Sílvia sempre fora considerada estranha. Gostava de permanecer quieta. Às vezes sentada, outras vezes deitada, ou simplesmente encostada a um tronco, a observar tudo à sua volta, sem fazer mais nada.
Pelo menos, era o que diziam. Alguns falavam em meditação, mas ela nada percebia disso. O que realmente apreciava era ver as cores, sentir os odores e deixar que cada sensação se arrumasse dentro dela como quem arruma luz em gavetas secretas.
Nesses instantes, conseguia ouvir o que o vento murmurava e sentir as vibrações silenciosas das coisas que a rodeavam. O tempo abrandava, quase desaparecia, e Sílvia caminhava pé ante pé pelos troncos das árvores ou trepava pelos caules das flores para lhes aspirar o aroma.
Com o passar dos anos, deixou-se embrenhar cada vez mais nesses mundos vibrantes. E percebeu algo estranho: por mais que lhe parecesse passar ali um dia inteiro, na realidade só tinham decorrido alguns minutos.
Queria explorar mais, descobrir por que o tempo era diferente ali dentro. Seria tudo imaginação? Os pensamentos voam depressa, os sonhos estendem-se como rios, e às vezes basta fechar os olhos por instantes para viver horas inteiras.
Sílvia começou a procurar padrões. Tentava perceber quando acontecia aquela mudança, aquele deslizamento suave para dentro do outro tempo. Reparou que surgia sempre nos instantes em que deixava de pensar e apenas sentia. Bastava um sopro de vento mais demorado, o brilho inesperado de uma folha ao sol, o rumor quase impercetível de um inseto escondido na relva. Era como atravessar uma película fina, transparente, que separava o mundo comum de qualquer outra coisa.
Um dia, sentada no seu lugar habitual, no pátio de casa, sentiu algo diferente. Os sons estavam mais nítidos, como se alguém tivesse afinado o mundo. O bater das asas de um pássaro soou-lhe mais próximo. O perfume das flores pareceu-lhe mais denso.
O chão sob os seus pés pulsou.
Sílvia abriu os olhos devagar. Tudo estava igual… e, no entanto, nada respirava igual. As sombras moviam-se com um ritmo próprio, como criaturas tímidas. As árvores inclinavam-se, não ao sabor do vento, mas como quem cumprimenta alguém conhecido. E o ar… o ar tinha qualquer coisa viva, uma textura que podia tocar. Com uma sensação de embriaguez, alongou o braço com o indicador esticado. O ar à sua volta ondulou como se tivesse tocado numa poça de água. Os seus movimentos eram lentos e tudo à volta revibrava de energia. O som de besouros pairava no ar e, sempre que algo se movimentava, esse som aumentava. Mas o mais estranho foi o que se deu com o tempo.
De repente, Sílvia percebeu que já não tinha a mínima noção de quanto tempo passara ali. Podia ter sido um minuto. Podia ter sido uma tarde inteira. Não sentia fome, nem cansaço, nem o peso que o corpo costuma ganhar quando as horas se acumulam.
— Quem és tu? — murmurou, sem saber se falava com o lugar, com o tempo, ou com ela própria.
E, pela primeira vez, algo respondeu. Não em palavras, mas num sopro quente que lhe tocou o rosto, como se o mundo, enfim, respirasse.
Olhou em volta, mas não vislumbrou ninguém. A brisa quente percorreu-lhe a pele como um aconchego vindo de dentro, e Sílvia sentiu, sem entender como, que aquilo não era apenas vento. Era uma presença. Quase sem som houve apenas um estalar suave, como quando a madeira se dilata ao sol- E o mundo pareceu suspender-se por um segundo demasiado longo. As folhas deixaram de cair a meio do voo, o canto dos pássaros ficou preso no ar como uma nota esquecida, e até a sua respiração se tornou mais leve, como se o corpo se tivesse esquecido de existir. Foi então que ouviu. Não com os ouvidos, mas com tudo o resto.
“Estás a escutar-me.”
O pensamento não era dela, ecoava dentro de si como se sempre lá tivesse estado. Ficou imóvel.
— Quem… quem és? — perguntou, com a voz a tremer. As folhas retomaram o voo, o canto voltou, o mundo continuou, mas dentro da sua mente ficou a sensação de um sorriso antigo, um sorriso que já tinha visto em todas as eras e continuava ali, sem pressa.
“Sou aquilo que procuras desde que aprendeste a ficar quieta.”
Engoliu em seco.
— O tempo…? — arriscou.
O vento rodopiou à sua volta, leve como um gesto de confirmação.
“Sempre me viste. Nunca tinhas reparado.”
Ela inspirou fundo, sentindo o cheiro da terra. Tudo fazia sentido: a lentidão, os minutos que se alargavam até parecerem dias, aquela sensação de que o mundo vibrava com uma lógica própria.
— Porque me deixas entrar? — sussurrou.
Desta vez, o mundo não parou, aproximou-se, como se cada coisa estivesse mais perto do que realmente estava.
“Porque sabes escutar. E porque estás pronta.”
Sílvia voltou a fechar os olhos. Quando os voltou a abrir, nada tinha mudado, mas dentro dela, tudo estava diferente.
— Pronta para quê? — perguntou.
O ar ficou denso, cheio de um silêncio vivo, expectante.
“Para aprender que o tempo não passa. Tu é que passas por mim.”
A frase vibrou-lhe nos ossos, nas veias, no pensamento.
Sílvia sentiu então que a verdadeira pergunta não era quem ele era. Era quem ela se tornaria depois de o ouvir. Ficou quieta, aquela questão a ecoar dentro dela. A ideia era tão vasta que doía pensar nela.
— É inútil contar o tempo — concluiu num sussurro.
Piscou devagar e, sentindo um redemoinho de vento morno na pele, virou o olhar para as árvores. As cores começavam a separar-se, a ganhar contornos distintos, como camadas que finalmente encontravam o seu lugar. As sombras moviam-se com uma cadência própria, não seguindo o sol, mas algo mais profundo. O cantar dos pássaros vinha em ondulações curtas, como fragmentos de um ritmo que lhe escapava. Por um instante, viu tudo — cada mudança ínfima, cada vibração, cada micro movimento que antes lhe passava despercebido. Não era o mundo que abrandava, e sim ela que o acompanhava na velocidade certa.
Sílvia pensou nos dias anteriores, nos momentos em que se deixava cair para dentro de si mesma, sentada na relva ou encostada a uma árvore. Nunca tinha procurado nada, apenas deixava que o mundo acontecesse.
Nesse instante, percebeu algo que nunca fora capaz de formular: Aqueles momentos em que se perdia no silêncio, nas cores, nos cheiros não eram apenas pausas. Eram passagens. Pontes que se abriam quando deixava de tentar compreender o mundo e se limitava a ouvi-lo. Olhou para a relva, para os caules das flores, para as partículas de pó dourado a flutuar no ar — e, pela primeira vez, viu que cada uma delas tinha o próprio ritmo, a sua própria dança, como pequenos mundos dentro de um mundo maior.
Um grito de um melro ecoou no ar. Sílvia continuava no pátio da sua casa. À sua volta tudo parecia igual, mas ela sabia que não.
Não se trata do tempo a passar, mas do que se faz para aproveitar cada momento, mesmo que seja a não fazer nada.


