Aproveitei a entrevista ao recém-premiado matemático Vitorino Caraça, insigne calipolense, para acudir ao chamamento de um amigo de Vila Viçosa, o alquimista Tomé Labib. Desde a união com Anieska, eu sentia renovada pujança e gosto pelo jornalismo. O brilho daquele sorriso fervia-me o sangue como não acontecia desde os meus vintes. Era mais do que a sua juventude, havia uma especiaria inaudita que a habitava. Todas as aventuras valiam a pena.
Labib envergava um volumoso colar de bezoares (designação da minha terra para cálculos pétreos de gado ruminante) e prosseguia a gestão da Quinta Pena Solta, onde desenvolvia uma distinta cultura de gergelim. Apesar do interesse comum pelo isotérico, nunca me denunciei como pé-de-cabra nem discorri sobre o Mundo Obscuro e as suas múltiplas criaturas. O alquimista tinha a particularidade de, através do uso mágico dos bezoares e gergelim, comunicar com as pedras, como o mítico Aladino dos velhos contos orientais. Quem compreender, saberá.
As suas palavras trémulas narraram uma semana de pesadelo. Dias seguidos, uma coca plantara-se no telhado, grande réptil alado com cabeça de abóbora flamejante. O que lhe queria, não soube até ao dia em que, não a vendo por perto, se esgueirou para o campo e ordenou à grande rocha – razão de ser do nome da quinta – que se desviasse da caverna cuja entrada fechava. Ali guardou um precioso saco de gergelim três vezes banhado de três luas-cheias. Horas depois, perscrutando segurança no horizonte, retornou para garantir que o precioso armazenamento estava a salvo, mas a terra fora escavada e a grande pedra arrojada e estilhaçada. Roubadas décadas de produção de gergelim mágico de três luas. As marcas das garras da coca no solo eram a evidência de que ela desocultara o segredo.
Consolei-o com as melhores palavras e prometi investigar o caso com apuro. Não era costume uma coca mostrar-se a olhos humanos, a não ser por motivos mais do que suspeitosos. A liderar as forças do mal estava Gancha, a mais horrenda das bruxas, pelo que deduzi ser ela a comandar a cabeça oca da coca. A questão fundamental era procurar saber o motivo do roubo de tão grande quantidade de gergelim mágico. Qual a necessidade?
Depois de sossegar Labib, o alquimista, regressei a Lisboa, deixando para trás o palácio dos Bragança e a assombração da coca. Pretendia consultar informadores do Mundo Obscuro para clarificar as movimentações do inimigo insidioso. Vila Viçosa permaneceria na província, viçosa, e Lisboa encalçava-me buliçosa no seu trânsito regular e irregular de gentes, automóveis, elétricos e de mundo. No apartamento aguardava-me uma carta lacónica, convocatória rematada com o selo secreto dos Altos. Os meus chifres não captavam vibrações claras do papel. Agora, letras anónimas traçavam novo destino: Sagres seria o próximo passo do jornalista pé-de-cabra.


