Autor(a):

Ana Costa
Ana Costa
Pés de Petiz

O mistério das meias desaparecidas

Na casa da Maria, como em todas as casas, as meias rompiam-se. As dela, as da mãe, as do pai e, sobretudo, as dos dois irmãos mais novos, que adoravam jogar futebol.

De todas as vezes que ajudava a mãe a dobrar as meias, encontrava alguma furada que, inevitavelmente, ia parar ao “meião”, na esperança de algum dia vir a ser útil.

O cesto estava num cantinho da casa de banho e, naquele dia, a Maria teve a sensação de que havia menos meias lá dentro. Não deu importância, porque, de vez em quando, alguém ia tirar uma meia para fazer qualquer coisa com ela. No entanto, começou a reparar que o cesto esvaziava, em vez de encher. Perguntou à mãe se alguém andava a usar as meias, mas ninguém precisara de meias rotas nos últimos tempos. Embora fossem meias inúteis, andava a cismar no assunto.  Para onde estariam a ir as meias?

No dia seguinte, ao regressar da escola, quis ir brincar para o jardim e, para grande surpresa sua, encontrou, junto ao canteiro das roseiras, a meia que no dia anterior tinha colocado no “meião”. Como teria ido ali parar? Tinha a certeza de que a deixara junto das outras. Foi à casa de banho e confirmou que o cesto tinha menos meias, portanto, havia mais desaparecidas. 

A Maria pensou que seria alguma brincadeira dos irmãos, mas eles nunca quiseram saber de meias rotas. Mesmo assim, perguntou-lhes se tinham visto alguma meia rota. Disseram que sim e foram mostrar-lhe o “meião”. Ela riu-se. Eles só tinham cinco e três anos, respetivamente, e gostavam de mostrar o que sabiam. O Miguel, o mais velho, olhou para o cesto e teve uma ideia: agarrou numa meia, enrolou-a, meteu-a dentro de outra e voltou a enrolar. A Maria percebeu logo o que ele estava a fazer. Já não lhe chegavam as bolas que tinham, agora ainda arranjava uma bola de meias rotas.

Não foi preciso muito para andarem aos pontapés à nova bola pela casa fora. O pai, quando viu aquela animação, lembrou-se logo de o seu avô contar que em criança a única bola que tivera fora uma bola de trapos. Chamou os dois filhos e levou-os para o jardim. Jogaram os três, tentando imaginar como seria o avô em criança a jogar assim. A Maria ficou a vê-los. Podia não ter descoberto para onde iam as meias, mas de certeza que as próximas teriam uma carreira futebolística garantida. Já não eram umas inúteis. E riu-se baixinho.

Sentada nas escadas, sentiu qualquer coisa a passar por ela e deu um salto. Olhou para todos os lados, mas não viu nada. Teria sido o Pantufas? Ele costuma enroscar-se nela, quando a encontra assim sentada nas escadas… Chamou por ele, mas o gato não apareceu.

Não deu importância, ele tinha um temperamento muito independente e gostava de dar as suas escapadinhas. Às vezes, ficava dias sem aparecer.

De repente, a bola de meias passou à sua frente em alta velocidade. O pai entusiasmara-se e dera um chuto tão grande que ela foi cair bem longe. Nas traseiras da casa, havia um terreno meio abandonado com um antigo palheiro em ruínas. Seria por ali que a bola estaria. A menina, o pai e os irmãos espalharam-se à procura.

Ela avistou o Pantufas e teve curiosidade de ver para onde ele ia. Seguiu-o. O bichano entrou no celeiro e… Nem queria acreditar. Num canto estava uma espécie de ninho, feito de meias, onde o gato, com ar orgulhoso, se enroscou a uma gata, que tinha três filhotes recém-nascidos. Afinal, as escapadinhas dele eram para constituir família! Foi chamar o pai e os irmãos. Ficaram todos encantados com o que viram e os pequenos começaram logo a pedir para adotarem a família do Pantufas. O pai coçou a cabeça e disse-lhes para pedirem à mãe.

A Maria saiu a correr e foi chamar a mãe. Estava tão afogueada que ela até se assustou a pensar se teria acontecido alguma coisa má. Quando a filha, enquanto a arrastava, lhe disse o que tinha encontrado, percebeu logo o que ela queria.

Entraram as duas no celeiro e os dois pequenos estavam a pedir ao pai para pegarem nos gatos bebés. Mas ele explicava-lhes que ainda eram muito pequeninos, só podiam ver. Além disso, tinham de ganhar a confiança da mãe gata.

Como iriam fazer? O Pantufas era pai e tinha de assumir as responsabilidades. Portanto, combinaram que deixariam os gatinhos crescer um pouco para decidirem o que fazer. Nem se lembraram mais da bola de meias!

As crianças ficaram tão entusiasmadas com a ideia de terem uma família de gatos que nem dormiram naquela noite.

A Maria sentia-se um detetive, pois tinha desvendado o mistério das meias desaparecidas. Agora, tinha de ser uma boa advogada para defender os direitos do Pantufas e convencer os pais a adotarem aquela família. Um argumento de peso ela já tinha: as meias rotas e inúteis passariam a ter uma utilidade muito importante.

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Ana Costa
Ana Costa

Ana Costa é natural de Viseu. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas Variante Estudos Portugueses e Franceses pela FLUC, conta com mais de vinte anos de experiência no ensino. Apaixonada pela vida, pela natureza e pelo bem-estar físico, mental e espiritual, dedica-se há cerca de dez anos ao desenvolvimento pessoal e às terapias naturais. É mestre de Reiki e terapeuta/ monitora nível 1 de Chi Kung. Sempre acalentou o gosto pela escrita, publicando textos num jornal académico — Letrear — criado quando era estudante e em jornais escolares de várias escolas por onde passou. Em 2004, publicou em coautoria o livro As Faces Secretas das Palavras com a editora ASA. Em 2020, participou com um poema na Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea Vol. XII – Entre o Sono e o Sonho da ChiadoBooks. Em 2021 participou com outro poema na coletânea Alma de Mar também da ChiadoBooks. Ainda neste ano, publicou o conto “Uma ponte para o passado” na coletânea Não vão os lobos voltar e o seu primeiro livro juvenil Mergulhos na maré vazia, ambos edição de autor. Está envolvida em vários projetos literários e dinamiza Oficinas de Escrita Criativa. Acredita na força da palavra escrita e no seu poder transformador.

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