Autor(a):

alexandra ferreira
Alexandra Ferreira
Per ficta resistire

O colecionador de nadas

Chamavam-lhe o Velho das Coisas. Vivia numa casa térrea perto do mar, numa cidade da Costa de Prata onde o vento colava sal às janelas. Todas as manhãs descia a rua devagar, com um saco de pano cru ao ombro. Entretinha-se a recolher o que o mundo deixava cair: botões soltos, fitas desbotadas, tampas de frascos, papéis, pedras lisas polidas pela água. «Coisas sem valor», diziam. «Histórias», dizia ele.

No bairro, reconheciam-no pela postura inclinada e pela lentidão. Enquanto as crianças corriam, ele parecia calcular a distância entre as pedras com pequenos passos. Elas apontavam para o saco, transbordantes de curiosidade, e perguntavam:

— O que trazes aí hoje? Já está cheio?

Sorria benevolente ao responder:

— Tesouros que ninguém quer. Cabe sempre mais um niquinho.

— Qualquer dia o saco rebenta — zoavam.

Naquele dia de abril, pouco depois das onze, a luz apagou-se como se alguém tivesse desligado o contador. Os frigoríficos calaram-se, os semáforos ficaram cegos, as lojas suspenderam a respiração. Houve um murmúrio coletivo, um espanto breve, e depois um gesto antigo: as pessoas saíram para a rua. Perguntavam se acontecia só na sua casa. Depois percebiam que era em todas.

As crianças regressaram da escola. Sem televisão, sem internet, foram as primeiras a adaptar-se e encheram a rua como pássaros libertos de gaiolas. Os adultos, sem saber o que fazer, foram ficando também. Encostaram-se aos muros, aos carros, aos portões, e entreolharam-se como quem se vê pela primeira vez, depois de anos a habitar na mesma rua.

O Velho das Coisas aproximou-se devagar e as crianças correram logo para ele, pois sabiam que dentro daquele saco moravam objetos estranhos.

— Tens algum brinquedo? — perguntou o Tomás.

— Brinquedos, não sei — respondeu o velho —, mas tenho possibilidades.

Sentou-se no banco de pedra e abriu o saco como quem abre uma arca vitoriana. Retirou uma tampa de frasco, um fósforo e um botão azul. Enfiou o fósforo num pequeno furo na tampa e equilibrou o botão por cima.

O pião rodou, cambaleante, e as crianças riram. Os adultos sorriram sem querer.

— É um pião torto. Os tortos são mais interessantes.

Depois vieram os berlindes improvisados com botões redondos, que deslizaram pela calçada como pequenos planetas. Com fitas antigas criou varinhas de arco-íris. De uma embalagem de cartão fez um par de orelhas de coelho para a Matilde, que passou o resto da manhã a saltar entre os arbustos.

Com as pedras lisas, desenhou um caminho no chão, sem destino, onde cada pedra era um sítio para pousar o pé e respirar. As crianças saltitaram de pedra em pedra e ensinaram os adultos a seguir aquele trilho misterioso. Houve quem tropeçasse nas primeiras tentativas. Houve quem recuperasse o riso da infância.

Contagiada pela animação, a dona Maria, do quiosque, trouxe uma caixa de giz e logo o alcatrão se encheu de peixes, casas, sóis, estrelas, e famílias de mãos dadas. Um dos desenhos era o próprio velho, com o saco ao ombro. O seu olhar ficou húmido de alegria.

Chegou a hora do almoço. As crianças continuavam a brincar, alheias à preocupação dos adultos, que se entreolhavam, novamente. Como aquecer a sopa ou requentar os restos do dia anterior, se a eletricidade ainda não voltara?

— Trouxe pão — anunciou o senhor Olavo, carregando um saco de papel. — Aposto que estão esfomeados.

— Vou a casa buscar o fiambre, antes que se estrague.

— Eu trago queijo.

— Tenho pacotes de batatas fritas.

— Posso trazer iogurtes.

— Alguém quer sumos?

Num instante, apareceram mantas estendidas sob a frondosa tília e o piquenique improvisado começou. Enquanto uns cortavam os pães, outros barravam a manteiga, e outros recheavam-nos com fiambre, queijo, salpicão, presunto, todos os condutos que encontraram em casa. Mãos estendidas para dar, mãos prontas para receber, palavras de agradecimento, pedidos de «Mais, por favor!»

As crianças riam, deliciadas com aquela aventura inesperada. Os adultos recordavam os verões da infância, quando os dias de praia eram interrompidos na hora de maior calor para dar lugar ao almoço na frescura do pinhal, mandado plantar, segundo diziam, por D. Dinis. Confidências trocadas com estranhos que agora pareciam velhos amigos.

O momento mais bonito veio quando o velho tirou do saco um pedaço de tubo e papéis coloridos. Com gestos lentos e meticulosos, montou um catavento. Quando soprou, um redemoinho multicolorido rodou no ar, hipnotizando os presentes. Havia qualquer coisa de sagrado naquele gesto simples: vento, papel e mãos.

Foi então que o bebé da Raquel começou a chorar. Cansada, abanava-o sem sucesso, numa súplica muda por paz. O velho aproximou-se e soprou o catavento devagar. As sombras dançaram no rosto pequeno e o choro derreteu-se como gelo ao sol. O olhar de Raquel iluminou-se de gratidão, sinal de uma bênção recebida.

— Isso é que é boa vida – atirou o pedreiro Francisco lá da beira da estrada. — Passa um homem a manhã a trabalhar para vir encontrar o bairro na vida airada.

— Junta-te a nós. Ainda cabe mais um à mesa — troçou o senhor Miguel da drogaria.

De barriga cheia, as crianças começaram a manifestar alguma agitação.

O velho remexeu o saco e tirou um paninho de linho bordado.

— Quem quer jogar ao lencinho?

— O que é isso? – questionou a Sarita, olhos redondos de espanto.

Em menos tempo do que leva a contar, os pais formaram duas equipas. Os adolescentes afastaram-se, desdenhosos, como se se recusassem a testemunhar uma tamanha infantilidade com miúdos e graúdos. Mas a resistência foi de curta duração, e logo se tornaram parte de momentos hilariantes em que o peso da idade se esfumou.

Enquanto isso, o velho foi apanhar pauzinhos. Do fundo do saco surgiu uma bobina de fio de nylon e um saquinho de anzóis. Quando o grupo começou a dar sinais de cansaço, o velho chamou-os para a margem do rio. Era hora da pesca. A água límpida corria mansamente e os peixes acinzentados ondulavam na corrente. Mordiscavam o pão como quem rói uma maçã para deixar apenas o caroço. Nem um se deixou engodar com aquela oferta envenenada. Mas isso não importava. Ali reinava o calor da entreajuda e a alegria estampada nos pequenos rostos corados eram o maior troféu.

A luz voltou pouco depois das oito, num estalar quase brusco. As casas reacenderam-se, os frigoríficos suspiraram de alívio, os semáforos voltaram a ver e ainda assim ninguém voltou para dentro. Havia qualquer coisa naquela rua que não podia ser desligada com um simples botão. A convivência tinha tomado o lugar da eletricidade.

— Já não precisamos disto — disse alguém, apontando para os brinquedos improvisados.

— Precisar, não — respondeu o velho. — Servem para lembrar.

Sentaram-se todos no passeio. As crianças continuaram a brincar, agora iluminadas pelos candeeiros da rua, mas com a mesma alegria da tarde. Os adultos ficaram a conversar como há anos não faziam. Houve quem falasse dos filhos, dos medos, dos sonhos antigos. Houve quem descobrisse afinidades inesperadas com o vizinho que antes só cumprimentava por obrigação.

Quando a noite caiu por completo, o velho levantou-se devagar. Despediu-se de cada criança com uma pequena coisa: uma fita a fazer de pulseira, uma pedra, um botão, uma tampa transformada em medalha. Os miúdos receberam tudo como quem recebe um talismã.

— Se um dia precisarem, olhem para o que têm.O inútil é só aquilo que ainda não tem o vosso olhar.

No dia seguinte, a Matilde guardou as orelhas de coelho para usar na Páscoa. O Tomás levou o pião torto para a escola. E, ao fim da tarde, alguém fez um catavento só para o ver dançar no vento.

Desde então, o bairro sabe: às vezes, basta um velho e um saco de nadas para que um lugar inteiro volte a ser casa.

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AUTOR(A)
alexandra ferreira
Alexandra Ferreira

Alexandra Ferreira, natural de Coimbra, reside em Leiria.

Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Franceses e Ingleses, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Além de se dedicar ao ensino, é também dirigente espiritual de um terreiro de Umbanda e presidente de uma associação de solidariedade social.

No âmbito da sua paixão pela escrita e pela comunicação, integra coletivos femininos literários do Mulherio das Letras, a comunidade de Nardele Gomes, a comunidade de WRITERS de Analita Alves dos Santos e o Clube de Leitura «Encontros Literários O Prazer da Escrita». Participou em várias coletâneas promovidas pela In-Finita e na antologia «Cantamos Todas Nós». É autora do livro Rumo ao Topo – É lá que nos vamos encontrar (2022).

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