Júlia regressava ao país natal.
Há sessenta anos que vivia distante, na longínqua Austrália, para onde os pais a haviam levado ainda menina, antes de perfazer os dez anos. Ali cresceu e amadureceu, fazendo da saudade uma companheira silenciosa. Jamais esquecera o seu pequeno recanto na aldeia: o lar dos avós, que nunca mais voltara a ver, o cenário das suas primeiras alegrias. Recordava-se com ternura dos primos e das amigas da escola, das brincadeiras no terreiro; das frutas maduras colhidas das árvores dos vizinhos, às escondidas; da escola modesta, da professora que lhe abrira as portas do saber e ensinara os preceitos com que haveria de conduzir a própria vida.
Mais tarde, conheceu Manuel, um conterrâneo, que já ali vivia com a família. Também ele era emigrante, e conhecia bem as dificuldades de adaptação ao novo mundo. Tinham isso em comum, o resto só o futuro diria.
O encontro deu-se no Clube Cultural Português, em Sydney, numa noite de festa em honra do Dia de Portugal. O salão, engalanado com bandeiras da pátria e fitas verdes e vermelhas, ressoava com o murmúrio das conversas e o compasso das músicas. As famílias faziam questão de estar presentes naquele acontecimento, não só para se encontrarem, trocar impressões e mostrar à comunidade como prosperavam naquela terra estranha, mas também para matar saudades das iguarias portuguesas que as senhoras gostavam de apresentar naquele dia. Era a primeira vez que Júlia participava num evento de tamanha importância. Passara a tarde inteira em preparativos: escolhera com cuidado o vestido, penteara-se com delicadeza e aplicara a maquilhagem, com mãos trémulas, como quem se prepara para um momento que pressente decisivo.
A hora da dança começou, os rapazes e as raparigas alinharam–se no salão, trocando olhares tímidos e curiosos, disfarçados sob sorrisos incertos. No ar pairava a expectativa de quem sabe que, entre um passo e outro, algo pode começar. Júlia já tinha notado um rapaz de porte distinto, com o cabelo cuidadosamente penteado, as feições serenas, um ar que inspirava simpatia e confiança. Sentiu o coração acelerar num impulso de esperança. Se ele me convidar para dançar — pensou, tentando conter o rubor — aceito logo, antes que outra lhe desperte o interesse. Assim aconteceu: dançaram durante toda a noite, nem deram pelo tempo passar e, entre risos e confidências, selaram promessas de futuros encontros. O namoro foi bem-aceite pelas famílias e, em pouco tempo, estavam casados. A vida abençoou-os com três filhos, que se tornaram o mundo inteiro. Dedicaram-se a eles com o coração cheio até que ganharam asas e seguiram as próprias vidas. Manuel, sempre trabalhador dedicado, tinha um pequeno comércio de víveres, e Júlia, quando podia e os filhos estavam na escola, ajudava-o com gosto.
Viveram com simplicidade e dignidade, sem luxo, mas com fartura suficiente para que nada faltasse aos filhos, que cresceram sem saber o que era não ter roupa nem sapatos, enganar o estômago com «sopas de cavalo cansado» ou passar frio nas noites longas de inverno. Era assim na terra natal comum. Conquistaram o que mais prezavam: uma casa erguida com esforço, símbolo de uma vida partilhada. — Este é o nosso castelo — dizia Manuel à mulher e aos filhos, com um sorriso de homem realizado. — Aqui ficaremos até ao fim dos nossos dias e, se os filhos quiserem cá ficar, haverá espaço para todos. Será uma alegria ver os netos nascerem e crescerem perto de nós.
O destino, fiel à sua natureza, não obedece a promessas. A doença chegou de mansinho e, em poucos meses, levou Manuel. Júlia chorou-o em silêncio, mas também agradeceu: viveram bem, criaram filhos honrados e enfrentaram juntos o que a vida dera.
O destino decidira que fosse ela a fechar-lhe os olhos: para Júlia, isso foi um consolo. Pedira que ele partisse primeiro, pois não queria pensar que mãos estranhas cuidariam dele. Só ela conhecia as suas necessidades e os seus desejos.
O tempo correu lento e cheio de memórias. A casa, outrora viva de risos e conversas, tornara-se refúgio e testemunha. Júlia encontrava conforto nas coisas simples e nas recordações. Olhava o sofá verde e parecia vê-lo sentado a ler o jornal, as rosas que teimavam em florir sob o seu antigo cuidado. Recordava as viagens que fizeram, sempre na Austrália, pois ele dizia que era um país tão grande que não faltavam coisas novas para descobrir. Além disso, era mais económico do que ir para o estrangeiro. Às vezes, ao fechar os olhos, via-o passar pela sala, cheio de energia, à procura de coisas para fazer. Parecia que o tempo tinha voltado para atrás. Puro engano. Agora, tinha por companhia o silêncio.
Três meses após a partida de Manuel, o telefone quebrou o silêncio daquela casa. Era Henry, o filho do meio.
— Mãe, temos de reunir a família. Precisamos de tratar dos assuntos da herança do pai. Podemos ir aí almoçar, no domingo?
Júlia achou estranho, mas aceitou de imediato. Há muito que não apareciam em casa e raramente telefonavam. Sentia falta dos filhos, dos netos, da casa cheia de vozes. Seria um dia bem-passado, com muito barulho e risadas, próprio de famílias com crianças. Cozinhar para eles era ainda a forma que conhecia de amar. Costumava fazer os pratos típicos da aldeia, que a mãe lhe ensinara, dizendo-lhe sempre: quando tiveres filhos, ensina-os também, não deixes esquecer as nossas tradições. Quis o destino que só tivesse rapazes e nenhum com apetência para cozinhar. Preparou o almoço com carinho, esse gesto quase ritual que enchia a casa de aromas e memórias. Escolheu os pratos com o cuidado de quem conhece, de olhos fechados, o gosto de cada um. Leo, fiel aos rojões que ela sabia preparar como ninguém; Henry adorava a feijoada transmontana, farta e fumegante; Jack não resistia a uma boa posta mirandesa, tenra e suculenta, perfumada de alho e servida no ponto certo. As sobremesas também faziam jus aos costumes do Norte: rabanadas, filhós e sonhos, que os netos adoravam. Era uma alegria vê-los chegar à cozinha e pedir «Grandma! Sweets; sweets». Quanto às noras, não se deu ao trabalho de pensar nelas. Nunca apreciaram os seus cozinhados; diziam não estar habituadas a àqueles sabores fortes. Sempre que iam almoçar a sua casa, mal tocavam na comida, mostravam-se sempre enjoadas. Pois que comam pão com manteiga e bebam vinho — pensou, resignada, mas com um leve sorriso de quem já não se deixa ofender. Estava há muito habituada às esquisitices delas; diziam detestar o cheiro a alho.
Apesar de tudo, a refeição correu bem, com os filhos a elogiarem os cozinhados e a dizerem que tinham saudades daqueles sabores. As noras, com o rostos fechados, fingiam não ouvir. Depois da refeição, o filho mais velho pigarreou e falou com a voz trémula:
— Mãe, chegou a hora de resolvermos as questões do pai. É preciso dividir os bens.
Ela fitou-o, surpreendida: — Dividir o quê, filho? O negócio foi vendido para pagar as despesas do hospital e o funeral, até parece que não sabes. Resta apenas esta casa onde vivo e a minha pensão de reforma.
— Nós sabemos, mãe — respondeu um deles, com a voz embargada pela hesitação —, mas os tempos não estão fáceis. Precisamos de dinheiro. Fizemos empréstimos para construir as nossas casas e os meninos têm de frequentar colégios caríssimos. A mãe não precisa de uma casa tão grande.
Fez-se um breve silêncio, antes que alguém completasse, quase num sussurro: — Vamos ter de vender esta casa.
A mãe respirou fundo, sentindo o peso de cada palavra.
— Esta casa já é velha, meus filhos. O pouco que vale, repartido entre todos, não chega para eu comprar outro teto. Teria de procurar muito longe daqui, fora da cidade e, nesta idade, não iria adaptar-me a um sítio onde não teria lembranças nem raízes além de ficar longe de vocês. Como iriam visitar-me, se estão sempre sobrecarregados de trabalho?
O silêncio caiu pesado sobre a sala. Nenhum deles teve coragem de responder. Júlia, porém, como sempre, poupou-os:
— Compreendo a vossa situação. Façam o que for preciso, eu cá me arranjarei.
Os filhos suspiraram, aliviados, como quem se liberta de um peso que não se deseja nomear. Nenhum se ofereceu para a acolher e, talvez fosse melhor assim. As noras australianas tinham costumes diferentes, modos de vida que não combinavam com os dela. A convivência seria um desencontro diário, feito de pequenas diferenças e grandes silêncios, viveria sempre como uma intrusa, e isso ela nunca quis.
Após a partida deles, sozinha, deixou que o pensamento se soltasse: Ainda bem que o Manuel não está aqui para ouvir o que eles disseram. Sentiu o coração apertar-se num misto de mágoa e resignação. Quantos sacrifícios fizemos, quantas noites sem descanso, quantas horas roubadas ao sono, só para que nada lhes faltasse, até foram para universidade. E agora, é assim que me pagam — tratam- -me como se já não servisse para nada, uma inútil — é o que é.
Ficou um momento em silêncio, olhando o vazio da sala, onde ainda pairava o eco das vozes dos filhos. Então, uma ideia surgiu, serena e luminosa. Voltarei à minha terra; sempre tive esse desejo. Chegou a hora. A casa dos pais ainda existia, guardada pelas primas e pela memória. Nunca pensou em vendê-la, talvez algum dos filhos quisesse conhecer as suas raízes, e saber como viveram os seus antepassados, mas nunca manifestara esse desejo. Naquele instante, fechou os olhos. Ainda sentia o cheiro das árvores, o aroma dos frutos maduros, o murmúrio do riacho, o riso da infância perdida.
Não hesitou. Na manhã seguinte, após uma noite mal dormida, telefonou à prima Maria, anunciando o regresso. Do outro lado da linha, um grito de alegria atravessou o silêncio da casa. Sorriu aliviada. — Ao menos lá — pensou — sei que serei bem recebida, ainda tenho primas e primos, vai ser emocionante voltar a vê-los, depois deste tempo todo.
Tratou de tudo sozinha. Na manhã da partida, chamou um táxi para o aeroporto. Não informou os filhos da decisão; não os queria incomodar nem sequer despedir-se. Nunca gostara de despedidas. Lembrou-se, com um nó no peito, da primeira viagem, menina ainda, deixando avós e primas para trás. Foi uma ferida difícil de curar. Com o tempo foi-se atenuando, mas nunca se apagou totalmente.
Quanto aos filhos, que ficassem com a casa e que dela tirassem alguma utilidade.
No aeroporto, fez o check-in com calma, passou pela segurança e sentou-se na sala de espera, junto à porta de embarque. O voo estava atrasado uma hora. Deixou-se envolver pelas lembranças: o velho muro que escalava, curiosa, apenas para vislumbrar o campanário da igreja; os rebanhos que, ao longe, tingiam de branco as colinas; as árvores que o pai plantara um dia, para oferecer sombra e repouso. Estarão ainda de pé? — perguntou-se Júlia, com um fio de esperança a atravessar o pensamento, como quem teme e deseja, ao mesmo tempo, a resposta.
Convocaram para o embarque. Entrou no avião, sentou-se junto à janela e, embalada pelo ronco do motor, adormeceu. Quando o avião aterrou, os passageiros levantaram-se e dirigiram-se à saída. Apenas ela permaneceu imóvel. Uma assistente de bordo aproximou-se:
— Minha senhora, já chegámos, recolha a sua bagagem de mão para desembarcar.
Não obteve resposta. Tocou-lhe no ombro, sem resultado, aproximou a mão da face: estava fria, mas serena. Chocada, avisou o chefe de cabine e seguiram-se os procedimentos adequados àquelas situações. Mais tarde, após cumpridas as formalidades, entre sussurros, os tripulantes comentavam que ninguém se lembrava de a ter visto embarcar no aeroporto de Hobart.


