Autor(a):

João Ventura
João Ventura
Crónica do Viajante

À espera de salinger

À espera no centeio» narra a história de um jovem nova-iorquino, expulso da escola três dias antes das férias de Natal e que não tem coragem de regressar a casa e enfrentar os pais. Por isso, passa esses dias deambulando pela cidade, fazendo descobertas decisivas, vivendo contradições, alegrias e temores. Isto recorda-me aquela vez em que fugi à “escola primária” por temer as pancadas “regulamentares” da palmatória que me deixariam as mãos a arder, vivendo como ele contradições, alegrias e temores, enquanto esperava num campo de milho que o tempo passasse para regressar a casa como se chegasse da escola. Após a publicação do livro, D. J. Salinger, mudou-se, em 1953, para Cornish, onde viveu até à sua morte em 2010. D. J. fazia questão de se manter inacessível, um “alvo móvel” que, mesmo vivendo nos arredores de uma discreta cidade, só deixava a casa e a propriedade circundante por motivos imperiosos, tornando-se lendária a sua total indisponibilidade para entrevistas, apenas com escassas exceções, sobretudo se a jornalista fosse uma mulher bonita.

O filme «O meu ano com Salinger», realizado por Philippe Falardeau, tem como argumento a história de uma jovem estudante, Joanna, que nos anos 90 vai viver para Nova Iorque para se tornar escritora, arranjando emprego na agência literária que representa J.D. Salinger, tendo como tarefa responder em nome do oculto escritor às cartas que lhe eram enviadas. Há dias, ao ver o filme, ainda pensei que, finalmente, iria ver se não o Salinger real, ao menos o personagem que o representava. Mas não, nem na ficção, e ainda que fosse sob um avatar fílmico, Salinger não se deixou ver. Ainda assim tive mais sorte do que Vila-Matas que afirmo tê-lo visto uma vez num autocarro, mas que afinal não era ele. A mim, apareceu-me a afastar-se de costas voltadas, na cena final do filme em que apenas consegui ver a metade inferior do seu rosto.

Não vi Salinger, mas fiquei a saber que nos textos que enviava para a revista The New Yorker mantinha inalteradas as gralhas, proibindo o revisor de as corrigir e assumindo-as como se fossem opções literárias, pois achava que valorizavam o original.

Sabendo isto, também eu decidi suspender a correção das gralhas desta minha crónica e deixei ficar três gralhas esquecidas que muito valorizariam a minha colaboração neste número da Palavrar, se não tivessem sido emendadas à munha revelia pela competente revisora.

 

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AUTOR(A)
João Ventura
João Ventura

Fui durante largos anos professor de língua e literatura portuguesas, e durante três anos, de cultura portuguesa na Sorbonne, em Paris. Também lecionei na Universidade do Algarve cadeiras de gestão cultural e exerci o cargo de Diretor Regional de Cultura do Algarve. Fui bibliotecário. E fui diretor do TEMPO.

Como professor, bibliotecário ou gestor e programador cultural, a crónica da minha trajetória profissional tem duas marcas que a definem: a opção pelo sector público e pela criatividade. Por isso, a minha formação e aprendizagem nunca a dou por concluída, seja regressando uma e outra vez aos bancos da universidade seja através da leitura e das viagens que são outras duas marcas da crónica da minha aventura pessoal.

Gosto de ler, escrever e viajar. E estas três atividades furtivas ligam-se entre si. Umas vezes, leio e viajo para escrever. Outras vezes, leio e escrevo para viajar em seguida aos lugares que antecipei em crónicas de viagem inventadas. Destas deambulações, umas vezes literárias, outras geográficas, fui deixando rastos no papel. Na revista Atlântica, cujo projeto editorial criei e da qual fui diretor, e nos blogues O que cai dos dias, O leitor sem qualidades e, agora no blogue nómada Fora daqui.

Gosto de me ver como um criador de projetos culturais, alguém que faz acontecer ideias seja na vida profissional seja na vida privada. Atualmente, trabalho na Biblioteca Municipal de Portimão, desenvolvendo ideias e projetos de divulgação do livro e da leitura. E tenho em mãos, a escrita de um livro de crónicas de viagens literárias. Também gosto de cozinhar.

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