Literatura a viagem infinita

Literatura: a viagem infinita

Creio que não há nada que me cause tanta estranheza como ouvir alguém dizer que não gosta de ler. Talvez por ter crescido rodeada de livros, e por terem sido estes a minha mais consistente companhia ao longo da vida, não entendo que não se goste do refúgio que os livros nos proporcionam.

Para mim, ávida leitora, nada supera o prazer de mergulhar nas páginas de um livro e perder a noção de tempo e de espaço – porque é exactamente isto que acontece quando leio: saio da minha vida e dou por mim a “viver” na realidade que aquele livro me mostra.

A leitura usa um dos recursos mais potentes do ser humano: a imaginação. Senão, repare: quando lemos um livro, por muito exaustiva que seja determinada descrição, a imagem que construímos na nossa mente é apenas nossa. Vou mais longe: perante a mesma descrição, se pedirmos a dois leitores que desenhem o que leram, os dois desenhos vão ser diferentes, precisamente porque, além do que o que o escritor nos dá, usamos o que temos de mais nosso: a memória das coisas, que depois convertemos em imagens que tornam aquele texto ainda mais palpável.

 

A literatura tem um vasto poder que importa reforçar e manter vivo: o de nos fazer pensar o mundo para lá do que a nossa vista alcança. Quantos de nós já conhecemos realidades que nunca imaginaríamos possíveis porque um escritor trouxe essas mesmas realidades para a vista de todos, as expôs e nos obrigou a confrontarmo-nos com elas?
Enquanto escritora, quero que a minha voz sirva para pôr o dedo na ferida e não deixar esquecer coisas que são lamentáveis. Se o que eu escrevo levar as pessoas ao pensamento crítico e à mudança de alguns comportamentos, tanto melhor. Obviamente, não creio que vá mudar o mundo com as minhas palavras. Mas se fizer com que alguém tome consciência de alguma coisa que precisa de ser pensada e corrigida, então já cumpri parte do objectivo.

 

É porque a leitura nos permite uma visão do mundo mais ampla que me parece sempre redutor que não se goste das infinitas possibilidades que os livros guardam em si. E é por isso que, no que depender de mim, as pessoas à minha volta hão-de continuar a ter um contacto privilegiado com livros, porque sou incapaz de guardar tesouros só ara mim e faço questão de ir mostrando as maravilhas que saem da cabeça dos meus escritores preferidos.

A pedido da Autora, este texto não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

AUTOR(A)
Lénia Rufino

Lénia Rufino nasceu em 1979, em Lisboa. Cresceu nos subúrbios, rodeada de livros. Estudou Publicidade e Marketing, mas devia ter estudado Psicologia Criminal, a sua grande paixão a par da escrita. Aos dez anos escreveu o seu primeiro conto e decidiu que, um dia, haveria de ser escritora. Demorou trinta e dois anos a conseguir.
Publicou vários contos no DNJovem e lamenta a extinção desta plataforma de divulgação de novos talentos. É autora de blogues desde 2003. Atualmente, colabora com o Repórter Sombra (www.reportersombra.com), onde publica contos mensalmente. O Lugar das Árvores Tristes é o seu primeiro romance.

MAIS ARTIGOS