Uma meditação sobre o tempo, o corpo e o silêncio
«Liberdade é pouco.
O que eu desejo ainda não tem nome.»
Clarice Lispector
Durante anos, vivi prisioneira do útil.
Acreditava que ser útil era ser necessária, e ser necessária era existir. O tempo era uma sucessão de tarefas, e eu media o valor dos dias pelo que conseguia riscar da lista.
Chamava a isso vida — mas era apenas movimento.
Vivia entre reuniões e prazos, porém, o ruído vinha de dentro. A sensação constante de estar em dívida para com o mundo impedia-me de respirar. Era uma prisão dourada: admirada por fora, sem janelas por dentro.
O útil, percebo hoje, é uma forma subtil de escravidão — porque nos convence de que só temos valor, quando produzimos.
Foi preciso o corpo deter-se para que eu o ouvisse.
A doença chegou.
Sem aviso, sem metáfora — apenas chegou.
Tudo o que eu era desabou como um edifício antigo, onde já não cabia a quietude.
No início, resisti.
Quis lutar, planear a recuperação, controlar o que não tem controlo. A vida não se deixa comandar. No cansaço — no momento em que larguei o comando — o resto de mim começou a respirar.
E percebi: a cura não viria apenas dos remédios, mas da forma como eu me olhava.
Lembro-me do primeiro dia em que fui ao cinema, ainda de baixa. Sentei-me na penumbra, mergulhei numa viagem pelos sentidos.
O tempo parou.
Quando a luz voltou, a culpa esperava-me à porta: como podia divertir-me se ainda não estava curada? O coração apertou-se — não pelo medo da doença, mas pelo esquecimento do dever, ainda que por um instante.
Demorei a entender que o prazer também é um modo de cura — que o inútil, afinal, era o meu caminho de volta à vida.
Nessa altura, outras mulheres começaram a aparecer — faróis que iluminavam caminhos que eu ainda não sabia percorrer. Chegaram com a serenidade de quem já conhecia o abismo — cada uma com o seu enigma, a sua concha, o seu segredo.
Encontrámo-nos em círculo, os pés firmes na terra e o coração a abrir-se devagar, como se a respiração de uma fosse o prolongamento da outra.
Não nos unia a dor, mas o reconhecimento.
Houve lágrimas antigas, partilhas nuas, abraços que dissolviam fronteiras. O que acontecia ali não era apenas encontro — era regresso a algo que nenhuma sabia nomear. No labirinto da vida, entre sombras e luzes cruzadas, cada uma descobria a mulher sábia que sempre estivera à espera no centro de si.
Durante muito tempo, evitara o toque — parecia-me demasiado íntimo, demasiado verdadeiro. Uma delas colocou a mão sobre a minha e apenas disse: «Estamos aqui.» Nesse gesto, o medo desfez-se — e o corpo, que fora trincheira, voltou a ser casa.
Ali, no círculo, o silêncio era uma janela aberta — e, pela primeira vez, deixei o ar entrar. Com elas aprendi o que a solidão nunca me ensinou: que a força não é resistência, é entrega; que o amor é o caminho de volta; e que, quando uma mulher se cura, o mundo inteiro respira um pouco melhor.
A cura revelou-se devagar, como quem aprende uma nova língua.
Percebi que o inútil não é o contrário do fazer.
É o espaço onde o ser respira.
Caminhar sem destino.
Ouvir o mar.
Estar em quietude com quem amo.
O que antes era dispensável tornara-se o centro da minha vida.
Hoje, sei que a cura nunca esteve fora de mim.
Nasceu no instante em que deixei de querer vencer e passei a querer viver. No instante em que compreendi que o útil era prisão: o inútil, liberdade.
Agora, o que me sustenta são as coisas pequenas: um raio de sol sobre a mesa, o aroma do café, o riso inesperado de uma amiga.
O mundo continua a girar, porém, já não me arrasta. Ainda há dias em que o medo regressa, feito visitante de um lugar que conhece bem.
Não o expulso. Ofereço-lhe chá.
Ficamos em silêncio, um diante do outro, até ele perceber que já não manda em mim.
O tempo deixou de ser corrida; é caminho. E o caminho é o próprio destino.
Entre o princípio e o fim, há o agora. Nesse agora, que nada promete e tudo contém, habito-me inteira.
O inútil libertou-me — e, pela primeira vez, o simples é suficiente.
Já não procuro sentido em tudo o que faço; encontro-o em tudo o que sou.
Descobri que a verdadeira liberdade não é fazer o que quero. E talvez seja isso que Clarice Lispector quis dizer: que a vida começa quando deixamos de precisar de justificá-la.
Ou talvez não.
Talvez a vida comece sempre que ousamos parar.

