Autor(a):

Maria José Esteves
Maria Bruno Esteves
Da Palavra à Força

Entre o princípio e o fim

Uma meditação sobre o tempo, o corpo e o silêncio

«Liberdade é pouco.

 O que eu desejo ainda não tem nome.»

Clarice Lispector

Durante anos, vivi prisioneira do útil.

Acreditava que ser útil era ser necessária, e ser necessária era existir. O tempo era uma sucessão de tarefas, e eu media o valor dos dias pelo que conseguia riscar da lista.

Chamava a isso vida — mas era apenas movimento.

Vivia entre reuniões e prazos, porém, o ruído vinha de dentro. A sensação constante de estar em dívida para com o mundo impedia-me de respirar. Era uma prisão dourada: admirada por fora, sem janelas por dentro.

O útil, percebo hoje, é uma forma subtil de escravidão — porque nos convence de que só temos valor, quando produzimos.

 

Foi preciso o corpo deter-se para que eu o ouvisse.

A doença chegou.

Sem aviso, sem metáfora — apenas chegou.

Tudo o que eu era desabou como um edifício antigo, onde já não cabia a quietude.

 

No início, resisti.

 

Quis lutar, planear a recuperação, controlar o que não tem controlo. A vida não se deixa comandar. No cansaço — no momento em que larguei o comando — o resto de mim começou a respirar.

E percebi: a cura não viria apenas dos remédios, mas da forma como eu me olhava.

Lembro-me do primeiro dia em que fui ao cinema, ainda de baixa. Sentei-me na penumbra, mergulhei numa viagem pelos sentidos.

O tempo parou.

Quando a luz voltou, a culpa esperava-me à porta: como podia divertir-me se ainda não estava curada? O coração apertou-se — não pelo medo da doença, mas pelo esquecimento do dever, ainda que por um instante.

Demorei a entender que o prazer também é um modo de cura — que o inútil, afinal, era o meu caminho de volta à vida.

Nessa altura, outras mulheres começaram a aparecer — faróis que iluminavam caminhos que eu ainda não sabia percorrer. Chegaram com a serenidade de quem já conhecia o abismo — cada uma com o seu enigma, a sua concha, o seu segredo.

Encontrámo-nos em círculo, os pés firmes na terra e o coração a abrir-se devagar, como se a respiração de uma fosse o prolongamento da outra.

Não nos unia a dor, mas o reconhecimento.

Houve lágrimas antigas, partilhas nuas, abraços que dissolviam fronteiras. O que acontecia ali não era apenas encontro — era regresso a algo que nenhuma sabia nomear. No labirinto da vida, entre sombras e luzes cruzadas, cada uma descobria a mulher sábia que sempre estivera à espera no centro de si.

Durante muito tempo, evitara o toque — parecia-me demasiado íntimo, demasiado verdadeiro. Uma delas colocou a mão sobre a minha e apenas disse: «Estamos aqui.» Nesse gesto, o medo desfez-se — e o corpo, que fora trincheira, voltou a ser casa.

Ali, no círculo, o silêncio era uma janela aberta — e, pela primeira vez, deixei o ar entrar. Com elas aprendi o que a solidão nunca me ensinou: que a força não é resistência, é entrega; que o amor é o caminho de volta; e que, quando uma mulher se cura, o mundo inteiro respira um pouco melhor.

 

A cura revelou-se devagar, como quem aprende uma nova língua.

 

Percebi que o inútil não é o contrário do fazer.

É o espaço onde o ser respira.

Caminhar sem destino.

Ouvir o mar.

Estar em quietude com quem amo.

O que antes era dispensável tornara-se o centro da minha vida.

 

Hoje, sei que a cura nunca esteve fora de mim.

Nasceu no instante em que deixei de querer vencer e passei a querer viver. No instante em que compreendi que o útil era prisão: o inútil, liberdade.

 

Agora, o que me sustenta são as coisas pequenas: um raio de sol sobre a mesa, o aroma do café, o riso inesperado de uma amiga.

O mundo continua a girar, porém, já não me arrasta. Ainda há dias em que o medo regressa, feito visitante de um lugar que conhece bem.

Não o expulso. Ofereço-lhe chá.

Ficamos em silêncio, um diante do outro, até ele perceber que já não manda em mim.

 

O tempo deixou de ser corrida; é caminho. E o caminho é o próprio destino.

Entre o princípio e o fim, há o agora. Nesse agora, que nada promete e tudo contém, habito-me inteira.

O inútil libertou-me — e, pela primeira vez, o simples é suficiente.

Já não procuro sentido em tudo o que faço; encontro-o em tudo o que sou.

 

Descobri que a verdadeira liberdade não é fazer o que quero. E talvez seja isso que Clarice Lispector quis dizer: que a vida começa quando deixamos de precisar de justificá-la.

 

Ou talvez não.

Talvez a vida comece sempre que ousamos parar.

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AUTOR(A)
Maria José Esteves
Maria Bruno Esteves

Maria José Bruno Esteves nasceu no Cartaxo, em 1956. Cresceu em Santarém, vive em Almada e formou-se em Sociologia pela Universidade Nova de Lisboa. Durante décadas, dedicou-se à investigação e intervenção social nas áreas da educação, formação e cidadania.

A sua escrita emerge da vida e das feridas: a infância, a perda, a doença, a voz calada e o silêncio das ausências são temas recorrentes nos seus textos.

Desde 2020, tem publicado poesia e conto em diversas coletâneas literárias, e colabora com regularidade na revista PALAVRAR, onde partilha poesia, crónica e textos de cariz reflexivo e motivacional, aventurando-se pontualmente no conto infantil e na narrativa policial.

Desenvolve atualmente um conjunto de textos poéticos com forte marca pessoal e social, onde a palavra se equilibra entre o lirismo íntimo e a denúncia contida.

Publica nas redes sociais e no blogue Olhares e Memórias, e participa em eventos de poesia promovidos pela universidade sénior, onde partilha a sua voz e a de outros poetas com o público.

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