Bukowski dizia que o pássaro dele era azul.
o meu há dias em que não tem cor,
é translúcido de dor.
não pelo vazio da mente,
mas pela imensidão de pensamentos montanhosos,
pelas avalanches que as palavras soltam,
crateras abertas por dedos
feridos da tentativa
Bukowski veria no meu pássaro
apenas o inútil.
tenho pena da pobreza do seu conhecimento,
porque não há pássaros que nos assombrem,
sem necessidade crua.
não há cor que nos tinja,
sem nos preencher os contornos.
não há canto de ave que nos ensurdeça,
sem nos arrancar do silêncio.
existem apenas desejos de perfeição em ferro,
armaduras gastas,
masmorras que nos enjaulam,
e, a tristeza maior,
é conhecermos o carcereiro: nós mesmos.


