Autor(a):

Ana Sofia Brito

Amava o longe

O poeta dizia que sem saber por onde ir, 

por ali não iria certamente. 

E eu, que sem saber por onde vou 

me acobardo nos trilhos da corrente. 

O poeta amava o longe, 

a miragem, os abismos, as torrentes e os desertos; 

e eu – que nem coragem tenho para amar, 

para desflorar florestas virgens… 

Os poetas olham o mundo 

trespassando o alcance da visão. 

Se eu fosse poeta, 

não iria por onde me mandam os olhos doces. 

Se eu fosse poeta, saberia viver 

para além dos sonhos calados. 

Já teria descoberto ao que cheira o arco-íris, 

de que cor se pinta o vento, 

ao que sabem os malmequeres 

pousados no peito de uma mulher.

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AUTOR(A)
Ana Sofia Brito

Ana Sofia Brito nasceu em Albufeira em dezembro de 1983. Aos dezasseis anos começou a trabalhar em teatro, como atriz, em paralelo com espetáculos de rua, e aos dezassete ingressou na Universidade de Coimbra, onde esteve dois anos. Posteriormente estudou teatro, teatro físico e circo em cidades como Barcelona, Rio de Janeiro e Lisboa. 

Em 2020 completou vinte anos de carreira como artista performativa. Frequenta o Clube de Escrita Criativa de Lagoa desde 2017. Em 2021, em plena pandemia, escreveu e publicou o seu primeiro livro, Em Breve, Meu Amor, que conta com apresentações em Portugal e no Brasil. Atualmente, está em digressão com o seu mais recente espetáculo, Amor ou Sanidade, escreve para o jornal SeteMargens e tem um programa de rádio intitulado Palavra Corrente.

O Homem do Trator é o seu primeiro livro de poesia.

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