Conheci muita gente estranha nos meus sessenta anos de vida, mas nenhuma tão particular como Manuel Guilherme Lopes da Costa. Ainda hoje me pergunto quem seria eu se não o tivesse conhecido.
Olho em redor na minha casa. O cinzeiro redondo de vidros coloridos não seria um cinzeiro. Decerto já não teria um relógio cuco pendurado na parede. O que estaria guardado na gaveta dos fantoches? Estaria ainda nesta casa? Como seriam os meus panos de pó? Ao limpar a mesa, sem o velho trapo que um dia fora a camisola preferida do meu marido, recordaria ainda aquela queda no salão de baile, e rir-me-ia sozinha em casa? Sentiria este calor que me faz companhia, mesmo estando a sós? Recordar-me-ia, com um sorriso, de instantes banais que preenchem o meu passado com amor, amizade, empatia e felicidade?
Devo a Manuel Guilherme Lopes da Costa o que sou hoje.
Conheci-o num dia chuvoso, na paragem de autocarro da Rua de Mouzinho da Silveira. Recordo-me do desconforto. Dos cabelos, escorria água fria pelas costas, enquanto batalhava para fechar o maldito guarda-chuva, para que coubesse no cesto do lixo.
— Importa-se que fique com ele? — Foram as primeiras palavras que o ouvi dizer.
Era uma voz calma, completa. O rosto acompanhava a voz. Tive a sensação de que nada pudesse abalar aquele homem. Ainda hoje, não consigo explicar exatamente o que foi. Se os movimentos sem pressa, se a tranquilidade do momento, se algo mais no seu olhar me dizia que aquele homem não tinha nada que temesse perder, nem nada que desejasse alcançar. Não era alguém sem vontade de viver, era uma presença de quem é feliz com o agora, com todos os agoras e que sempre o seria.
As lágrimas pararam de escorrer no mesmo instante em que vi o rosto dele. Não havia razão para estar com tanta raiva de um objeto. Continuei com o guarda-chuva na mão a olhar para ele. Ele de sorriso no rosto a olhar para mim. O autocarro passou. Continuámos na mesma posição.
Não me voltou a pedir, não disse mais nada. Mas não desistiu. Apenas esperou por uma resposta.
— Quer o guarda-chuva?
Manuel Guilherme anuiu.
— Está todo estragado, não protege de chuva nenhuma.
Manuel Guilherme anuiu de novo.
— É inútil. Para que o quer?
— Gosto de adotar objetos abandonados.
A expressão, os gestos, a voz. Completo. Um homem completo. E, por um momento, não quis dar o meu guarda-chuva inútil. Era meu. Meio enfiado no cesto do lixo, mas era meu. O facto de alguém o querer fê-lo mais valioso.
— E o que vai fazer com ele?
— Encontrar-lhe um novo propósito e, por fim, um novo nome.
O sorriso alargou-se. E a minha afrouxou. Esperou, e esperou ainda. Senti-me cada vez menos inchada, mais leve. Tento fazer o mesmo pelos outros quando posso, dar tempo, um dos presentes mais valiosos para oferecer.
Não me recordo bem quantos minutos passaram e o que nos fez percorrer os dez passos que nos separavam do banco, mas sei que a certa altura nos sentamos, eu ainda com o guarda-chuva meio aberto nas mãos. Pedi para me explicar melhor o que fazia, como o fazia.
— Cada objeto leva o seu tempo — explicou. — Tenho ainda alguns em casa, para lhes redescobrir a utilidade. Não se deve apressar a reconstrução, senão caímos no erro de nos sentirmos de novo inúteis.
— Os objetos caem no erro, é isso que entende dizer?
— Tem importância?
Como não respondi, ele não prosseguiu.
— E por quê? Para quê encontrar uma nova finalidade?
— Não finalidade, recomeço, para a maioria não será o fim. Quando um objeto nasce, nasce de algo. A maioria nasce de vários componentes até, vários objetos, materiais e mesmo de mãos humanas.
— Alguns são feitos em máquinas.
— Com uma mão humana que clica num botão.
— Pode ser um comando de voz — insisti.
— Uma voz humana.
— Um dia talvez não.
— Será sempre ao menos de uma ideia humana, mesmo que reutilizada, terá sempre nascido do tempo humano. Por isso, um pedaço da humanidade está em cada objeto.
Pensar aos objetos daquele modo foi um choque. Fiquei calada, agarrada ao meu guarda-chuva.
— E o tempo que decorreu com cada humano transforma-os.
— E acabam por se estragar — conclui.
— Não são orgânicos, não têm prazo de validade.
— Mas não podem exercer a função para o qual foram construídos.
— Não quer dizer que não possam descobrir uma nova função.
— E o que poderia fazer um guarda-chuva que não nos guarda da chuva?
— Ora, nada. Não seria um guarda-chuva, teria de ter um novo nome, um novo propósito.
Continuei agarrada, até com mais força, ao meu guarda-chuva inútil. Acreditava não estar preparada para me separar dele. Das conversas abrigadas por ele. Das luvas às verdes e laranjas que o seguravam no quinto ano. Das corridas ao café para o recuperar quando saía sem ele. Do velhinho que acompanhei do supermercado a casa, já nem me lembrava disso. Mas o que faria de um guarda-chuva estragado? Se fosse um colar, ao menos poderia guardá-lo numa caixinha.
— E se lhe der, como poderei saber o que foi feito dele?
— Se quiser, tudo o que ele for, após a minha morte, será seu.
Olhei para ele. Teria vinte anos mais do que eu. Horrível fazer conta aos dias que restam a uma pessoa, logo no dia em que a conhecemos.
Estava para o deitar fora. O que tinha a perder?
Afrouxei a pega e entreguei-lhe o guarda-chuva. Ele apontou os meus contactos e garantiu-me que receberia uma carta quando o dia chegasse.
Impressionante como me esqueci dele. Não que o desconhecesse, se alguém o mencionasse, mas deixou de habitar o meu pensamento, mesmo que toda a minha existência hoje se deva muito àquele dia. Mas ele não se esqueceu. Como prometeu, deixou-me o meu velho guarda-chuva. Esta carta que hoje seguro foi imprevista. Como será o mundo, agora que se foi? Quem poderá nomear e reinventar objetos inúteis? O mundo precisava de um Manuel Guilherme Lopes da Costa.
Dirijo-me à morada na carta: Avenida de Montevideu. Na Foz do Douro, mesmo em frente ao mar. Tento imaginar como será a casa de uma pessoa como ele e o que poderei ter herdado. Não sei o que esperar.
Quando chego à moradia, ainda antes de conhecer o meu novo objeto, encontro um presente inesperado. Todos os herdeiros têm um. Um quadro criado com restos do nosso objeto, que imortaliza o momento em que Manuel Guilherme o conheceu. Observo a miniatura de guarda-chuva azul-esverdeado, com uma das pontas da vareta a fazer de pega, meio destruído, num cesto de lixo. Na moldura escreveu “Um Dia Fui Um Guarda-chuva”. Mais do que os objetos, o que me impressiona é a quantidade de pessoas que aqui se encontram, todas tocadas pelo trabalho dele. Algumas cujas vidas mudaram mais do que a minha e outras menos, mas estamos aqui para recuperar um objeto antigo, repleto de memórias, um objeto que hoje não conhecemos.
Mais do que tudo, estamos aqui para levar connosco um pedacinho de Manuel Guilherme Lopes da Costa.


