Era a casa dos avós. Já fora dos bisavós. No dia do funeral da anciã da família, a população da aldeia juntou-se diante da casa. A avó Lina era a avó de todos. Era ela a quem as famílias ainda mais pobres pediam ajuda. Eu tinha seis anos. Encostada à parede, observei uns homens desconhecidos passarem com o caixão sobre os ombros. Homens e mulheres acompanharam os meus pais, os meus avós, os meus tios e tios-avós, a pé, atrás da carrinha. Fiquei ali, até a multidão desaparecer no final da rua.
Não recordo os primeiros passos. No dia do meu primeiro aniversário, a minha avó surpreendeu os meus pais «a menina começou a andar». Observo a fotografia, a preto e branco. De vestido clarinho, curto e rodado, entre o meu pai, de calção de banho escuro, e a minha mãe, com um vestido justo, às riscas. Os três descalços sobre a areia do Tejo. As areias da margem do rio eram a nossa praia. A praia «dos tesos», como lhe chamavam.
Mensalmente, a minha avó deslocava-se ao Cartaxo, para fazer as compras na mercearia da Laura. No regresso, quase sempre me levava com ela na carreira que ligava a vila à aldeia. Desde tenra idade que a casa de Porto de Muge representava a liberdade da vida no campo. Foi lá que aprendi a andar e também a dar os primeiros mergulhos.
As mulheres da aldeia levavam, à cabeça, as tábuas de madeira e os cestos de roupa, para lavarem nas águas do rio. Todas seguidas, lado a lado, conversavam e gritavam com a miudagem. As crianças corriam e levantavam água, umas para as outras. Fazíamos desafios a nadar por baixo das tábuas. Alinhadas, sobre os quatro pés, formavam uma ponte. Quem passasse sob o maior número delas, sem levantar a cabeça, era o vencedor.
─ Saíam daqui! Ainda deitam as tábuas abaixo ─ ralhavam as mães e as avós. ─ Depois vão pescar a roupa no meio do rio.
Os lençóis estendidos ao sol, em cima dos arbustos, tal nuvem branca pousada sobre um manto verde. Já secos e dobrados, eram colocados nos cestos de verga. No final da manhã, estafados, mas divertidos, regressávamos a casa. Eram horas de almoçar.
Nos dias frios, a cafeteira mantinha-se cheia, em cima das brasas, libertando um convidativo aroma. Sentada num banquinho, em frente à fogueira, a minha avó bebia canecas de café. E quando fazia grandes tachos com arroz-doce para os casamentos! Era uma festa. O melhor arroz da aldeia. Eu e o meu tio, onze anos mais velho, éramos companheiros de jogos e folias. Observávamos, ansiosos, a minha avó a encher as travessas e a traçar os desenhos com canela em pó. Esperávamos a nossa vez. Cada um, com a sua colher, rapava o tacho. Competíamos pelo maior número de colheradas.
Em novembro, deleitávamo-nos com os dióspiros. O grande diospireiro junto ao poço, plantado no tempo da avó Lina, era um dos atrativos da casa.
A casa foi crescendo, aperfeiçoada ao ritmo dos herdeiros que assumiram a sua guarda. A cozinha de tábuas passou para alvenaria. Dos meus avós, transitou para os meus pais e tios. De habitação, onde nasceram e viveram, transformou-se em casa de férias e fins de semana.
No verão, as sardinhas assadas na fogueira, acesa sobre as areias do Tejo, faziam parte da tradição dos almoços de família. À sombra dos salgueiros, as mulheres estendiam a toalha por cima das mantas, colocavam os pratos, os talheres e a grande saladeira repleta de tomates, pepino e «catalões». Sim, porque isso de pimentos, só quando vim para Lisboa é que ouvi esse nome. Aos homens cabia a tarefa de transportar o garrafão de água-pé, produzida na pequena adega familiar, e encher os copos. Sentados no chão, comíamos, bebíamos e cavaqueávamos durante toda a tarde. Os homens, já com um copito a mais, dormiam a sesta deitados na areia fresca. As crianças inventavam jogos, subiam às árvores e corriam pelos regueiros. No mesmo local, onde outrora se competia por baixo das tábuas, brincavam agora outras crianças. Os avós, agora bisavós, observavam. As brincadeiras eram diferentes, mas os mergulhos e as gargalhadas eram os mesmos.
As crianças cresceram, foram para outras paragens e a casa foi-se remetendo ao silêncio. Com o silêncio veio a morte. Foi perdendo a cor e a luz. As aranhas construíram teias e ocuparam a casa. O pó invadiu as loiças e os candeeiros. As fotografias, sobre as cómodas ou suspensas nas paredes, amareleceram. As ervas cresceram e invadiram os espaços que outrora eram lugar de couves, alfaces, tomates, feijão.
Já não há quem apanhe os frutos do velho diospireiro. Amadurecidos, caem e esborracham-se no chão. Um manto alaranjado cobre a terra.
Um certo dia, a minha mãe, nos seus oitenta e cinco anos, comenta com tristeza:
─ A tua avó sempre me pediu: «Quando eu morrer, não deixem cair a minha casinha. Trabalhei tanto para a erguer!»
Após seis anos de batalha pela sobrevivência, em que as forças me abandonaram, aquela frase bateu no meu coração. Não. Nem pensar. Não podia deixar cair a casa das minhas recordações.
Pedreiros, eletricistas, carpinteiros, pintores, foram chamados. A minha filha desenhou o projeto. Eu coordenei os trabalhos. A minha mãe observava.
─ Eu já não mando nada. Façam o que acharem melhor!
Via, nos seus olhos, a felicidade de ver a filha e a neta renovarem a casa onde nascera. Dar-lhe uma nova vida. E o sonho tornou-se realidade. O regresso a casa. O regresso a mim. O regresso dos ancestrais. As crianças de agora já brincam na casa das memórias.
Este ano, já apanhámos os dióspiros. Amadureceram um mês mais cedo.


