Porto Editora | 2024 | Vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da APE/DGLAB
Teolinda Gersão deslumbra novamente os leitores com uma obra de grande densidade emocional e intelectual, em que reencontramos um dos seus temas centrais: a identidade feminina, que se cruza com a memória e a História. Nesta narrativa, situada entre a ficção e o documento, a autora conjuga investigação e imaginário interpretativo, mantendo-se uma das vozes mais consistentes da literatura portuguesa contemporânea.
Martha Bernays — a protagonista — é a mulher que até há pouco tempo permanecia quase invisível ao lado do marido, Sigmund Freud. O romance nasce das cartas trocadas entre ambos, durante os quatro anos de noivado (1882–1886), e de outras missivas enviadas a familiares e amigos, publicadas apenas entre 2011 e 2019. «[…] é em cartas íntimas, escritas sem filtro, que a personalidade de quem escreve se revela do modo mais intenso e genuíno.»(Gersão, 2024, p. 7) Como observa, ainda, Teolinda Gersão, na nota introdutória, não se trata de um romance histórico, mas de uma leitura interpretativa de duas consciências reais. A autora ilumina a voz de Martha, mulher que durante décadas foi reduzida ao papel de esposa devota.
Encontramos Martha já idosa, a reler as cartas que recebera e descobrir outras que nunca chegara a conhecer. Essa revisitação epistolar leva-a a redescobrir não apenas o homem a quem dedicou mais de cinco décadas da sua vida, mas também a jovem que fora e, sobretudo, a mulher que não pôde ser plenamente, por imposição social e conjugal. A leitura íntima das cartas transforma-se, então, num exercício de autoconhecimento e libertação tardia. Martha analisa-se a si mesma e ao marido, regressando a um passado de ilusões, renúncias e de um amor marcado pela desigualdade.
Em trinta e cinco capítulos breves, o texto segue o fluxo de uma consciência que se interroga sobre quem foi na sombra de um nome maior, que identidade ficou submersa sob o peso da história de Freud e quem é agora, quando finalmente pode falar. A voz de Martha — contida, lúcida, por vezes irónica — constrói-se na maturidade e na distância, revelando tanto serenidade como desencanto.
Nesta matéria ficcional, assente em documentos autênticos, a imaginação não serve a fantasia, mas a interpretação. A autora apresenta uma leitura em que o leitor precisa de participar no mesmo gesto hermenêutico de Martha: cada carta proporciona múltiplas imagens de ambos. Não é difícil reconhecer nessa mulher que reaprende a dizer-se vozes de outras figuras femininas da obra da autora, como Júlia Mann ou a narradora de A árvore das palavras.
Uma das vertentes mais interessantes do romance é o olhar de Martha, ficcionado por Teolinda Gersão, sobre Freud. Nesta projeção subjetiva, construída a partir da releitura tardia das cartas, surge um homem profundamente contraditório — ciumento, possessivo, por vezes cruel na forma como impõe o seu domínio afetivo e intelectual. «Martha é minha.» São referidos os seus vícios — tabaco, álcool e cocaína —, a neurastenia e a ideia de uma homossexualidade nunca vivida. A autora não pretende fazer um relato biográfico de Freud, mas examinar o modo como o poder e a afetividade se entrelaçam numa relação marcada pela desigualdade de género. A leitura provoca algum desconforto, devido à tensão entre a fidelidade documental e a inevitável reconstrução literária, entre a denúncia histórica e a imaginação crítica de uma autora do século XXI.
A atenção à condição feminina e à subtileza das relações de poder entre géneros é um traço recorrente da escrita de Teolinda Gersão. O tema da submissão e da emancipação é tratado através de uma ética de lucidez e contenção. Martha assume o amor que sentiu pelo marido e reconhece a sua própria anulação, mas reivindica o direito à palavra e à memória, reclamando que as duas vozes — a dela e a de Freud — sejam ouvidas em pé de igualdade. O gesto é duplo: reparação simbólica e exercício de reflexão histórica.
Autobiografia não escrita de Martha Freud inscreve-se, assim, na continuidade temática da obra de Teolinda Gersão, onde a experiência feminina e o questionamento da identidade assumem papel central. A prosa, depurada e contida, articula a reflexão ensaística com o registo intimista de um monólogo interior, exigindo uma leitura demorada e interpretativa. Contudo, a principal força do romance reside na ambiguidade da voz de uma Martha mediada pela sensibilidade da autora. É aqui que a narrativa encontra a sua relevância contemporânea. Ao reescrever a história a partir da margem, Teolinda Gersão não restitui apenas a palavra a uma mulher esquecida: abre a porta ao leitor para se interrogar sobre a relação entre verdade, memória e representação.
«Saber quem é o outro é também saber quem fomos sendo na relação com ele.» (Gersão, 2024, p. 151)


