Havia dias que não se notava o rebolar das pedras encosta abaixo, e o charco desanimado no sopé do monte entristecia-se do abandono.
O último pinheiro, sobrado da ganância das chamas por milagre, parecia espiar o escasso resto de água lá em baixo e chorar lágrimas de resina casca afora. Dois chapins-reais nostalgiavam o resto do bando através de melodias sofridas– ecoadas e escoadas pelo manto de fumo, pó e cinzas que tudo cobria até aos confins da paisagem.
O Cata-Beatas – filho de uma pedra com um charco – fumava sentado no pial da Taberna onde os outros homens – filhos de homens com mulheres – se argumentavam à desgarrada nas causas e efeitos dos fogos postos e dispostos na serra. Era por mor do dinheiro que valia a madeira queimada, diziam uns. Vinganças por mor de partilhas mal calculadas, diziam outros. Outros ainda achavam que tinha sido a ocorrência de vários descuidos com máquinas fagulhentas, tratores e até, muito provavelmente, beatas mal apagadas jogadas ao vento.
Os homens, lá dentro, esgotavam o bagaço dos copos para se esgotarem no desgosto do desmoronamento do trabalho de uma vida inteira. Quem mais falasse de rijo mais validava o desespero, quem mais prometesse matar políticos mais aliados fazia, quem mais chorasse de mão na testa mais se assemelhava ao agonizado – copo batido, bagaço bebido, abalo temido, peito sentido, arrojo trazido.
O Cata-Beatas fumava e bebia como os outros homens, mas não argumentava. A argumentação dele era toda um silêncio guardado dentro da boca. Sempre foi. Lembro-me, na escola – na primária, quando fomos colegas – nem à professora respondia. Tudo o que libertava da clausura da oratória era a convicção de ser filho de uma pedra e de um charco. Dizia-o poucas vezes, mas eu cheguei a ouvir, palavra de honra. Nunca entendi bem se o rapaz metaforizava ou literalizava. Tudo o que soube sobre ele foi através da minha avó – o Cata era adotado e vivia com a dona Ester-Beata no anexo da sacristia.
Dali a umas horas, já os fumos haviam amainado nos ares, decidi subir o morro para espreitar a desgraça. Passei à porta da Taberna e lá estava o Cata-Beatas, chorava sem lágrimas, de olhos distantes e impestanejantes, sem expressão, mas todo impressão. O peito espremido até à dispneia pelas ideias da cabeça a imaginar os chapins, os peneireiros, os pica-paus, os carunchos, as formigas, as vespas, as lagartas, os lagartos, as cobras e os ouriços todos carbonizados. Ou feridos e sem auxílio nem abrigo.
Ó Cata, Perguntei eu, sem esperar palavras em troca, A tua cabana salvou-se. Não largou os olhos do chão – ignorava as pessoas, ignorava sempre as pessoas – como se não me ouvisse, ou não me ouvindo mesmo, deu o último bafo na ponta sumida do Ventil e largou-a na deformidade da calçada para apagá-la com o resto de sola que lhe sobrava na bota acamurçada.
Havia anos que ele vivia entre a arrecadaçãozinha exterior da Taberna – que o Tó lhe cedera como dormitório – e um género de cabana que construíra na fazenda do Nélson, à extrema do monte. Passava os dias inteiros no mato a voar entre os pássaros e só vinha para a Taberna depois de o céu escurecer – aprendeu com os mestres da melodia e é o melhor assobiador do mundo, um comunicador exímio no que respeita à linguagem do assobio.
Por alturas do pós-incêndio, de noite eu espreitava e via-o de garrafa na mão a olhar impestanejantemente para a lenha em brasa na salamandra do abrigo. O Cata havia de estar a pensar em como é que os homens – filhos de homens com mulheres – conseguem transformar milagres em calamidades. O fogo – elemento sagrado e imprescindível ao coração do universo – arremetido na condenação dos paraísos a infernos. Sim, devia ser nisso que o Cata pensava, Que poder maléfico é esse que lhes é concedido em abono da destruição?
De manhã, quando eu voltava a espreitar, lá estava ele, sentado nas telhas do curral desativado, com a sua impestanejância posta na curva negra do monte que a aurora ruiva vinha acentuar. Devia ter muitas saudades do seu espaço, o pobre Cata. Abalou poucos dias depois, o Chico Carpinteiro fez-lhe nova cabana num instante, tão minimalista quanto a de antes e exatamente no mesmo sítio.
***
Faz tempo que o bosque ardeu pela última vez, os bichos e os arbustos teimam em se reafirmar, mas a demora teima em envelhecer a gente, é um braço de ferro ingrato para quem pertence a uma espécie com baixa esperança média de vida. Os anos que o mato leva a florescer não voltam para trás. As figueiras, as oliveiras e as amendoeiras não se regem pelos círculos dos ponteiros nem pelo folhear do calendário.
Todas as tardes vejo o Cata sentado no pial da Taberna – há trinta anos que nos cruzamos amiúde –, ponho-lhe a mão no ombro ao passar e pergunto como vai a bicharada do bosque. Não espero respostas em troca de perguntas, nunca. O Cata é a única pessoa com quem falo sozinho sem reticências nem vontade de desistência. O silêncio do Cata é uma palestra espiritual para mim, vale mais do que o discurso versado de mil génios.
O Cata é filho de uma pedra e de um charco. O Cata é um epostracismo a saltitar pelas ruas da vila, uma ondulação concêntrica a reverberar nos corações dos aldeãos, uma onomatopeia de amor a ressoar nos ouvidos da mata.
Quando os homens – filhos de outros homens – derem cabo do mundo, no derradeiro exercício da função, e a terra nos engolir a todos na vala comum definitiva, será que os filhos das pedras e dos charcos serão salvos? Será Gaia capaz de, nessa hora, contrapor às leis humanas e fincar pé na justiça divina por uma absolvição meritória?
É que o Cata-Beatas não merece pagar por nós, pecadores.


