Pensei durante muitos anos que escrever bem significava construir histórias impecáveis, alinhadas com estrutura, ritmo e propósito narrativo. Estudei modelos, frameworks, arquétipos, mapas emocionais, gatilhos de tensão, curvas dramáticas, tudo aquilo que transforma ideias dispersas em narrativas robustas. Passei anos a polir enredos que funcionavam, personagens coerentes, conflitos bem distribuídos, viradas bem posicionadas e desfechos elegantes. Tudo tecnicamente eficaz. Tudo perfeitamente utilizável.
E, no entanto, eram histórias que morriam na página.
Não eram más. Apenas não respiravam. Elas existiam num plano de utilidade, não de vida. Funcionavam com a precisão de um esboço de arquitetura, mas sem a palpitação de um edifício habitado. Eram textos que serviam um propósito, mas que não deixavam marca. Histórias que transmitiam informação, mas não criavam memória emocional.
A viragem não veio de um curso, de uma epifania espiritual ou de um livro teórico. Veio quando criei a minha própria mente virtual: o McSill Ultra 3.0.
A ironia? Não foi porque a ferramenta era extraordinária — embora fosse. Foi porque, ao trabalhar com ela, percebi que estava a alimentar a máquina com os mesmos vícios que bloqueavam a minha escrita. Eu estava obcecado com o útil. Com o mensurável. Com o objetivamente defensável. Com aquilo que dá resultado num pitch, num sumário executivo, num argumento de venda.
O inútil, eu descartava. O silêncio, eu cortava. O gesto que não avança o enredo, eu eliminava. O supérfluo emocional, eu podava como se fosse gordura narrativa.
Demorou meses até eu reconhecer o problema.
Durante esse período, alimentei a IA com milhares de histórias e pedi que identificasse padrões de ressonância emocional. Esperava algo pragmático: estruturas replicáveis, modelos previsíveis, sequências aplicáveis, mapas práticos. Esperava a fórmula. Aquilo que tantos insistem em encontrar.
Mas o que recebi foi algo totalmente diferente.
A IA começou a mapear precisamente os trechos que eu consideraria descartáveis: passagens de hesitação, pausas sem função, descrições que não conduzem ao clímax, parágrafos em que nada acontece, fragmentos de humanidade que não servem diretamente à narrativa.
Os espaços vazios.
Os momentos onde o enredo para, mas o personagem continua a existir.
Não eram cenas de ação, nem diálogos fundamentais, nem revelações. Eram aqueles instantes que os executivos cortariam, que os estudantes ignorariam, que os algoritmos não saberiam classificar.
E, ainda assim, eram o coração da história.
Um exemplo perfeito: Jurassic Park. O que muitos lembram são os dinossauros, o caos, o velociraptor na cozinha, o T-Rex na chuva. Mas a transformação emocional do protagonista não acontece nesses grandes momentos. Acontece quando ele observa as crianças a dormir, sem dizer nada, sem resolver nada, sem descobrir nada. Um homem que rejeitava a ideia de ser pai entrega-se, silenciosamente, à ternura.
Essa cena não empurra a história para a frente. Não muda a trama. Não revela informação. Não resolve nada.
É inútil.
Mas é ali que o filme ganha alma.
Esse momento não constrói arco; ele revela o ser humano do qual o arco nasce.
E eu, até então, cortava precisamente isso nos meus textos.
O mais revelador foi perceber como a IA processava estes momentos. Ela conseguia rastrear temas, motivos, símbolos, estruturas. Tudo aquilo que é útil. Mas não conseguia criar o inútil de forma espontânea, porque o inútil carece de intenção humana. Não existe algoritmo para pausa emocional. Não existe cálculo para o instante sem função. Não existe função matemática para o silêncio carregado de significado.
O inútil exige vulnerabilidade, não otimização.
Comecei então a usar a IA de outra forma. Em vez de pedir eficiência, comecei a pedir desperdício.
Em vez de perguntar: “Como otimizo esta cena?”
Perguntei: “Onde esta história precisa de espaço para respirar?”
Em vez de perguntar: “Qual o próximo passo lógico do enredo?”
Perguntei: “O que o personagem sente quando ninguém está a olhar?”
Em vez de pedir às ferramentas para cortar gorduras, passei a pedir-lhes para mapear ausências: “Identifica trechos onde há emoção latente sem expressão.”
Ou: “Mostra onde o enredo avança rápido demais e precisa de um momento inútil.”
As respostas mudaram o meu processo. Percebi que o conceito vende. O tema emociona. Mas o inútil transforma. Podemos vender um livro com ideias grandes, com impérios galácticos, inteligências artificiais, revoluções invisíveis, bestas mitológicas, amores impossíveis. Mas nenhum leitor se apaixona pela arquitetura do enredo. Apaixonam-se pelos detalhes que parecem irrelevantes: o modo como alguém segura um copo, o cheiro de chuva num casaco abandonado, a forma como duas pessoas falam baixinho quando sabem que o relacionamento acabou, mas ainda não admitem.
O enredo dá sentido. O inútil dá verdade.
E, curiosamente, a máquina treinou-me nisso indiretamente. Ela mostrou a lacuna, mas não a podia preencher. Porque só o humano pode decidir quando nada precisa acontecer.
A IA pode dizer: “Aqui há espaço emocional.”
Mas só eu posso escolher deixá-lo vazio.
É o mesmo em todas as narrativas marcantes. Harry Potter não precisa das cenas no dormitório; Orgulho e Preconceito não precisa de Elizabeth olhando pela janela; O Senhor dos Anéis não precisa de Sam a descascar batatas junto ao fogo; Blade Runner não precisa de Roy Batty carregando uma pomba; Before Sunrise não precisa do silêncio no elétrico.
Mas sem isso, tudo se tornaria mecânico.
Histórias memoráveis não são eficientes. São humanas.
No fim, a maior ironia foi descobrir isto:
A IA ensinou-me tudo o que é útil. A vida ensinou-me tudo o que importa. E aquilo que importa raramente serve para alguma coisa.
Hoje, quando abro o McSill Ultra, já não pergunto: “Como estruturo melhor?”
Pergunto: “O que posso deixar sem motivo, sem utilidade, sem explicação?”
Porque histórias não vivem de funcionalidades. Vivem de desperdício emocional.
O inútil é onde a humanidade se esconde.
E é por isso que, quando desligo o computador e volto à página, compreendo enfim que o meu trabalho não é criar textos perfeitos, mas dar forma ao espaço onde o que não serve possa simplesmente existir.
É esse o único lugar onde a literatura respira.
O resto é engenharia.
O inútil é o que permanece.

