Autor(a):

David Roque
Gaveta Criativa

Autobiografia ou exposição das chagas

Javier Marías (1951-2022), o renomado escritor espanhol, é um dos modernos autores que não têm a autobiografia ficcional em grande consideração. A principal alegação é a de que resulta de uma certa falta de imaginação, ou seja, da insuficiente capacidade de gerar imagem nova. Assume que o ato criativo é a deliberada vontade de colocar no mundo o que antes não existia. A ficção escrita é, assim, muito mais do que a exposição da realidade, pois esta atividade pouco passará de jornalismo ou diarismo, campos que podem servir como fontes da escrita criativa, mas que não usufruem em abundância da verve literária.

Acompanho Marías na prioridade atribuída à imaginação em detrimento do relato simples da vida. Claro que a sua obra é toda sobre a profundidade da vida humana, com laivos muito realistas e até biográficos, mas isso apenas reforça a sua ideia de universalização do enredo a princípios idealizados de figuras e ações. O que não pode acontecer é confundir as fontes de matéria da escrita literária – a realidade – com o próprio produto ficcional. Além disso, apesar da presunção de verdade contida numa autobiografia ficcionada, ela será sempre um híbrido, uma mutação em que a arte de escrever é subordinada a um realismo duvidoso. Dúbio, porque pretende vender verdade, mas é parcialmente ficção (em quantidade e localização desconhecidas), o que pode assemelhar-se a uma espécie de produto contrafeito. Mas também transporta a problemática da memória como garantia da história, o que nem a historiografia nem a psicologia, de per se, confirmam. 

Na autoficção – nome próprio desta arte mista – florescem doses substanciais ora de ingenuidade, ora de malícia. A ingenuidade advém da confiança na memória, mecanismo que confunde autonarrativa da psique com verdade. A malícia, por sua vez, é mais óbvia, e tende para dois objetivos: a glorificação ou a vitimização da pessoa. Neste caso, deturpa-se voluntariamente para construir uma narrativa. Presunção e água benta, cada um toma a que quer. A vitimização ocupa um espaço relevante na recente ficção primusecular, ganhando laivos de pornografia, da exposição das chagas, à semelhança do espírito de programas televisivos de preenchimento emocional na grelha horária.

Marías também denuncia a venda das dores próprias para instigar o pietismo e voyeurismo do leitor, embrulhando emoções e juízos como factos e pretendendo que a ficção não é ficção – portanto, não é arte –, e que o relato é factual – mas sem contraditório. Que escrevam autobiografias, somente. A escrita aos escritores. A inventividade como premissa da literatura, por mais realista que seja.

Quem pretende escrever deve meditar nesta temática, questionando se o que tem para entregar ao mundo é apenas a sua realidade pessoal com pouca mediação criativa (e quantas vidas aborrecidas existem, por mais vibrantes que as próprias pessoas as considerem), ou se pretende aproveitar a sua existência e realidades observadas como fonte de criação, numa inventiva que ultrapasse o EU e siga em direção às estrelas.

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AUTOR(A)
David Roque

David Roque nasce no ano de 1977, em Portimão, depois reside em Ferragudo, terra de acolhimento e de eleição. Fez o ensino secundário em Portimão e licenciou-se em História pela Universidade de Lisboa, em 2001, tendo posteriormente feito uma pós-graduação em ensino, em 2003. É professor de História desde então, no ensino básico e secundário. Comprometeu-se com o associativismo através da Associação Cultural e Desportiva de Ferragudo, diretamente vocacionado para a área cultural e de gestão do espaço infantil. Em 2009, ingressa na vida política e partidária, como instrumento de participar na transformação da sociedade. Na literatura, assume desde o princípio do século a animação de oficinas de escrita criativa e a fundação de um clube nessa área. Tem publicadas duas histórias infantis, poesias em coletâneas e uma obra historiográfica recente, para além da redação de artigos em vários jornais

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