietam e confundem. E neste fascínio, surge a vontade de também sermos tecedores de sonhos. Urdimos enredos e queremos contá-los aos outros, embalar-lhes a fantasia, emprestar-lhes consolo, ajudar a amadurecer, informar ou legar testemunho.

 

(…) Comparar a vida ao sonho… é uma das grandes metáforas da literatura, porque corresponde a algo de essencial.

 (Jorge Luís Borges)

 

Entre o querer e a hesitação, a voz interna põe-se a alvitrar:

— Esse é um sonho gigante, de muitas noites e muitos dias; de multíplices leituras, a acumular provisões para o caminho na procura de uma expressão que seja a tua. Terás de afrontar a incerteza para não sucumbires à severidade da autocrítica ou ao temor da crítica alheia, nem soçobrares perante a dificuldade de alcançar um espaçozinho por entre a fronde de autores — ironicamente, quase todos estrangeiros — alinhados nos escaparates das livrarias do teu país. Ah! Não esqueças o mundo virtual, esse caldeirão onde pulula a demanda por fast-reading, tão contrária ao prazer lento de saborear um livro, e onde se perfilam programas capazes de criar personagens, cenários e tramas surpreendentes para compor histórias, ameaçando fazer do escritor uma redundância. E, todavia, uma estrada tão larga pela qual também sentes poder ir.

 

(…) haja ou não haja frutos,

      pelo sonho é que vamos.

                (Sebastião da Gama)

 

Então, se esse sonho te comanda os dias, mesmo pressentindo que ao acordar não encontrarás o leitor do outro lado a concluir-lhe a substância; se ele é, para ti, uma razão de viver e com ele não causas dano, então, cumpre-o. Depois, deixa-o pousado no silêncio, à espera que um acaso futuro o encontre e o olhe — com admiração, ou desdém, pouco importa. Vai!

E eu vou. Vou, pelo sonho.

AUTOR(A)
Carmo Marques

Licenciada em Filologia Germânica, pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, dedicou a vida ao ensino, tendo promovido inúmeras atividades com propósito de cativar os jovens para a leitura e escrita. Foi coautora da tradução dos contos do escritor inglês Romesh Gunesekera, em The Spice Collector/O Colecionador de especiarias, 2008. Em 2014, na sequência de tese de mestrado na área da literatura medieval, publicou «No Reino Aventuroso de Artur – Um olhar sobre Mulher medieval a partir de uma leitura de A Demanda do Santo Graal». Tem participado em revistas e coletâneas de poesia e, em 2021, como Carminho Barreto, publicou o livro de poemas «Da terra e da vida». Mantém, há alguns anos, uma crónica quinzenal no Jornal da Madeira. Madeira, ilha onde nasceu e reside, com o marido e dois ternurentos labradores.

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