[i.nú.til, que não tem utilidade; que não tem êxito ou que não vale a pena;que ou quem não mostra capacidade ou serventia para nada. Do latim inutilis]
Ele existe. Está dicionarizado — baldado, infrutuoso, vão — e não pode ser considerado abstrato, pois é adjetivo e substantivo comum de dois géneros. Anda à solta pela sociedade, caminha naturalmente pelas aldeias, invade as metrópoles. Está no ar que carrega a voz, na nuvem que dança no céu. Vive nas casas, impregnado à preguiça do sofá, colado ao vidro da janela. O inútil está no mundo por direito divino, mesmo que o seu registo de batismo aponte que não valha a pena. Há controvérsia.
Para fugir ao automatismo utilitário do quotidiano, o inútil diz: Para tudo. Respira com presença para lembrar que está vivo. Olha o longe, estica os braços e sacode os membros desordenadamente. Escuta o silêncio. Sente o cheiro de uma flor, lembra que há beleza. Fecha os olhos, pensa num momento agradável, sente de novo e sorri. Aproveita as inutilidades para equilibrar o dia e sorri novamente.
O sorriso não dá frutos, pode ser em vão para o espelho, não serve para validar, não serve para nada. Há controvérsia.
[u.ti.li.da.de, qualidade de útil; préstimo, vantagem, serventia; pessoa ou objeto útil. Do latim utilitas]
Ela existe. Está premiada — performance, produtividade, desempenho — e no palco da vida é o substantivo feminino acarinhado por todos. Alcança os objetivos, sabe os conceitos, as funções, produz sempre algum efeito. Foi feita para trabalhar de forma exemplar e estar a fazer, fazer e fazer. Como o próprio nome indica, é muito útil para a existência na Terra. É cultivada pelas sociedades, pois também é um meio de sobrevivência. É estudada pelas gestões e pelo marketing, pois no mundo capitalista, onde tudo vira produto, ela tem de estar em primeiro lugar. A utilidade vive por direito divino e possui passaporte que chancela a sua livre presença. Há controvérsia.
A utilidade das coisas, como tudo que é feminino, não pode ser limitada a um padrão ou fechada em ideias estanques. Dos artefatos mais primitivos aos modernos equipamentos eletrónicos, há o mérito da serventia aprimorada pelo tempo e pelo desenvolvimento social. As profissões como carimbo de identificação fazem o mundo funcionar ao partilhar serviços variados e, por moeda de troca, as pessoas podem usufruir de atividades e mercadorias, todas com seu manual de instruções. A utilidade diz: Eu sou uma perfeição. Há controvérsia.
Todos os dias os dois se encontram numa mesa de algum café pela cidade. A utilidade, impecável, acomoda as pessoas, serve o alimento, providencia tudo o que se precisa para um agradável fim de tarde de primavera. Está sempre pronta a pontuar as suas vantagens. Ela é muito importante e necessária. Partilha com o seu par oposto tudo que sabe, e julga-se imprescindível para o encontro. O inútil aproveita toda a estabilidade da sua companhia e aparece no aroma hipnotizante do café, na vista bonita que se tem da esplanada, nas saborosas conversas sobre memórias de concertos e exposições, e nos sorrisos quando se degusta um sabor dos deuses ou se escuta uma bela melodia. O prazer e a alegria que envolve o momento dos dois é inigualável. São mesmo tão opostos? Há controvérsia.
A utilidade, ao perceber o estranho encantamento no ar, pergunta ao inútil: Para que serve o que não serve para nada? — este assunto está sempre na pauta dos encontros.
O inútil provoca: Como o quê, por exemplo?
A utilidade, didaticamente, lembrou-se das artes e das coisas que ela não entende o motivo, como apreciar belas árvores e águas calmas de algum rio, contemplar horizontes ou bebés fofinhos, fechar os olhos ao som de uma canção…
O inútil, tranquilo e sereno, respondeu: Tudo que consideras inútil ganha um novo valor ao iluminar a alma. São experiências e sensações inesquecíveis. A arte tem o poder de inspirar, irradiar criatividade, mostrar ao mundo que existe porque sim, sem explicar mais nada. Desperta sentimentos variados nas pessoas, que são tão diferentes… Ser criativo é a manifestação mais pura da vida. Para que é que as pessoas vão a um concerto, a um teatro ou a uma exposição de arte? Vão para reconhecerem que estão vivas. Para que escrevem e leem livros?… Eu estou nos prazeres e nas sensações de bem-estar… Sem mim, a humanidade não sobreviveria. Mas continuamos a conversa outro dia, querida, lembrei-me de que tenho outro encontro… — a suspirar, pediu licença e deixou a utilidade à mesa.
A beleza esperava-o do outro lado da esplanada, pois o pôr do sol é razão imperdível. Sem controvérsia.
A utilidade não se importou. Há controvérsia.

