(ou como a perna do vizinho me arruina a serenidade)
Há quem procure grandes epifanias para escrever sobre a vida. Eu, às vezes, encontro-as num café, entre o tilintar das chávenas e o abanar incessante da perna do vizinho. O mundo moderno vibra — literalmente — e talvez seja nesse tremor que se revela a mais absurda utilidade do inútil: perceber até que ponto a calma é um luxo e o silêncio, uma raridade.
Sento-me. Respiro fundo. Tenho o café à frente, um livro nas mãos e a esperança — talvez ingénua — de que o mundo, por uns minutos, me deixe estar sossegada. É pedir muito? É. Porque assim que me instalo, como quem se oferece ao silêncio, o banco começa a tremer. Não é um sismo. É pior. É uma perna. Uma perna nervosa. Uma perna que encontrou em mim o epicentro da sua inquietação.
Há pessoas que abanam a perna como quem tece um tapete invisível de ansiedade. São metrónomos humanos: tique, tique, tique, até que os meus nervos, coitados, se armam em cordas de violino a vibrar num concerto indesejado. E o mais incrível? Essas pessoas não se dão conta. Abanam como se fosse uma extensão do acto de respirar. Como se o mundo estivesse constantemente em modo vibração e nós, as almas calmas, é que fôssemos as esquisitas.
A misocinesia, aprendi, é o nome chique desta minha dor silenciosa. Uma espécie de alergia ao abanar alheio. E sim, é real. Não é mariquice. É neurociência! O movimento repetitivo dos outros activa em mim um instinto primal — o de fugir, bater com uma colher de pau ou arremessar o saleiro. Às vezes imagino manchetes improváveis: “Mulher perde a compostura e elimina tremores urbanos com utensílio doméstico”. Contenho-me. Tenho classe. Mas juro que já tremi tanto por causa da perna de alguém que comecei a achar que estava sentada numa centrifugadora emocional.
O pior é quando o fenómeno acontece em superfícies partilhadas: bancos corridos, sofás, o comboio. Uma perna agitada a dois metros de distância consegue provocar um tsunami interno. E se tento alertar a criatura tremelicante, ela responde com ar ofendido, como se eu estivesse a reprimir a liberdade de expressão dos membros inferiores. Há até quem me olhe com aquele ar de mártir moderno, como se o seu tremor fosse uma forma legítima de libertação emocional.
Será que estou a exagerar? Talvez. Mas se há gente que não suporta sons de mastigar, eu reservo o direito de detestar este terramoto de tíbias. Quero cafés onde se leia em paz, comboios que não pareçam parques de diversões e cadeiras que não se comportem como trampolins. Quero, acima de tudo, um mundo onde sentar-me não seja um desporto radical.
No fim, resigno-me. Fecho o livro, engulo o café já frio e preparo-me para sair. Levanto-me, olho para a perna inquieta e, ironia das ironias, num impulso de solidariedade, começo eu também a abanar a minha. Devagarinho. Ritmadamente. Como quem faz um pequeno protesto sísmico contra si própria. Sinto-me quase integrada, parte do rebanho vibratório da humanidade. Talvez a misocinesia seja contagiosa, ou talvez o corpo tenha maneiras subtis de não deixar o mundo parar de vez.
Ou talvez o corpo, cansado de fingir calma, precise de se exprimir no único idioma que lhe resta: o do movimento inútil. E, afinal, pode haver nisto uma estranha utilidade — a de lembrar-nos que até o gesto mais absurdo é uma forma de estar vivo, de existir no meio do ruído e, quem sabe, de não deixar o mundo parar de vez.
Porque talvez o inútil — esse abanar sem propósito, essa inquietação sem destino — seja apenas o reflexo mais honesto da nossa humanidade moderna: trememos porque ainda sentimos, porque o silêncio pesa, porque a pausa assusta.
Talvez, quem sabe, se todos abanarmos juntos, o mundo finalmente pare…ou, pelo menos, passe a tremer por uma razão que faça sentido.
E se o mundo precisa de abanar para não adormecer, que pelo menos o faça com alguma elegância — de preferência, longe do meu café.


