Autor(a):

Filipa Leal
Resistentia Poetica

AQUELA FRASE

Ele era o responsável por haver quem desse passeios de horas

ao pé do mar, e ainda se deitasse a contar a areia que fica no cabelo

só para esquecer as dívidas com o sonho.

Ele era o responsável por haver quem subisse gruas proibidas

de madrugada só para ver melhor os aviões.

Ele era o responsável por haver quem risse

durante muito tempo, e por haver quem fizesse rir.

Ele era o responsável por haver quem caminhasse pelas ruas

a falar sozinho e fosse de repente interrompido

por um abraço e uma meia de leite.

Ele era o responsável por haver quem se demorasse a conversar

sem nada de muito importante para dizer.

(Ele era o responsável pelas coisas

que são importantes às escondidas.)

Ele era o responsável por haver pipocas. Por haver crianças

mais dotadas para a alegria. Por haver adultos

que andam com o coração na boca a dizer coisas incríveis.

Ele era o responsável pela poesia, pela música,

por todas as artes de vencer o medo.

No entanto, a vida inteira ouviu aquela frase:

És um inútil.

FILIPA LEAL

(Inédito, 2026)

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AUTOR(A)
Filipa Leal

FILIPA LEAL nasceu no Porto em 1979. Tem 16 livros publicados (desde 2003), entre os quais “A Cidade Líquida” ou “Vem à Quinta-feira” (já na 5ª edição) e “Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano” (na 3ª edição), ambos finalistas do Prémio Correntes d’Escritas e semifinalistas do Prémio Oceanos. A sua obra está editada em Espanha, no Brasil, na Colômbia, em França (com a plaquete “La Ville Oubliée”), na Polónia, no Luxemburgo e na Grécia, e representada em várias antologias em Portugal e no estrangeiro. Formada em Jornalismo pela Universidade de Westminster (Londres), é Mestre em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Faculdade de Letras do Porto, aonde voltou em 2013 para uma formação em escrita de argumento.

Em 2010, teve um dos seus poemas exposto no Metro de Varsóvia, na iniciativa «Poems on the Underground». Em 2012 e 2014, representou Portugal em Berlim – no Festival de Poesia de Berlim e na Conferência dos Escritores Europeus 2014/Long Night of European Literature, no âmbito da qual fez uma leitura dos seus poemas no Deutsches Theater. Em 2016, foi a poeta portuguesa que integrou uma instalação sonora europeia na British Library, em Londres, com o poema “Hoje, também os carros dançam “. Em 2023, o poema “Quanto tempo para o intervalo” esteve exposto na Polónia na iniciativa “Poems in the City”. A 5 de Maio de 2025, representou Portugal na Casa da Poesia de Berlim, com uma leitura de poemas seus, no Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Nos últimos 16 anos, colaborou nos programas de televisão, da RTP2, “Câmara Clara” (“Diário Câmara Clara”); “Agora Literatura”; “Literatura Aqui” (Prémio SPA 2017 para Melhor Programa de Entretenimento); “Nada Será como Dante”; e “A Pequena Biblioteca” (desde Abril 2025, no qual é responsável pela escrita e apresentação). Antes disso, passou pela Rádio Nova (Porto); foi editora do suplemento literário “das Artes, das Letras” no jornal O Primeiro de Janeiro; colaborou com a revista “Os Meus Livros” e com a revista “Pessoa”, da Casa Fernando Pessoa, entre outras.

Desde 2003, participa regularmente em recitais de poesia por todo o país.

Como argumentista, destaque para o guião do filme “Jogo de Damas”, com a realizadora Patrícia Sequeira (Prémio de Melhor Guião nos Festivais de Cinema do Chipre e de Copenhaga); e para a série “Mulheres Assim” (2016), na RTP1.

Em Março de 2025, foi curadora, com Maria do Rosário Pedreira, do Dia Mundial da Poesia no CCB.

Em Abril, a Expo Osaka 2025 (Japão) apresentou, no Pavilhão de Portugal, uma exposição da CIM DOURO, com curadoria de Filipa Oliveira, que incluía 10 poemas inéditos de Filipa Leal sobre o Douro, gravados também na sua voz.

O livro de poemas “Adrenalina” (ed. Assírio & Alvim, 2024; finalista do Prémio Livro do Ano Bertrand – Melhor Livro de Poesia) assinalou os seus 20 anos de poesia.

Acaba de publicar “A Lentidão do Mundo” (ed. Nova Mymosa, 2026).

 

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