Ligo a televisão no canal de notícias e faço scroll no telemóvel. Assim, é mais fácil distribuir a atenção entre a desgraça e a parvoíce.
Entre as atualizações sobre a guerra na Ucrânia, o aumento do preço dos combustíveis e as negociações para o orçamento de Estado, fixo-me nas palavras «(…) suspeito em prisão preventiva, por alegadamente fazer parte de uma rede de tráfico humano (…)».
Coloco a televisão em pausa na imagem de um homem de 67 anos, e petrifico durante tempo suficiente para que o telemóvel bloqueasse e eventualmente, a televisão se desligasse para poupança de energia.
De relance, olho para a arca verde-musgo que se encontra entre a sala de estar e a despensa, e questiono-me porque hesito sempre que passo por ela.
Há anos que a evito, e, no entanto, também não a descarto — parece-me atrevido tocar-lhe.
Num impulso quase cómico, levanto-me do sofá e desequilibro-me.
A sensação é a de estar a aproximar-me de um monumento assombroso — as minhas mãos tremem e a garganta fica tão apertada que o ar custa a passar.
Recuo e volto a sentar-me no sofá.
Não consigo! Sei que fui eu que a pus ali, há 12 anos. Sei que fui eu que a enchi, e também sei que fui eu que a tranquei. Mas porquê?
A certa altura, o silêncio tornou-se mais incómodo do que os pensamentos que ecoavam na minha cabeça. Nela, procuro a última memória que tenho da chave e volto a levantar-me para a procurar.
Cerca de 18 minutos depois, encontro-a.
É agora…
A arca range quando a abro, resistindo o suficiente para quase me demover, e o pó inunda-me os pulmões com as memórias ali contidas.
Lá dentro, tudo parece frívolo: mensagens impressas em papel barato, diários que preenchi com poesia e rabiscos e as minhas fotografias de adolescência, riscadas ou rasgadas na zona da pélvis.
Sinto um arrepio quando, na minha mente, ecoa «és linda, sabias?».
O meu peito recolhe-se em sangramento e, involuntariamente, cerro os dentes, os lábios, os olhos, os poros e enrolo-me sobre mim mesma no chão, que anuncia já os fins de outono.
Balanço, agarrada aos joelhos até o dia entardecer.
Não percebo o que se está a passar.
Vejo flashes de um homem magro, na casa dos 50, a caminhar na minha direção.
Balanço mais um pouco.
Volto a abrir a arca e pego no primeiro pedaço de papel que encontro, sem o olhar. Quando lhe pouso a vista, por trás dos rabiscos, leio «amo-te», de um dos lados do chat e, do lado que responde, «eu também te amo.». No topo da página, com rabiscos ainda mais carregados consegue ler-se “Sérgio”.
Como uma gaivota para alimentar a cria, regurgito para alimentar a sanita.
Sérgio…
«Olá, Mariana. Estou tão feliz por, finalmente, estar contigo», disse o meu ouvido interno ao projetar a imagem do tal homem.
«És linda, sabias?».
Voltei a alimentar a sanita.
Já sem nada digno de expelir, volto à arca, mas coloco uma música de embalar.
Exploro os fragmentos de papel com a ponta dos dedos, recordando as emoções que vivi ao ler cada frase.
Tinha-as imprimido, para poder dormir agarrada a elas.
Choro. Por vezes, perco o ar, outras a voz, e outras tantas, a minha própria existência. Arranho-me para saber que ainda estou viva e que existe pele para rasgar.
«Sei que vai parecer loucura, mas vi o teu perfil e acho que estou apaixonado por ti».
Futebolista, bonito, moreno, olhos verdes, do tipo cigano indomável.
«Vai parecer loucura, mas acho que é recíproco».
Rasgo as mensagens à medida que as leio.
A saliva e o ranho espalhavam-se por todo o meu rosto, à medida que tentava limpá-los com a manga da blusa.
«Conta-me mais sobre ti», pedi.
«Como já deves ter percebido pelo meu perfil, chamo-me Sérgio. Ahah. Tenho 16 anos, e vivo em Santo Tirso. Gosto de jogar futebol com os meus amigos, mas gosto ainda mais de falar contigo.»
Corei, mas entristeci. «Vivemos muito longe um do outro. Assim, nunca vai resultar…»
«Porque não havia de resultar?»
«Não sei… Eu nunca tive uma relação à distância, mas dizem que é difícil.»
«Só é difícil quando o amor não é forte o suficiente.»
«Já estamos a falar de amor?»
«Acho que sim… A verdade é que nunca senti isto por ninguém e, na realidade, és a única pessoa que me faz sentir vivo. A distância não é nada comparada ao que sentimos um pelo outro. Não digas que não vai resultar… magoas-me só com a hipótese de termos de desistir de algo que é, já, tão bonito.»
Continuo a percorrer a arca e encontro as fotografias que Sérgio me enviava e que tão facilmente me ajudavam a adormecer, depois de fantasiar com o seu corpo junto ao meu.
Vomito um último líquido acidificado.
«Ainda és mais bonita ao vivo!» — disse um homem, na casa dos 50, ao sentar-se ao meu lado no banco de jardim.
«Desculpe, deve estar a confundir-me com outra pessoa»
O Homem riu-se e disse, baixinho «Sou eu, o Sérgio», e, depois de uma pausa prolongada «Eu sei que estou um pouco diferente do que nas fotografias que te mandei, mas tens de compreender… eu sabia que se visses a minha verdadeira imagem, nunca falarias comigo.»
Não sabia o que responder, mas disse «O meu namorado deve estar a chegar, vou-lhe ligar. Acho que se devia ir embora.»
Assim o fiz — liguei para o número que recentemente Sérgio me tinha dado e ouvi um toque de telemóvel a soar do bolso do homem que me olhava sorridentemente.
Senti as minhas bochechas a ferver e as pernas em chumbo
«Então, meu amor? Não me digas que estás assustada!»
Levantou-se na minha direção.
Recuei e disse «Não se aproxime de mim!»
«Ainda não percebeste, Mariana… Tu és minha!»
Já não me masturbava há 12 anos, mas lembro-me que nessa altura não era doloroso.
Hoje, os gritos vieram das profundezas da minha amargura.
Reconstruo os fragmentos, pego no telemóvel e ligo ao 112:
— Quero fazer uma denúncia.


