Autor(a):

Luís Aguiar
Resistentia Poetica

INFÂNCIA

Como é estéril este inverno,

cresce num imprescindível azul,

azul da neve, branco do fogo.

 

As palavras resgatam um fotograma

de Luchino Visconti; como é esquivo

o gesto da morte.

 

Recordo a infância e a sua inutilidade

num mundo de homens,

humanos irrevogáveis, que deambulam

os rostos e os braços contra as montras —

carregam nos dedos cigarros antigos,

queimam a memória, clamam

pelos círculos cheios de inteligência,

os que definem os movimentos

esquizofrénicos dos cães vadios-baldios,

cães e cadelas que atravessam

as passadeiras como se fossem homens.

 

Resta-me a inutilidade da terra nas mãos

e o ácido desoxirribonucleico

que herdei de um animal ferido,

gerado pelo sol e pelo logro da orfandade.

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AUTOR(A)
Luís Aguiar

Luís Aguiar nasceu em Oliveira de Azeméis, em 1979. É mestre em Línguas e Relações Empresariais pela Universidade de Aveiro. Algumas das suas obras fotográficas figuram na capa de livros de poesia. É membro do PEN Clube Português.
Em abril de 2024, coordenou a antologia São Cravos – 50 Anos de Abril, 100 Poemas, publicada pela Editora Labirinto, no âmbito das comemorações do cinquentenário da Revolução dos Cravos.
Entre 2000 e 2025, publicou dezoito livros de poesia. Tem, igualmente, poemas dispersos por diversas antologias e revistas literárias. Alguns dos seus trabalhos poéticos foram traduzidos para castelhano, italiano e inglês.
Foi distinguido com dezenas de prémios literários, entre os quais se destacam: o Prémio de Poesia Judith Teixeira (2024 e 2016); o Prémio Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage (2022 e 2016); o Prémio Literário Cidade de Almada (2021); o Prémio Literário Afonso Lopes Vieira (2006); e o Premio del Concorso Internazionale di Poesia Castello di Duino – Trieste, Itália (2005).

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