Autor(a):

Gisela Silva
A literatura pelos tempos

Do Realismo ao Naturalismo: tensões epistemológicas e inovações estéticas

A segunda metade do século xix constitui um dos períodos mais dinâmicos, complexos e heterogéneos da história literária europeia, nomeadamente em Portugal. Após um ciclo marcado pela mimese e crença de que a literatura deveria refletir tudo quanto os sentidos podem apreender, a Modernidade Literária configura-se num ambiente intelectual em ebulição, onde a racionalidade toma a dianteira. Para transformar, de modo profundo, o campo estético, ideológico e técnico da produção literária, contam a consolidação de uma burguesia cada vez mais interventiva no debate público e preocupada em assegurar o seu papel nos diferentes domínios sociais, o advento de novas conceções científicas e a emergência de sensibilidades artísticas renovadoras.

Neste quadro emergem quatro movimentos fundamentais: o Realismo, que se anuncia como literatura de denúncia crítica e representação rigorosa; o Naturalismo, que radicaliza a cientificidade do olhar; o Parnasianismo, que consagra a autonomia absoluta da forma, e o Simbolismo, que reivindica para a literatura a sua dimensão interior, espiritual e mistérica.

Se em França Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, inaugura uma nova narrativa — marcada pela ironia subtil, pela objetividade analítica e pela descrição rigorosa do quotidiano —, em Portugal é Eça de Queiroz quem melhor assimila e reinventa essa matriz realista, tornando-se o maior representante do Realismo Português, a partir da década de 70. Inspirado pela crítica social francesa, o romancista assume a missão de representar com lucidez a sociedade portuguesa, denunciando, também ele, numa ironia corrosiva, desigualdades e ilusões coletivas, contradições ideológicas, vícios estruturais, a hipocrisia moral e o provincianismo cultural. E serão paradigmas literários como O Crime do Padre Amaro (1875), O Primo Basílio (1878), A Relíquia (1887) e Os Maias (1888), que expõem o profundo desfasamento entre o discurso moralista e os comportamentos efetivos de uma sociedade suspensa entre modernidade e tradição, as obras do Realismo Português, nascidas das ideias debatidas em cenáculo.

Na tão aclamada Geração de 70 surgem discursos estéticos e elogios literários aos «autores da Modernidade», debates entusiastas, onde se discutem as primeiras ideias de romances e ensaios, como os de Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Oliveira Martins, por exemplo. Desejando revelar o verdadeiro papel do escritor: o de ser um observador-intérprete que analisa as tensões do seu tempo, posicionando-se como agente de transformação, para que a literatura também reivindique um lugar interventivo, educativo e racional na sociedade, estes defendem a institucionalização do campo literário como objeto académico. Filtrando e transformando modelos franceses, para responder à especificidade cultural portuguesa, será a atuação conjunta destes escritores e intelectuais que fará do Realismo um dos expoentes da Modernidade Literária em Portugal, defendendo que a objetividade narrativa, a verosimilhança, o criticismo social e a centralidade do quotidiano são os princípios estruturantes de uma estética literária que rejeita o ornamento excessivo e as idealizações românticas.

O Naturalismo, frequentemente visto como uma corrente interna ou extensiva do Realismo, virá aprofundar o desejo de conferir estatuto científico ao romance. Com Émile Zola à cabeça, o movimento inspira-se no positivismo de Comte, no determinismo biológico darwinista e na medicina experimental. Defende-se que o escritor deve agir como um cientista, apoiando o seu trabalho no «método experimental» que lhe permita observar e explicar o comportamento humano através das influências do meio, da hereditariedade e das condições socioeconómicas, fazendo do romance um instrumento científico de análise do ser em sociedade.

Considerando o determinismo, a cientificidade e a radicalização do método na textualização, ao contrário do realista, que observa a sociedade com um olhar crítico, o naturalista pretende explicar os mecanismos que determinam a ação humana. Assim, faz da literatura um laboratório onde, nas bancadas, estão colocados para observação as personagens e a sua genética, os espaços e o meio que os define, bem como as demais circunstâncias que conferem autenticidade ao romance

Esta impessoalidade narrativa, as descrições minuciosas, quase anatómicas, das personagens e dos ambientes, o apogeu das temáticas degradantes como o alcoolismo, a prostituição, a doença, a miséria urbana, numa anti-idealização absoluta da vida humana, definirão a estética naturalista, apagando, por conseguinte, a voz autoral carregada de emotividade. Será essa tomada de posição extremada que irá pôr em evidência os limites do racionalismo positivista, abrindo-se a reações posteriores, como o Simbolismo, que surge como necessidade de reencontrar a dimensão espiritual e subjetiva que a literatura não pode perder.

Embora, em Portugal, a receção do Naturalismo seja dissemelhante da do Realismo, importa reconhecer que a crítica literária refere que certos romances, nomeadamente de Eça de Queirós, revelam traços inequívocos desse movimento, o que vem confirmar tanto a sua pluralidade estética como complexidade ideológica, ambas responsáveis pelas reconfigurações estéticas na Modernidade Literária dos finais do século.

Consultas bibliográficas:

Aguiar e Silva, V. (1992). Teoria da Literatura. Lisboa: Almedina.

Almeida, Manuel de Souza e. (1983). Eça de Queirós: Uma Estética da Ironia. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
Berrini, Beatriz (1990). O Naturalismo: História, Doutrina, Crítica. Lisboa: Editorial Presença.
Compagnon, Antoine (1996). Os Cinco Paradoxos da Modernidade. Lisboa: Vega.

Castro, Aníbal Pinto de (2008). O Naturalismo na Literatura Portuguesa. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.
Cunha, Carlos Manuel Ferreira da (1997). Realismo e Naturalismo: Percursos e Diferenças. Lisboa: Edições Colibri.
Faria, Ernesto Rodrigues de (2002). Eça de Queirós: Realismo, Ironia e Modernidade. Porto: Campo das Letras.
França, José-Augusto (1982). A Geração de 70. Lisboa: Livros Horizonte.
Lopes, O; Saraiva, A. J. (1999). História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto Editora.

Marnoto, R. (2010). História Crítica da Literatura Portuguesa. Vol. 5, «Realismo e Naturalismo». Lisboa: Verbo.

Machado, Álvaro Manuel (1981). O Naturalismo em Portugal. Lisboa: Editorial Estampa.
Martins, Oliveira (1996). Portugal Contemporâneo. Lisboa: Guimarães Editores.
Reis, Carlos; Cabral, Álvaro Manuel (1998). Dicionário de Narratologia. Coimbra: Almedina.
Seixo, Maria Alzira (1987). A Estética de Eça de Queirós. Lisboa: Editorial Presença.
Zola, Émile (1995). O Romance Experimental e o Naturalismo na Crítica. Lisboa: Editorial Presença.

Bibliografia de autor:

Flaubert, Gustave. Madame Bovary (1998). Paris: Edition Gallimard.

Queiroz, Eça (1991). A relíquia. Lisboa: Círculo de Leitores.

Queiroz, Eça (1994). O primo Basílio. Lisboa: Círculo de Leitores.

Queiroz, Eça (1994). O crime do Padre Amaro. Lisboa: Círculo de Leitores.

Queiroz, Eça (1991). Os Maias. Lisboa: Círculo de Leitores.

Zola, Émile (2011). Le Roman Expérimental. CreateSpace Independent Publishing \Platform.

Partilhe:
AUTOR(A)
Gisela Silva

Gisela Silva é professora de Português do Ensino Básico e Secundário; tem um Mestrado em Estudos da Criança – Especialização em Análise Textual e Literatura Infantil, pela Universidade do Minho; é doutorada em Ciências da Educação, Especialidade em Literatura para a Infância também da Universidade do Minho; tem uma pós-graduação em Gestão de Bibliotecas Escolares, na Escola Superior de Estudos Industriais e Gestão.

Foi professora de Literatura Infantil, Expressão Poética e Atelier de Língua Portuguesa, nos Cursos de Licenciatura em Ensino Básico; investigadora no CIEC – Centro de Investigação em Estudos da Criança da Universidade do Minho.

É autora e coautora de livros sobre Leitura e Mediação Leitora e formadora nas áreas/domínios do Português e da Literatura Portuguesa, na mediação leitora e escrita criativa.

É membro do júri do prémio Literário Luís Sepúlveda das Correntes d’Escritas/ Porto Editora.

É autora de livros infantojuvenis e escreve recensões sobre livros juvenis. Ultimamente tem escrito sobre o young adult romance, sobretudo pelo contacto diário que tem com o jovem-leitor.

Tem o sonho de terminar o seu romance e de continuar a orientar os jovens nas suas leituras.

 

MAIS ARTIGOS