QUESTIONÁRIO DE PROUST A ...
Teolinda Gersão
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Teolinda Gersão é uma das mais importantes ficcionistas portuguesas contemporâneas, autora de uma obra vasta e marcante, composta por romances, novelas e livros de contos. Ao longo da sua escrita, tem-se dedicado a temas como a luta das mulheres pela afirmação da sua voz e dos seus direitos, o combate ao colonialismo, ao racismo e à ditadura, e a defesa de uma liberdade partilhada, solidária e profundamente humana.

A sua ficção afirma, de forma constante, o valor da arte, da imaginação e da vida interior, num mundo em que o desejo, o amor e o sonho são cada vez mais empurrados para as margens. Entre as suas obras destacam-se O Silêncio, Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo, A Casa da Cabeça de Cavalo, A Cidade de Ulisses, O Regresso de Júlia Mann a Paraty, A Árvore das Palavras (passado em Moçambique) e Autobiografia não escrita de Martha Freud, o seu livro mais recente.

A sua obra está traduzida em vinte países, e os seus contos integram antologias internacionais de referência.Várias das suas obras foram adaptadas para teatro, em Portugal, na Alemanha e na Roménia, bem como para curtas e médias-metragens, incluindo a aclamada adaptação de “Vizinhas”. Recebeu alguns dos mais importantes prémios literários portugueses e é amplamente reconhecida pela crítica como uma das escritoras portuguesas vivas mais relevantes.

Foi writer-in-residence na Universidade da Califórnia, Berkeley, é membro honorário do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, e foi distinguida com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural da Cidade de Coimbra. Vive e trabalha em Lisboa.

Qual o principal aspecto da sua personalidade?

Não sei. Talvez a resistência.

Qual é a sua qualidade favorita num homem?

Num homem ou numa mulher, a verticalidade, a integridade.

Qual é a sua qualidade favorita numa mulher?

Num homem ou numa mulher, a verticalidade, a integridade.

O que mais aprecia nos amigos?

A compreensão e o afecto.

Qual é o seu principal defeito?

O perfeccionismo, e a ilusão de que nada é demasiado difícil e se consegue com um trabalho intenso. Mas tenho de reconhecer que há circunstâncias e factores que não controlamos.

Qual o seu passatempo favorito?

Acho que não tenho verdadeiros passatempos, ou não encaro nada desse modo: Viajar, caminhar, estar na praia, ir ao cinema, são momentos de descoberta e de aprendizagem, e não de “queimar” tempo. O que mais sinto é falta de tempo, os dias deviam ter mais horas.

Qual sua noção de felicidade?

Estar em paz comigo e com o mundo, e saber que cada um de nós importa.

Qual sua noção de infelicidade?

A sensação de que nada tem sentido.

Se não fosse você mesmo, quem quereria ser?

Se não fosse eu mesma, gostaria de ser árvore, pedra, pássaro, onda, algo portanto não humano, apenas um pedaço da Natureza.

Onde gostaria de morar?

Onde moro, escolhi Lisboa e tornei-a a minha cidade, embora não tivesse nascido aqui.

Qual sua cor favorita?

Na natureza adoro todas as cores, incluindo o branco e o preto, que não são realmente cores. Para me vestir também gosto de branco e de preto, e de cores suaves, por vezes também de algo mais colorido, mas não demasiado. Não me sentiria bem vestida de cores “berrantes”.

Qual seu escritor favorito?

Se tiver de escolher um, direi Homero.

Qual o seu poeta poeta favorito?

Camões, na sua lírica, que prefiro à epopeia.

Qual seu herói favorito na ficção?

Ulisses, porque cada um de nós repete a sua história, o regresso a casa é a procura existencial de si próprio e do seu lugar no mundo.

Qual a sua heroína favorita na ficção?

Não há uma, são todas as mulheres sem nome nem voz que foram subjugadas, maltratadas e diminuídas pelos homens e pela vida.

Quais os seus pintores e compositores favoritos?

Direi, mais ao menos ao acaso: David Hockney e Bach.
Bach, porque a sua música tem uma estrutura fixa, dentro da qual uma infinidade de possibilidades se desdobram, mas sempre tudo se organiza e encaixa, sem falhas nem vazios. No caos do nosso mundo, é o modelo de um outro mundo, absolutamente perfeito e transcendente. David Hockney porque é aparentemente simples, mas na verdade intrigante, e se pode olhar de múltiplas perspectivas.

Quais os seus heróis na vida real?

Os que se entregam às grandes causas e defendem, para si e os outros, a liberdade de existir e de ser livre, numa sociedade democrática e justa. Zelensky é sem dúvida um deles.

Qual a sua figura feminina favorita na história?

Maria, mãe de Jesus, fosse virgem ou não (aliás mãe nenhuma é virgem).

Quais seus nomes favoritos?

Acho que não tenho, ou pelo menos nunca penso nisso.

O que mais odeia?

A traição e a hipocrisia.

Quais as figuras históricas que mais odeia?

Os ditadores, os prepotentes, os paranóicos que chegam ao poder e nos desgraçam.

Qual o evento militar que mais admira?

A vitória sobre o nazismo na 2ª Grande Guerra.

Qual o talento natural que gostaria de ter?

Gostaria de ter o poder de curar, mas sei que seria impossível.

Como gostaria de morrer?

De forma rápida e sem sofrimento.

Qual é seu estado mental atual?

Tranquilo.

Por qual defeito tem menos tolerância?

A arrogância. Num homem ou numa mulher não suporto a atitude de “estrela” ou “diva”, porque nenhuma pessoa é mais que uma pessoa.

Qual seu lema favorito?

Um dia de cada vez.