Autor(a):

Isa Silva
Isa Silva
Per ficta resistire

As três rosas

(I)

Olhei para a rosa repousada na minha mão. A cor escarlate parecia arder em cada dedo e, no entanto, sentia um profundo aconchegar que me tranquilizava. Sabia que cada pétala era importante. Cada camada fortificava aquela flor, abraçava-a ternamente. Acima de tudo, faziam parte do crescimento. Peças de um desenho subtil que admirava naquele instante.

Esta fascinação por tudo faz parte de mim. Sou mesmo assim. Vejo sempre o lado positivo e nunca desisto. Eu sei. Eu sei. Por vezes é irritante, muitos amigos o dizem. Só a morte suavizaria esta minha tendência.

Caminhava sem pressas por aquele jardim. Conheço muito bem cada recanto, cada caminho, e isso veste-me de segurança. Sou eterna, confio e sigo o Tempo. Acredito que nunca devemos desistir de aceitar. Nem que o Tempo seja implacável. Esta é a maior utilidade do que sou. Desafio-o, porém, respeito-o.

Do que é feita a eterna espera? Será de pedaços de nós, ambulantes, numa vida em que procuramos um significado? Porque analisamos tão incessantemente uma justificativa, uma explicação. Relembro que informar nem sempre é explicar. Por vezes fica tanto, mas tanto por dizer. Esse oculto não será a essência da espera? Não será a espera um conjunto de coincidências que aguardam ordens? Porque esperamos, perguntam-me tantas vezes. Queria ter uma resposta, mas tenho inúmeras que me baralho e, no final, apenas respondo: o desejo de controlar o destino. Desejamos que faça exactamente o que queremos, esta prepotência tão vincada no Ser Humano. E eu vivo disso. Cada instante, cada momento, cada altura, cada ápice. Sem isso, não sobrevivo.

Preciso de estar num determinado lugar a uma certa hora e, até esse momento, não faço ideia do que se trata. Contudo, estou esperançada como sempre. Olho em frente, lá está o ponto de encontro. Dou por mim a acelerar o passo e quando chego… Ohhh!

(II)

Para que me deram esta rosa, se vai morrer? É o seu certo destino, por mais voltas que se dê. Para que preciso disto para ir onde necessito ir, neste enorme e labiríntico jardim?

Cada pétala é como um pedaço que se vai, morre lentamente ou rapidamente, se assim o desejarmos. Quando vemos uma rosa ficamos fascinados, tanto pela beleza como pela profunda e inebriante fragrância. Nem isso me faz esquecer que vai desaparecer. Nada conseguirá fazer parar esse pequeno e poderoso pormenor. Sei tão bem disso! Retiro cada camada desta flor até tudo desaparecer. Ofereço apenas um momento de prazer e, depois, deixo-a morrer. Qual a utilidade disto? Um jogo que adoro fazer. Sou assim desde que existo. Nada me ultrapassa, nada me controla a não ser a Morte. Já vos disse que não sou a Morte? Pensava que já tinha afirmado. Não sou a Morte, repito. Estou ligado a ela, confirmo. Fecho os olhos para a respirar de saudades. Sou mais terrível do que a Morte. Muito mais torturador e, no entanto, sou louvado, perdoado, enriquecido, imortalizado, amado, controlado (pensam eles)…

Não se iludam. Estou aqui para vos encaminhar. Mesmo que muitas vezes tentem ignorar-me, em vão, confesso. Quem manda sou eu. Atribuem-me uma importância que durante a vida desprezam e pensam parar ou dominar. Sou a sua maior riqueza e não entendem. Tão estúpidos! A maioria não sabe nem deseja saber a minha importância.

Vivo bem assim. Não me afecta. Não guardo rancor. Até brinco com isso. É delirante o gozo me dá esse entretenimento. Ninguém vive sem mim. Ninguém me vê. Ninguém me toca. Todos sabem quem sou. Apresento-me no nascimento e avanço.

Falando em avançar… estou quase a chegar. Só mais meia dúzia de passos e apareço no ponto de encontro. Desta vez desconheço o objectivo. É só contornar esta sebe e… Ahhh!

(III)

Pergunto-me se esta rosa é importante. É? Será que é? Não sei. Eu nunca sei o que deveria saber. Sempre a pensar no que os outros dizem e nunca me concentro em mim mesma. A rosa é bela, oh se é. Divina. Admirável. Gostava tanto de ser como ela. Não há ninguém que desgoste de uma rosa. É a flor mais famosa do mundo. Até serve para revelar o que sentimos. Tanta importância e, mesmo assim, tenho dúvidas. Acho que não é assim tão bela que enriqueça tamanha importância. Ostenta um poder efémero. Vai-se em dias, defina e seca. Cai cada pétala ressequida e inútil e, no entanto, todos a adoram. Tenho inveja de ti! Não. Não tenho. Não sou suficiente para ninguém. Grito confiança, mas no entanto paro, recuo, fujo, evito, recuso, fecho, desisto.

Estou aqui a andar de um lado para o outro, esfregando as mãos suadas, perguntando-me porque aceitei este encontro, quando nada sei dele. Respiro fundo. A cobardia agarra-se à garganta saturada de querer gritar e de não se libertar de um poder que a controla. Ahh, e este peso, este ladrão de felicidade, parece um tapete retirado dos pés à bruta e que nos faz cair, acreditando sermos os culpados dessa queda, que a merecemos, faz parte do nosso caminho. Banho-me no medo de não conseguir, respiro profundamente a decisão acomodada na mente e que não me larga, vincando-me cada vez que desejo uma mudança ou um objectivo. A eterna frustração de querer fazer e ser e deixar ir pelo agrado a terceiros, enterrando-nos numa vida vestida de infelicidade e decorada do que simplesmente aceitamos por aceitar. Torno-me nesta rosa e no que ela será: seca.

Sei do que sou capaz, todavia não avanço. Contudo, e contra o que seria de esperar, estou aqui, tão perto do ponto de encontro. Falta só dar dois passos. Somente dois passos. Sou fraca, estou sempre a errar, não vou conseguir! Estou tão perto. Avanço e… Uiiii!

IV

(II) — O que é que fazem aqui?

(I) — O mesmo que tu.

(II) — Não te compares! És uma idiota que ilude tudo e todos com a tua crença, fazendo-os acreditar que possuis uma resposta. Prolongas a agonia e eles nem a compreendem desse modo. Julgam que os confortas.

(I) — Tenho respostas.

(II) — … Vazias…

(I) — Tu é que és tão vazio que estragas os meus planos. Contaminas tudo com a tua cruel presença. Dá-lhes esperança para depois acabares com tudo. Tudo. Obriga-los a sentirem uma vida em torno de um fundamento, quando, na verdade, és a mais inútil das utilidades porque é inevitável perderem o que lhes ofereces. E, tantas vezes, desperdiçam com inúmeras coisas sem importância. Dou comigo a pensar que fazes de propósito.

(II) — Vives cega pela confiança, nem te apercebes do mundo real. Enganas tudo e todos sob uma falsa capa de bondade e compreensão.

(III) — Não é verdade. A sua ajuda é preciosa para tanta gente.

(II) — Olha, olha… Fala quem nunca decide o que realmente quer. Tu não sabes o que vales, não me desafies, porque acabo contigo num ápice. Basta dar oportunidade para vincar profundamente o tormento que libertas nas mentes deles e tudo pode acabar, assim, num estalar de dedos!

(I) — E não darás tu espaço para que ela o faça? Tens também um papel nessa acusação que fazes. Ela só existe porque tu existes. És tão cruel. Sabes tão bem que podemos fazer tanta, mas tanta coisa significativa. Nem tudo é desnecessário, nem tudo é frívolo, dispensável, prescindível, fútil…

(II) — Atiras-me uma lista de palavras todas iguais, não justificam nada. Burra!

(I) — Tu, terrível e insuportável, rodeia-los olhando-os bem no fundo do ser, dando-lhes espaço e futuro para depois, num segundo, desligá-los sem dó, quebrando-os totalmente. Vivem para depois morrerem. Que maldade, tamanha ineficácia disfarçada de utilidade mordaz.

(II) — Adoro os segundos… São tão importantes. Fazem toda a diferença. Um segundo, é, um segundo depois, não é.

(III) — Não te sentes mal?

(II) — A minha eternidade não me permite ter consciência.

(I) — Sabes bem o quanto afectas o meu trabalho. Deixas-me sem recursos, sem respostas, sem conseguir apoiar. Cada vez que me desfazes, só tenho vontade de te esganar.

(II) — É o meu papel, queiras ou não. Julgas-te melhor que eu? Tu, atiras com argumentos fantasiosos, prolongando uma dependência que, em muitos casos, não levam a nada. Ridícula!

(I) — Não têm o retorno desejado porque impões a tua sabotagem.

(II) — É a vida, minha cara. Nenhuma de vós tem qualquer significado para mim. Tu, então, és tão patética! Quando apareces, em jovem, és uma lapa: agarras-te para nunca largares. Sugas o que aquela semeia, sem piedade. Acusam-me de ser o terrível, todavia consegues ser tão angustiante que nos fazes parecer santos. Tens uma utilidade nula.

(III) — Não! Não me compares a ti. Mal existo. Tu, TU és feito do nada que enche a nossa vida. Qual o teu propósito mais profundo? Ou, afinal, sofres do meu mal? Dizes-te tão pomposamente proveitoso, que alteras num instante e, a teu belo prazer e conveniência, cravas a inutilidade e tudo acaba num instante. E, assim, andamos neste círculo convenientemente vicioso, que nos conforta ou justifica muitas das decisões que tomamos. Somos assim tão dependentes de ti ou faz parte da racionalidade Humana? Não sei. Nunca sei nada. Sorris? Achas graça ao que fazes? Estou aqui à procura de respostas e o que encontro são duas criaturas manipuladoras a acusarem-me, com ar altivo disfarçado de falsa empatia.

(II) — Olha, olha, está saída da casca a menina que nunca tem coragem e que utiliza as fragilidades como alimento da sua existência.

(I) — Acusas-nos de sermos manipuladores, enquanto influencias tantas vidas cheias de frustração e amargura. Provocas tantos estragos subtis que me dão imenso trabalho a combater. Apareces nas alturas da vida mais importantes e alteras destinos. Apimentas fragilidades desnecessárias. Tens espinhos dolorosos como essa rosa.

(III) — E tu deixa-los a flutuar numa certeza enganosa para depois aquele inclemente dar o golpe final!

(II) — Meninas, acalmem-se. Todos eles se envolvem connosco. TODOS. Algures na vida ou muitas vezes na vida, e não aprendem absolutamente nada porque os obrigamos a refazer, a retomar, a repetir até atribuirem a culpa a algo ou a outros. Não conseguem evitar. Está-lhes entranhado no seu Ser. É com essa inutilidade que justificamos a nossa existência. Não será a vida a maior das inutilidades?

(III) — Não entendo o que pretendes de nós.

(II) — O importante é que os controlamos, não acham? É o nosso papel principal. Pensem bem… sem isso vocês as duas não existiam. Eu, sempre existi e sempre existirei. Sou incomensurável!! Não desapareço.

(I) — Será? Um dia vais deixar de existir.

(II) — Nunca. O meu alcance é vasto, infinito, intemporal e até poderei dominar outras dimensões, ao contrário de vós, limitadas a este universo, mais propriamente, a este mundo humano. Só poucos, muito poucos, possuem a capacidade de ver para além do óbvio. Esses, quando os encaminho, já não voltam. Não podemos deixar que destabilizem o universo com a sua esperteza. Deixem-se de subterfúgios e juntemos forças.

(III) — O que pretendes?

(II) — Uma aliança. Bajulá-los, levando-os a crer na nossa utilidade. Acima de tudo, aumentarmos o nosso poder.

(III) — Sinistra esta tua proposta.

(II) — Minha querida, somos isso e muito mais. Não te iludas. Assume. Vamos enchê-los de assuntos desconexos, de motivos tão, mas tão idiotas que nem vão aperceber-se dos preciosos momentos que perdem. Vamos sugar a sua inteligência entregando-lhes respostas que não levam a nada. Vamos perdidamente camuflar a sua existência.

(I) — Explica-nos o que vamos ganhar com isso.

(II) — Aumento da vossa importância e total dependência. Não é aliciante? Vamos conduzi-los à tentação do fácil, da subtileza de acreditarem que eles estão ao comando. Até para ti, que nunca acreditas nas tuas capacidades.

(III) — Não sei se serei capaz…

(II) — Cala-te! Por uma vez na tua vida, acredita em ti, miserável. Vão ficar à nossa mercê cada segundo, cada minuto, cada hora, cada tempo da sua vida.

(I) — Tudo teu…

(II) — Tudo nosso! Vamos brindar! A partir de agora, sempre que nos encontrarmos, vamos brindar deste modo: três vezes. Uma por cada um de nós nesta tríade tão utilmente inútil.

(I) — E quem somos nós na verdade?

(II) —Xiuuu! Não é para revelar. Fica para as letras pequeninas no fim desta história.

(E sim, vão ter de girar a revista ao contrário para descobrir os culpados, para descobrir quem somos).

 

,ɐçuɐɹnƃǝsuI, – ,odɯǝ⊥, – ,ɐçuɐɹǝdsƎ

(A autora não segue o acordo ortográfico)

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AUTOR(A)
Isa Silva
Isa Silva

Nasci no verão de 1966 e desde então a imaginação fez-me companhia no desenhar e no criar histórias. Frequentei a Escola de Artes de António Arroio e a ETIC. Na minha segunda vida (como gosto de salientar) redescobri o desenho, a pintura, a fotografia e a escrita. Conjugo estas paixões com trabalhos em design gráfico e formações de arte e manualidades.

Participei em várias exposições colectivas tanto a nível de desenho como de fotografia e pintura.

Tenho alguns livros publicados e em 2013 fui autora e figurinista teatral com uma peça para infância. Em 2014 estreei-me na arte urbana.

Faço parte dos Urban Sketchers Portugal desde 2010.

www.isasilva.com

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