Está um pássaro no beiral da janela. Vejo da porta que dá para o interior do balcão deste bar noturno. Daqui, parece enorme. Negro, certamente, de bico pontiagudo. Deslumbra o cais e parte do rio Tejo, que aparece entre prédios. Não sente vertigens pela altitude em que nos encontramos, sexto andar para as traseiras.
Pego no copo de whisky de que me servi assim que entrei. O pôr-do- sol vislumbra-se em tons dourados, por cima dos telhados. Sei que me vê, pelo alcance natural da sua constituição de pássaro.
Aproximo-me devagar, sem fazer barulho. Um esgar de olhos na minha direção. Levanta a poupa da cabeça, mas deixa-se ficar de costas para mim.
Paro a meio caminho e dou um golo no copo de vidro que guardo para mim, escondido na prateleira por baixo do balcão. Este é só meu. É especial.
Continuo a minha passada singela até me aproximar do parapeito da janela, já bem perto dele. Um corvo, quem diria.
— Que fazes aqui? — perguntei, sem olhar na sua direção.
Pelo olhar periférico, também o distingo. Sei que iniciou um contacto qualquer apenas pela intensidade dos seus olhos. E, por momentos, ambos ficamos a fitar o horizonte, assistindo ao anoitecer determinado.
Lá atrás, chamaram o meu nome, no momento em que levei de novo o copo à boca. Com o susto, umas gotas saltaram, deleitando-se nas penas finas, negras com aquele brilho azulado que precede a noite.
O meu novo amigo ressentiu-se e dali voou para parte incerta.
Um momento só nosso, interrompido. Ainda penso se entendeu a minha retórica de pensamentos. Falei da noite que me espera; do amor por quem se afasta cada vez mais de mim; da música alta, que em pouco tempo seria audível pela janela; das putas, dos proxenetas e gays de maquilhagens perversas e desbotadas pelo suor da noite, que em breve entrariam no nosso bar; e da porrada enovos tiros e sirenes de carros de polícia que ouviríamos já de madrugada, ali mesmo por baixo, na Rua da Rosa, em frente às portas dos bares que ambos vislumbramos, enquanto conversamos neste mesmo parapeito.
Ainda senti parte da sua asa na minha pele, como se insistisse em deixar a marca do seu ser em mim. Um aviso discreto. Sim, eu entendi. Entendi pela minha sombra no seu olhar e pelo tom azulado que o seu negrume se diluiu, já de asas abertas pelo céu do Cais do Sodré.
Tu, certamente, vais pensar que foi uma conversa inútil; já eu penso de outra forma.
É no que o mundo chama de inútil que reside o que ainda o sustenta — o olhar, o pressentimento, o gesto sem proveito. A verdadeira utilidade é essa: permanecer desperto quando todos dormem. O pássaro tem a sua sabedoria anciã. A sua palavra, os seus sinais, a sua herança, os seus dizeres, uma energia muito própria de contacto e, em alguns, os sinais de aviso, de caça, de ADN.
Este meu novo amigo é conhecedor do mundo — diria mesmo, do universo. Corvos são energia enigmática. Conversadores natos. Sabedores de segredos.
Aos demais, parece um ser inútil, mas, para os sábios, bruxos e curandeiros, é o seu amigo de estimação. Aquele que permanece engaiolado no coração e a quem se entregam as chaves noturnas, por precaução. Por defesa, pelo espírito enigmático e por aviso. Aquele que nos desperta. O que anuncia um perigo iminente, uma desconfiança ou um evento qualquer por desconexão. Útil, portanto.
-me ao balcão. Bicas e italianas precisam de ser servidas aos primeiros clientes deste final de tarde.
As putas, sentadas nas mesas, guardam a malha que tecia gorros e vestes para os netos. Todas, menos uma.
Senta-se sempre na mesma mesa e na mesma cadeira, de frente para a passagem do extenso bar, bem encostada à parede amarelada pelas longas fumaças que os demais não se inibem em expirar pela noite fora.
Ali, todas as tardes em que o bar abre, lê revistas ou tece coisas sem nexo em cores de restos de lãs, que lhe são oferecidas pela loja dos lavores lá em baixo, perto da esquina, à direita do cais.
Notei que hoje olhou muitas vezes para mim e que, num curto espaço de horas, me pediu pelo menos três italianas, que bebeu de um trago.
Desta vez sorri, e convida-me a sentar junto a ela por um momento, enquanto ainda há tempo, antes de a noite cair por inteiro lá fora e o seu horário de trabalho iniciar.
Não questiono, apenas me sento com a curiosidade de uma jovem nas mãos da puta mais velha da casa, que comedidamente se deixa abraçar pelas piadas de todos e pelo carinho que as palavras trazem perante si.
Talvez pela sua idade, e também pela sua compostura de excelência, que nunca vi abandonar.
— Desculpa se me intrometo, mas és tão jovem e bonita. A segunda senhora da casa — disse, com olhar ternurento e sorriso sincero nos lábios. E continuou:
— A verdade é que já és namorada do Rui há bastante tempo, e quero que saibas que todas te respeitamos.
Limito-me a sorrir e a agradecer com a cabeça.
Um homem corpulento, de calças e blusão de ganga, rosto redondo e sobrancelhas unidas, entra na sala. Olha em volta, imaginando eu, à procura de uma mesa para uma cerveja de final de tarde ou à procura de alguém. Fica ainda alguns momentos em pé, até que, murcha um pouco o corpo e numa tentativa de arrastar os pés, vem até mim, dobrando-se até os seus lábios encontrarem o meu ouvido.
Inclino ligeiramente a cabeça, de forma a ouvir o que me dizia, mas sem conclusão.
— Desculpe, mas não entendi.
Ele, que está hirto, embora com olhar de menino perdido, volta a dobrar-se sobre mim, para de novo repetir as suas palavras, as quais, desafortunadamente, volto a não conseguir entender.
Notoriamente frustrado, remexe os punhos, apertando-os até os nós dos dedos ficarem rosados. É a derradeira tentativa. Uma terceira vez, estimulada por algum fator que eu não entendo.
No mesmo momento, vejo a mulher sentada à minha frente abrir muito os olhos e desatar numa gritaria que me assusta e confunde.
Dou por ele a sair porta fora com a rapidez de um rato. Afinal de contas, só queria saber quanto é que eu levo pela hora.
As putas que ainda restam no local discutem entre si, com calúnias e zanga natural de mãe ou avó, na defesa da menina, que é, afinal, a dona da casa, nada tendo a ver com uma das profissões mais velhas do mundo — a delas.
Confesso que me sinto lisonjeada. Não é todos os dias que se assiste a algo assim. Acabamos por dar umas boas gargalhadas, antes de saírem para a já noite escura lá fora.
Com a saída delas, entram pela porta, com grande euforia, os pseudo-travestis, plumas ao pescoço, olhos carregados de lápis azul, pestanas falsas e batom rosa. Até acho sublime para a noite que nos espera, com Super Bock sempre a sair pela boca do balão em direção às mesas lambuzadas com o açúcar misturado na cevada. Uma algazarra.
Em breve, toca na pequena aparelhagem “Ponho água fresca numa jarra, dentro do meu quarto e junto à cama, se alguém te perguntar de quem são, responde que elas são de quem te ama.”
E com a música começa o choro de tantos que se encontram pela sala. Caras esborratadas de azul e preto. Abraços apertados e danças folclóricas. Os gritos ouvem-se lá fora, seis andares antes do chão.
Olho à minha volta com o olhar noturno de um corvo sedento por apanhar alguém em falta. Um roubo, um estalo, um grito ou um mero apalpão mal dado. Inútil. Amanhã vão repetir o mesmo choro, as mesmas gargalhadas, os mesmos apalpões e as mesmas putas, proxenetas e paneleiros na sala. Nunca nada muda. Só as histórias da rua, que mesmo assim se mantêm inigualáveis em noites constantes. Ora hoje, ora amanhã.
São duas da manhã, e a sala mantém-se ao rubro. Já nem consigo aceitar que me ofereçam flores. Acompanho a noite com um whisky na mão — ou dois, ou três — até que os joelhos se dobrem sem pedir licença. Que desperdício. Tantas vidas, tantos mestres — é o que me passa pela cabeça de quando em vez.
Aos poucos, soltam as amarras deste local mais barato para se distribuírem pelos bares com música alta, a fingirem-se de discotecas prontas para receber marinheiros que outros ventos trazem além-mar. Chegam de boinas brancas e papo azul. Inundam o espaço, aproveitando-se das nossas pessoas, com o errado pensamento de que somos de borla. Relembro o dia em que o porta-aviões americano atracou em Belém. Um corrupio de miúdas giras em cada esquina por toda a baixa da cidade, já de mãos dadas e beijos lânguidos às fardas brancas, que sabiam de antemão que nunca mais veriam. Mas nós somos assim — um povo que não teme jogar a sorte nas mãos do além.
Da janela, ouve-se o reggae sempre que a porta do Jamaica deixa entrar mais uma trupe de ganzados. O costume. A moda da voz do morto Jim Morrison, dos Doors, com Light My Fire a sair pelas colunas gritantes. É inconfundível — mas quem não gosta?
Estão todos lá em baixo. Ouvem-se gritos, enquanto passos em corrida aumentam na rua adjacente aos bares. Corro para a janela aberta de par em par, debruçando-me na intenção de ver o que se passa.
A rapariga grita enquanto é empurrada contra a porta fechada do prédio à nossa frente.
Vejo a mão dele nas costas dela enquanto esborracha a cara da miúda contra a madeira envelhecida pelo tempo. Com a outra mão, rasga as vestes por debaixo do vestido, enquanto a penetra com brusquidão. Mesmo do sexto andar, consigo entender a saliva que ela cospe de raiva.
Ele termina de forma abrutalhada, largando-a para abotoar a braguilha. A gritaria voltou ao eco da noite, entre palavras como: “cabrão” e “filho da puta”.
A cena repete-se — desta vez é ela a correr atrás dele, numa tentativa de socos no ar, enquanto ele foge à sua frente.
Há uma ordem secreta nas coisas que o mundo descarta.
Pensei no meu amigo esvoaçante.
Deve estar no topo de um qualquer telhado, a assistir a toda esta inutilidade dentro de tantas vidas úteis que por aqui passam.


