À espera no centeio» narra a história de um jovem nova-iorquino, expulso da escola três dias antes das férias de Natal e que não tem coragem de regressar a casa e enfrentar os pais. Por isso, passa esses dias deambulando pela cidade, fazendo descobertas decisivas, vivendo contradições, alegrias e temores. Isto recorda-me aquela vez em que fugi à “escola primária” por temer as pancadas “regulamentares” da palmatória que me deixariam as mãos a arder, vivendo como ele contradições, alegrias e temores, enquanto esperava num campo de milho que o tempo passasse para regressar a casa como se chegasse da escola. Após a publicação do livro, D. J. Salinger, mudou-se, em 1953, para Cornish, onde viveu até à sua morte em 2010. D. J. fazia questão de se manter inacessível, um “alvo móvel” que, mesmo vivendo nos arredores de uma discreta cidade, só deixava a casa e a propriedade circundante por motivos imperiosos, tornando-se lendária a sua total indisponibilidade para entrevistas, apenas com escassas exceções, sobretudo se a jornalista fosse uma mulher bonita.
O filme «O meu ano com Salinger», realizado por Philippe Falardeau, tem como argumento a história de uma jovem estudante, Joanna, que nos anos 90 vai viver para Nova Iorque para se tornar escritora, arranjando emprego na agência literária que representa J.D. Salinger, tendo como tarefa responder em nome do oculto escritor às cartas que lhe eram enviadas. Há dias, ao ver o filme, ainda pensei que, finalmente, iria ver se não o Salinger real, ao menos o personagem que o representava. Mas não, nem na ficção, e ainda que fosse sob um avatar fílmico, Salinger não se deixou ver. Ainda assim tive mais sorte do que Vila-Matas que afirmo tê-lo visto uma vez num autocarro, mas que afinal não era ele. A mim, apareceu-me a afastar-se de costas voltadas, na cena final do filme em que apenas consegui ver a metade inferior do seu rosto.
Não vi Salinger, mas fiquei a saber que nos textos que enviava para a revista The New Yorker mantinha inalteradas as gralhas, proibindo o revisor de as corrigir e assumindo-as como se fossem opções literárias, pois achava que valorizavam o original.
Sabendo isto, também eu decidi suspender a correção das gralhas desta minha crónica e deixei ficar três gralhas esquecidas que muito valorizariam a minha colaboração neste número da Palavrar, se não tivessem sido emendadas à munha revelia pela competente revisora.

