Acreditamos que somos donos do nosso tempo, mas somos nós a apertar o torniquete. Essa autoexploração, que veste a roupa sedutora da liberdade, esvazia-nos e desgasta-nos, sem que notemos.
“A falta de serenidade conduz a nossa civilização à barbárie. Nenhuma era valorizou mais os seres ativos, isto é, os inquietos. Uma das correções que urge, pois, fazer ao carácter da humanidade é desenvolver, e em grande medida, o seu lado contemplativo.”
— Friedrich Nietzsche
Chamam-lhe tédio, mas percebo agora que é algo mais do que o simples significado que a palavra encerra. É uma dobra do tempo, e é nessa pausa densa que a criatividade encontra o seu primeiro lampejo. Ao ler A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, entendi que o tédio profundo não é um desvio da vida (algo bastante difícil de aceitar para uma mente irrequieta, confesso), mas um dos seus motores secretos. “Se o sono é o clímax da descontração física, o tédio profundo é o ponto alto da descontração espiritual. O frenesim não gera nada de novo por si, limitando-se a reproduzir e a acelerar o que já existe.” Esta frase fica como um refrão: a pausa não é improdutiva; é hipótese de novidade. Os livros trazem-nos outras consciências.
Han expõe a armadilha da nossa época: “O excesso de trabalho e de produção conduz, a um nível mais elevado, à autoexploração. Esta é mais eficaz do que a exploração por terceiros, uma vez que vem associada a um sentimento de liberdade. O ser explorado é simultaneamente o que explora — agente e vítima já não se distinguem entre si.”
Quantas vezes confundimos autonomia com disponibilidade total? Acreditamos que somos donos do nosso tempo, mas somos nós a apertar o torniquete. Essa autoexploração, que veste a roupa sedutora da liberdade, esvazia-nos e desgasta-nos, sem que notemos. Mas os números sobre o aumento dos problemas de saúde mental ou do incremento das taxas de suicídio falam nas entrelinhas.
Para quebrar esse ciclo, Han propõe uma via simples e, por isso, radical. Primeiro, viver o cansaço. O “cansaço eloquente e conciliador, o cansaço que detém a capacidade de ver”, aquele cansaço bom de quando éramos crianças, depois de horas a brincar no recreio, a jogar às escondidas ou à apanhada; o cansaço revigorante que fica no corpo após um treino intenso ou uma boa noite de sexo; a languidez que chega depois de um dia de praia.
Em segundo lugar, escutar: “O dom da escuta assenta precisamente na capacidade de prestar uma atenção profunda e contemplativa, capacidade vedada ao ego hiperativo dos nossos dias.” Escutar o outro, o mundo, a nós mesmos; ouvir o som do silêncio, como trauteavam Simon & Garfunkel. Num quotidiano saturado de sound bites, a escuta é um ato de desobediência.
Ler este ensaio é um convite a essa desobediência: reconhecer a utilidade do inútil, cultivar a demora, o cansaço, parar, e, sobretudo, acender a fúria que rompe o hábito. Não a fúria cega que destrói, mas a que faz rutura, a que recusa a normalidade entorpecida e abre caminho a outro modo de existir. Quando o niilismo corrói o respeito pela alteridade, em que o outro é reduzido a obstáculo, a fúria torna-se gesto ético, impulso de criação. Não calar. Não ficar indiferente.
Filosofar, pensar, refletir: verbos que pedem demora e coragem. Num mundo saturado de ruído, em que a indiferença e a presença constante nas redes sociais se disfarçam de conexão, o pensamento contemplativo torna-se ato de resistência e de empatia. Talvez o gesto mais criativo e necessário, hoje, seja este: parar, contemplar, deixar que o tédio profundo nos devolva ao ser, permitindo que, do silêncio, surja a palavra honesta, sentida, que ainda nos ligue uns aos outros.
«Um elogio ao tédio», crónica publicada originalmente no ÍMPAR, PÚBLICO, a 19 de setembro de 2025

