Autor(a):

Lara Fernandes
Per ficta resistire

O que nos salva

  1. O Mundo Útil

O relógio não marcava horas, contabilizava desempenho. As fachadas dos edifícios respiravam luz e dados, pulsando como corações artificiais: “O tempo que não rende, morre.”

A cidade era um organismo de vidro e aço, onde o ar cheirava a ozono e metal limpo e o silêncio soava como uma linha de produção. Os passos dos homens seguiam o compasso das máquinas.

Mateus movia-se entre elas com devoção quase litúrgica. Trabalhava na Sensodata, empresa que convertia emoções em produtos. O cargo era calibrar empatia para assistentes virtuais: programava sorrisos, modelava pausas, ajustava ternura em linhas de código. Às vezes, ao fim do dia, via o próprio reflexo no vidro do escritório e não reconhecia o homem que o fitava: um rosto pálido, sem sombra, olhos vazios do brilho que não fosse o dos ecrãs.

Em casa, o silêncio era extensão da máquina. Tudo servia a um propósito. Até o sono era cronometrado: seis horas exatas de recuperação produtiva. Não lia, não escrevia, não sonhava. O ar da cidade sabia a nada. E o nada era o sabor da eficiência.

Numa manhã sem cor, o acaso — essa partícula ainda livre do cálculo — cometeu uma falha. Enquanto esperava a cápsula de transporte, viu algo que destoava: um objeto abandonado num banco metálico.

Um livro.

O couro gasto, as páginas amareladas, cheiro a pó e memória. Abriu-o. O papel estalou sob os dedos, frágil como pele antiga.

No interior, versos sublinhados com tinta desbotada: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” O nome do autor, Fernando Pessoa, nada lhe dizia. Mas aquelas palavras tinham uma temperatura que não cabia no mundo digital. Leu devagar. Sentiu o peito abrir-se num desconforto quase físico, como se algo adormecido se movesse dentro.

A cápsula chegou, o letreiro piscou impaciente. Fechou o livro e levou-o consigo, como quem rouba um pedaço de tempo proibido. Nessa noite, algo o impediu de dormir.

Recordou-se, não sabia de onde, de uma avó que lia em voz alta junto à janela, o som de um violino distante vindo de um rádio antigo, o cheiro do pó do verão e do pão quente. Talvez tenha sido a última vez que sentiu o inútil, e por isso, a última vez que se sentiu vivo.

 

  1. O Encontro com o Inútil

Nos dias seguintes, Mateus lia às escondidas. Cada frase era um ruído estranho dentro do seu sistema ordenado. As palavras eram imperfeitas, lentas, sem função. Mas nelas havia vida, uma vida desobediente.

Uma noite, depois do turno, caminhava sem destino. Era a primeira vez que o fazia: andar sem meta, sem direção, sem utilidade. Foi então que ouviu um som que não vinha de altifalantes nem de algoritmos: um violino. A melodia cortava o ar frio como um fio de fumo quente.

Seguiu-a.

Numa esquina de pedra antiga, sob um candeeiro cansado, uma mulher tocava. Helena. O cabelo preso num lenço vermelho, os dedos finos, a pele marcada por pequenas cicatrizes. Tocava de olhos fechados, o corpo levemente curvado, como se cada nota fosse uma prece. Quando terminou, respirou fundo. Tinha um tremor leve na mão direita. O arco estava gasto, colado com fita.

Ela notou-o a observá-la.

“Gostas?”, perguntou.

“Não sei. Nunca ouvi nada assim.”

“Então ainda ouves. Isso é raro.”

Aproximou-o do instrumento. Mateus tocou a madeira. Era quente, viva. Sentiu as ranhuras, o pó entranhado. Ela sorriu. “Tocar é lembrar. Mesmo quando o mundo tenta esquecer-nos.”

Helena vivia num quarto minúsculo perto do rio. O teto tinha manchas de humidade, e o ar cheirava a verniz, café e cordas tensas.

Contou-lhe que perdera parte da audição após uma explosão numa fábrica. “Tentei ser útil”, disse. “Mas o útil apaga o som.”

Passaram a encontrar-se. Ele lia-lhe versos. Ela respondia com música. Mateus começou a faltar ao trabalho. Passava horas a vê-la reparar o arco, limpar as cordas, respirar entre notas. Quando ela ria, parecia abrir uma fresta no mundo. Mas o sistema vigiava.

Chamaram-no ao supervisor, um rosto projetado num holograma impassível.

“As suas horas produtivas decaíram. Há registo de deslocações não autorizadas.”

“Preciso de tempo.”

“O tempo é propriedade da empresa.”

Saiu dali com o coração descompassado. Pela primeira vez, sentiu o corpo: o peso das mãos, a fome, o medo. Um erro de programação tornava-se carne.

 

III. A Dissolução da Utilidade

A denúncia veio dias depois. Conduziram-no ao Centro de Reprogramação: salas brancas, cheiro a desinfetante, o zumbido elétrico constante. Deitaram-no numa maca metálica. Uma voz neutra ordenou: “Identifique o estímulo que o afasta da eficiência.”

Mateus fechou os olhos.

O rosto de Helena surgiu. O calor das suas mãos. O som do arco. “Identifique o estímulo”, repetiu a voz.

“O inútil.”

As luzes vacilaram. O som das máquinas hesitou. Um erro de lógica. O sistema não sabia processar o que não tinha função. Por um instante, o mundo parou. Mateus arrancou os cabos e correu.

Tombou ao sair, o joelho rasgou-se, o sangue escorreu: vermelho, inútil, vivo.

O frio mordeu-lhe a pele. Respirou e o ar soube a verdade. A cidade parecia observá-lo, não com olhos, mas com sensores. As fachadas tremeluziam, inquietas. Correu até ao parque.

O banco ainda lá estava. O livro também. Mas Helena não.

No chão, entre folhas húmidas, um lenço vermelho preso a um ramo dançava ao vento, como se o tempo ainda a lembrasse. Abriu o livro. As páginas mostravam frases escritas por várias mãos:

“Li. Sonhei. Fugi.”

“Plantei.”

“Helena passou por aqui.”

Era um livro de passagem, um mapa de insubmissos.

Mateus escreveu na margem: “A alma é o que sobra quando tudo o resto é útil.” Ajoelhou-se e cavou com as mãos nuas. O cheiro a húmus e chuva entranhou-se na pele. Plantou a semente que Helena lhe dera, “para quando te sobrar tempo”.

Ficou ali, imóvel, a ouvir o vento. Pela primeira vez, não fez nada. E nesse não fazer, tudo existia. Não foi o sistema que o apagou. Foi ele que se apagou do sistema, por escolha. Tornou-se invisível, não perdido.

Livre.

Dizem que, nas noites de silêncio, um violino toca entre as folhas do parque. O som é leve, inútil, persistente. Sobre o banco, o livro permanece. E alguém escreveu, à mão: “Sem o inútil, o homem torna-se máquina; a vida, uma conta bancária; o tempo, mera produção.”

Ninguém soube dizer se fora Helena ou o próprio tempo, cansado de ser útil.

 

Epílogo — O Livro que Permanece

Não te apresses.

Este livro não tem fim.

Lê-o como quem escava.

Planta como quem recorda.

Escuta como quem resiste.

O tempo já não te pertence,

mas talvez a alma ainda te ouça.

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AUTOR(A)
Lara Fernandes

Lara Fernandes nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, em 1974, uns dias antes do 25 de Abril. Três anos depois, a sua família mudou-se para Portugal, onde tem vivido desde então. Formada em Informática de Gestão, estagiou com uma bolsa em Programação e Multimédia em Coimbra, estabelecendo o início da sua carreira técnica como Programadora Informática de Websites.

A vida de Lara é uma combinação harmoniosa de realização profissional, a paixão pela escrita, o amor pelos animais e o envolvimento familiar.

Já tem algumas publicações em várias coletâneas e revistas. É uma eterna aprendiza, movida pela curiosidade e criatividade. Com dedicação e entusiasmo, procura sempre novos desafios, explorando ideias, histórias e experiências que inspirem e conectem. O olhar atento e a cmente aberta reflectem o seu espírito inovador.

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