Neil Perry, Todd Anderson, Knox Overstreet, Richard Cameron, Stephen Meeks, Gerard Pitts e Charlie Dalton. Esta lista de nomes podia ser parte ou a totalidade da constituição de uma equipa verdadeira, num desporto qualquer. Na verdade, porém, integra uma brilhante ficção que também nos ajuda a entender melhor o sentido de como algo aparentemente sem utilidade é, na verdade, bem útil. Personagens do filme “O Clube dos Poetas Mortos”, dirigido por Peter Weir, em 1989. O seu percurso numa instituição de ensino, com o Professor John Keating, interpretado por Robin Williams, permite-nos entender que uma vida plena vai muito além de nos entregarmos ao cinzentismo das rotinas, ao mero cumprimento de horários ou ao conformismo diante das decisões que outros tomam sobre nós
Se nos conformamos, encolhemos os ombros e seguimos indiferentes, como se viver não fosse connosco e nos tornássemos meras imagens desfocadas de nós próprios. Que sociedades resultam daí? Abstencionistas, incapazes de manifestar opiniões sólidas e poderosos argumentos, deambulando à deriva no tal “modo funcionário de viver”, a que se referia Alexandre O’Neill.
Inútil é, tantas vezes, a classificação atribuída à leitura, à paixão pela música e pelas artes em geral. Afinal de contas, perguntam os cínicos, que benefícios concretos nos trouxeram elas? Apetece recordar, como possível resposta, uma célebre rábula dos Monty Python, inserida na película “A Vida de Brian”, sobre o que fizeram os Romanos por nós.
No século XVI, Duarte Pacheco Pereira, navegador e cosmógrafo português, fascinado com as viagens ao Oriente, tinha boas propostas que nos explicavam a utilidade do inútil, no seu “Esmeraldo de Situ Orbis”, ao escrever que “a experiência é a mãe de todas as coisas”. E, conforme o comprova a própria vida do autor, não haveria experiência sem uma enorme curiosidade. Esta é a alma da ação que nos conduz ao conhecimento. Mesmo que alguns possam até identificá-la como inútil, essa alma jamais deixará de ser útil.
Voltemos à película de Weir e ao que, recorrendo à obra “Leaves of Grass”, de Whitman, diz Keating aos incrédulos alunos, espantados com a ousadia do professor naquela atmosfera de conservadorismo bafiento e de cheiro a mofo, que caracteriza a instituição onde estudam: “Não importa o que digam alguns: palavras e ideias podem mudar o mundo! Não lemos e escrevemos poesia porque é giro. Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana. E a raça humana está cheia de paixão. Medicina, Direito, Economia e Engenharia são ciências nobres e necessárias para servir de suporte à vida. Mas poesia, beleza, romance, amor?! É para isso que vivemos!”
Construímos edifícios ou pontes porque sabemos de cor vários poemas? Somos capazes de fazer operações ao coração, ao cérebro ou à coluna vertebral porque cantamos músicas sem necessidade de olhar para um papel onde esteja a letra dessas canções? Acabamos com a fome, as guerras e as desigualdades porque sabemos distinguir quadros de Vieira da Silva dos de Júlio Pomar? Resolvemos problemas de Matemática, Economia ou Cálculo por visitarmos exposições de escultura? A resposta curta a todas estas perguntas é negativa. Porém, há mais para dizer: é que um ser humano que fique reduzido apenas a uma dessas dimensões pode ser uma autoridade, um especialista, um incomparável sábio em qualquer uma delas. Mas será sempre menos cidadão, menos informado, menos bem-formado, menos participativo, menos dinâmico no dia a dia em sociedade, por lhe faltarem os outros componentes que o dimensionam em todo o seu humanismo: poesia, beleza, romance, amor, como na frase referida por Keating.
De regresso ao filme citado e ao momento em que o professor demonstra aos alunos a importância do significado da expressão latina “Carpe Diem”, isto é, “Aproveitem o dia”. Não há melhor ilustração do que recitar um pouco de poesia do século XVII, escrita por Robert Herrick: “Apanha os botões de rosa enquanto podes/O tempo voa./E esta flor que hoje sorri/Amanhã estará moribunda.”
Convite ou desafio, podem chamar-lhe o que quiserem. Nada há de inútil neste excerto de Herrick; pelo contrário, aproveitemos os dias enquanto podemos. O mais importante de tudo é que podemos aproveitá-los para descobrir mais sobre nós, os outros e o que nos rodeia. Sobre o desconhecido sobre o que temos de saber e, nesse caminho, também sobre o que não precisamos de saber, mas que podemos ficar a conhecer. Façam a experiência, a tal “mãe de todas as coisas”, como lhe chamou Duarte Pacheco Pereira. Vão ver que vale mais a pena do que perder tempo em redes, a destilar ódios, invejas e ofensas.
Escrevia Florbela Espanca que “ser poeta é ser mais alto”. Sejamos, então, poetas. Antes que nos aconteça aquilo que O’Neill previu neste excerto d’”O Poema Pouco Original do Medo”: “O medo vai ter tudo/ pernas/ ambulâncias/ e o luxo blindado/ de alguns automóveis/ Vai ter olhos onde ninguém os veja/ mãozinhas cautelosas/ enredos quase inocentes/ ouvidos não só nas paredes/ mas também no chão/ no teto/ no murmúrio dos esgotos/ e talvez até (cautela!)/ ouvidos nos teus ouvidos…”

