Como é estéril este inverno,
cresce num imprescindível azul,
azul da neve, branco do fogo.
As palavras resgatam um fotograma
de Luchino Visconti; como é esquivo
o gesto da morte.
Recordo a infância e a sua inutilidade
num mundo de homens,
humanos irrevogáveis, que deambulam
os rostos e os braços contra as montras —
carregam nos dedos cigarros antigos,
queimam a memória, clamam
pelos círculos cheios de inteligência,
os que definem os movimentos
esquizofrénicos dos cães vadios-baldios,
cães e cadelas que atravessam
as passadeiras como se fossem homens.
Resta-me a inutilidade da terra nas mãos
e o ácido desoxirribonucleico
que herdei de um animal ferido,
gerado pelo sol e pelo logro da orfandade.


