Silêncios

Entrou no comboio com uma única e persistente ideia na cabeça: fugir.

A partida para outra paragem, outro espaço e até para outro tempo. Tinha sido rejeitada. Colocada sem qualquer ambiguidade perante a rutura. O coração parecia que se deslocava no peito. Passava pelas pessoas, sentadas nos bancos corridos da carruagem, com passos hesitantes, quase sonâmbulos.

Eram nove da noite e tinha escurecido completamente, como conseguiu observar pela claraboia da estação. As luzes irromperam súbitas e abstratas, absolutamente implacáveis dentro da carruagem. Desviou a cara numa proteção dos olhares curiosos que, no entanto, a perseguiram até que desapareceu dos ângulos indiscretos. Na plataforma de ligação, fez uma pausa e encostou-se com desalento à porta metálica do WC.

O coração continuava a bater acelerado. Vislumbrou, naquele momento, Álvaro, que a acompanhara até à estação. Como te atreves, seu bruto, seu insensível, seu grandessíssimo nojo, a vir dizer adeus? Como te atreves?

Avançou decidida para a carruagem seguinte e descobriu, com surpresa, compartimentos separados. Percorreu o corredor absorta, encontrando um rosto, uma perna, as costas largas de alguém, aqui e ali, até que finalmente encontrou um compartimento vazio e às escuras. Entrou e fechou a porta. As cortinas também estavam corridas. Tudo fechado e numa penumbra deliciosa.

Suspirou satisfeita com um pequeno sinal de contentamento interior. Ponto final na porcaria da relação! Os soluços acabaram por vencê-la, numa derrota imensa, sentiu as lágrimas pesadas escorregarem pelas faces e pingarem as mãos. Contraía o peito, num incrível esforço para parar o absurdo sofrimento que lhe vinha do coração. Era demasiado dorido, para conseguir impor a razão e encontrar a essência das coisas e do mundo.

Pelo menos não me vês chorar, seu grande cabrão! Assoou-se ruidosamente ao décimo lenço que usava, para depois o amarfanhar com violência entre as mãos trémulas. A seguir foi a vez do cigarro, apaziguador, que chupou em fumaças longas e libertadoras[1]. O comboio apitou, numa sintonia perfeita com o tamanho grito que lhe vinha do peito.

E aquela extraordinária vontade de fugir…

Continuava tudo às escuras dentro do compartimento, apenas iluminado com a fraca luz do corredor. Quando entraram no túnel do Rossio tudo pareceu mais negro, mais terrível. Foi abordada pelos seus demónios interiores, impassíveis na provocação do medo. Gritaram-lhe loucuras ao ouvido, ávidos por morte.

O revisor cortou o pesadelo com a luz, que acendeu mal entrou, e o indiscutível ar de eficiência. A sua cara devia refletir uma angústia patética, pois o homem, quando saiu, voltou a apagar a luz numa atitude respeitosa.

Lambia a ferida do mal querer, do se sentir mal-amada. Deixei de sentir o que sentia por ti. É tudo, é tudo, é tudo…é tudo.

Porra para a autocompaixão. Ponto final no assunto e pronto!

Como conseguia seguir viagem com aquele estigma a cortar-lhe a respiração? Olhou a noite através da janela. Luzes saltitantes, prometedoras de encontros e de amor. Estrelas pequeninas e intranquilas, expectantes de vida. Sorriu. Um brevíssimo sorriso, mas mesmo assim um despertar.

Vinham-lhe à memória os incríveis momentos de paixão que vivera com Álvaro. Sentia-se a ganhar uma crosta de dureza, que nunca quisera, mas que lhe pertencia. Afivelou uma máscara fria ao rosto jovem, belo e marcado.

O comboio parava na primeira estação do percurso que a levava para Oeste. Voltava para casa, com toda aquela inominável vontade de fugir!

A porta abriu-se e uma silhueta masculina surgiu a perturbar-lhe o silêncio. O homem cumprimentou-a e perguntou-lhe se preferia a luz apagada.

Com voz rouca, respondeu que sim. Que preferia.

Ele fechou a porta e sentou-se no banco em frente, do lado oposto. Quando entrou o revisor, o homem levantou-se, rápido, e acendeu a luz. Mostrou o bilhete, sempre de pé, e conseguiu vê-lo pela primeira vez. Aparentava cerca de quarenta anos, era magro e moreno, grisalho, com olhos negros entendidos da vida. Mãos longas e cuidadas. Vestia com elegância e status.

Ouviu-o dizer ao revisor que “A senhora ia incomodada. Preferia descansar com a luz apagada”. Num murmúrio, para que ela não o ouvisse. O homem da CP voltou a dedicar-lhe um olhar compassivo, quem sabe a pensar na filha, mais ou menos da mesma idade, e saiu, muito cavalheiro.

O meu companheiro de viagem voltou a apagar a luz e com todo o à-vontade, preparava-se para dormir.

Tirou um cigarro de um maço de tabaco estrangeiro e o clarão do isqueiro do viajante atingiu-a como uma bofetada. A chama estava demasiado alta, demasiado perscrutadora.

Regulou a chama, aproximando-se, e sentou-se calmamente ao lado dela. Acendeu um longo cigarro para si próprio e sorriu-lhe levemente, com delicadeza.

Ainda sentia picadas nos olhos e a imensa dor no espírito vagabundo. Lá fora, levantara-se o vento da noite de outono, que fazia companhia ao ritmo cadente da máquina.

E aquela vontade louca de fugir…

O comboio continuava a galgar quilómetros e a transportar a proximidade temida. Cintilavam luzes pelos apeadeiros pacatos, por onde passavam, sem abrandar, em marcha célere, como que rompendo a noite. No compartimento agiam as faíscas lúcidas de vida e de atração humana.

O estranho acabou por meter conversa. Amena, com aquela simplicidade que caracteriza as relações fortes de amizade. Espontânea de sedução. Aos poucos, foi-se criando um laço de ternura, movido pela naturalidade de tudo.

Voltava para a Figueira, onde vivia com a mulher e dois filhos. Não costumava andar de comboio, não resistiu a confessar. Lembrava-lhe a meninice, quando ia visitar a avó, e a mãe, para o distrair, lhe cantarolava pouca-terra, pouca-terra…

E sorria, com o maior encanto que Deus lhe tinha dado.

Convidou-a para tomar um café no bar do comboio, quando a apanhou sorrindo por uma piada que dissera.

Que não, obrigada. Retirou outro cigarro, num incansável gesto de fumadora.

O perfume que ele usava instalara-se no ar. Quente e ligeiramente doce, provocava uma ambiência pesada, misturada com o espesso fumo dos cigarros. Abriu a janela e num rodopio fantástico, entrou esvoaçando uma amarelecida folha de plátano. Tinham chegado a Torres Vedras. A folha quase lhe batera no rosto, tal era o ímpeto que a impelia.

O comboio permaneceu parado cerca de dois minutos e apesar de se ouvirem os habituais movimentos não foram incomodados por eventuais passageiros.

Fugir!

Cálida, fechou os olhos, e a explosão de Álvaro, ligada à alucinação do corte e da noite, ia fechando o ciclo descoordenado dentro de si mesma.

Sentiu que ele lhe tocava ao de leve, no braço abandonado e sem vontade.

– Porque está tão triste? Tente viver, encontrando o seu desenho de vida sem se deixar perturbar pela complexidade de tudo.

O que quereria ele dizer? Que sabia ele?

Olhou-o, visivelmente irritada, com a provocação gratuita a que era submetida.

Ele sorria, mostrando uns dentes maravilhosamente brancos e deixava escapar uma subtil autoridade de homem maduro e experiente.

Faltavam apenas duas estações para ela sair.

Fugir! Continuava a querer fugir…

O estranho permanecia sentado ao seu lado. Tinha acendido uma pequena luz de presença que não iluminava o compartimento, mas que o deixava envolto em sombras silenciosas.

Ele procurou-lhe a mão. Agarrou-a muito ternamente e apertou-a com gentileza. Um pequeno toque, como a querer dizer: “Estou aqui, não me vês? Sou eu.”

Foram segundos de completa comunicação interior, de fluidos de energia espiritual, partilhados como mistérios alucinantes.

A mão emitia uma força inusitada, um poder qualquer…

Calma, segura, fácil, como se tivesse sido sempre assim. Ele fazia-lhe festas meigas, com os dedos mágicos presos aos dela.

Sorria, cúmplice do medo que ela ia sentindo.

Chegaram à estação onde ela devia sair e permaneceram sentados, de mãos dadas, confiantes.

Ela viu o comboio sair da estação e não moveu um músculo na face lisa e serena.

Não queria mais ser a mesma mulher…

Ele perguntou-lhe, direto, quase frio.

— Ficas comigo esta noite?

 

FIM

(1993)

Isabel Gil

 

 

[1] A ação relatada nesta narrativa tem lugar no ano de 1993. Sendo assim, não estava ainda em vigor a legislação tabagista atual que não permite que se fume em locais públicos fechados.
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AUTOR(A)
Isabel Gil
Isabel Gil

Isabel Gil, natural da República da Guiné-Bissau, filha de militar português e mãe guineense, cresceu e estudou em Portugal desde os cinco anos de idade. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa. Concluiu o estágio pedagógico pela Universidade Aberta de Lisboa. Lecionou a disciplina de Filosofia e Psicologia no Ensino Secundário, Pedagogia e Psicologia do Desenvolvimento, na Escola de Magistério Primário e na Escola de Educadores de Infância, em Caldas da Rainha. É sócia fundadora de duas Organizações Não Governamentais (ONG), nomeadamente, a  Associação “Atelier Arte e Expressão” vocacionada para o apoio à arte, cultura e projectos juvenis, sediada em Caldas da Rainha e a Associação “Humanity Himalayan Moutains” de que faz parte como 1º Secretária da Assembleia Geral. Escreve regularmente, desde a aposentação em 2021.

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