Era uma vez um lugar tão distante que, poucas pessoas o conheciam, especialmente porque apenas quem acreditava em fadas, gnomos, unicórnios e outros seres semelhantes conseguia lá entrar. Ficava num vale cercado de montanhas. Numa delas, tão alta que às vezes obscurecia o sol, repousava um vulcão, como um gigante num sono profundo.
As montanhas estavam cobertas de árvores de várias espécies, nos vales havia rios e riachos com água de uma limpidez que refletia o céu como um espelho, e revelava cada peixe que deslizava numa dança. Por toda a parte, havia casas que pareciam ter sido saídas de contos de fadas, e quem se via passar de um lado para outro tinha sempre um ar feliz.
Além das casas de vários tamanhos e feitios, para acomodar os seus habitantes — podem imaginar o tamanho da casa de um dragão, ou melhor, a de uma família de dragões! — havia uma cabana muito especial para todos: a cabana do mago protetor da floresta, o Mago Nerimbo. Fadas, dragões, elfos, fosse quem fosse, todos o conheciam e passavam por lá quando precisavam de alguma coisa. Era uma espécie de loja e o mago sempre, quer dizer, quase sempre, satisfazia os pedidos de todos. Não fosse ele mágico!
Nesse lindo vale cercado de montanhas, vivia uma família de dragões muito orgulhosa. Cada dragão treinava desde pequeno para cuspir labaredas gigantes e de várias cores. Era uma tradição de família, e o pai dragão tinha o troféu do dragão com o fogo mais colorido.
Os pais dragões adoravam os seus filhotes, Draco, Nektar e Serafina, mas preocupavam-se com Draco, pois, por mais que treinasse, em vez de fogo, o que saía da sua boca era …um sopro frio! Um vento tão gelado que apagava as fogueiras dos irmãos. Embora os pais não parassem de dizer que o amavam, mesmo que não cuspisse fogo, os outros dragões zombavam dele, e não era raro ouvir dizer:
— Onde é que já se viu um dragão que não cospe fogo? Que coisa mais estranha!
Seguiam-se risos, e alguns até o perseguiam com as próprias chamas.
Com isso, Draco ficava triste e só queria esconder-se. Refugiava-se nas nuvens, onde podia soltar em segredo os seus sopros frios. Claro que, quando chovia e todos achavam que nunca mais parava, logo culpavam Draco. Essa era uma das razões que levavam o dragãozinho a passar mais tempo com o seu amigo Nerimbo, que lhe fizera a magia de o tornar de um tamanho mais pequeno, cada vez que ele quisesse entrar na cabana.
— Nerimbo, por favor, não podes fazer uma magia para que eu consiga cuspir fogo? — pedia Draco vezes sem conta.
— Querido Draco, não adianta. Já sabes que aqui todos podem encontrar o que realmente lhes faz falta. Mas não posso, nem devo, alterar o dom que te foi dado. Só não descobriste ainda a sua utilidade. Sê paciente. A inutilidade aos olhos de uns pode ser um tesouro para outros.
Os dias passavam e Draco não via mudanças. Até que ouviu falar dos pinguins na Antártida. Esses sim, adoravam gelo. Tinha a certeza de que seria feliz lá. Não sabia bem onde ficava esse lugar, mas contava com a ajuda do seu amigo Nerimbo. Não foi fácil convencê-lo, contudo chegou o dia pelo qual Draco tanto ansiava.
— Não sei se faço bem em ajudar-te, mas tens tudo de que precisas. Voa até à montanha mais alta que fica à esquerda do vulcão. Lá encontrarás o portal de saída desta terra. Bate as asas três vezes para passares ao mundo dos humanos e voa em direção ao sul. Descansa pelo caminho. Segundo os meus cálculos, dentro de três dias estarás na Antártida.
— Obrigada, Nerimbo. Nunca te esquecerei — respondeu Draco, com lágrimas que mais se assemelhavam a pingos de gelo a escorrerem- -lhe pela cara. Sem conseguir olhar para o amigo, afastou-se com o coração apertado.
Estava quase a chegar ao portal, quando o céu começou a tremer.
Será que fiz alguma coisa de errado?, questionou-se Draco. Não teve sequer tempo de pensar em mais nada, pois logo reparou que a montanha maior começou a cuspir lava e fumaça!
Será possível? Dizem que há mais de cem anos que o vulcão está adormecido!, pensou Draco, num sufoco.
O vulcão continuava a explodir. As chamas aumentavam, o calor crescia e a lava escorria pelo vale. Os rios começaram a secar e o ar estava a ficar sufocante. Havia um enorme alvoroço e todos corriam em direção à cabana do mago, em busca de alguma solução mágica. Mas este só lhes soube dizer:
— Acho que o único que nos poderia salvar é o Draco. Mas ele partiu para a Antártida, muito triste! Já deve estar a caminho.
— Para a Antártida? Onde fica, vamos lá buscá-lo, disse uma das fadas.
— Vamos nós. Somos mais rápidos — disse um dos dragões. — E foi nossa culpa!
— Não adianta — respondeu Nerimbo. É muito complicado e não há tempo! Ele já deve ter passado o portal…
Sem querer ouvir mais, um grupo de dragões voou até ao vulcão, tentando ajudar. Cuspiam fogo, mas isso só piorava tudo.
Foi então que Draco, com o coração aos pulos, mas resoluto, pensou no que o mago sempre lhe dizia: “Sê paciente. A inutilidade aos olhos de uns pode ser um tesouro para outros.” Não hesitou mais. Não podia ficar parado.
Sem que os outros dragões percebessem, voou até ao topo do vulcão, abriu as asas e soprou com toda a força que conseguiu:
— Fuuuuuuuushhhh! Fuuuuuuuushhhh! Fuuuuuuuushhhh!
Fez um vento tão frio que tudo começou a cobrir-se de gelo. A lava que descia foi esfriando e endureceu, até parar completamente. E o vulcão voltou a adormecer, coberto por uma fina camada de gelo brilhante.
Todos os outros dragões ficaram espantados, até que o mais velho disse:
— Viva o Draco! Foi ele quem salvou o vale e nos salvou a todos!
Pela primeira vez, Draco sorriu, orgulhoso do seu sopro gelado. Não seria mais preciso esconder-se.
Quando regressou ao vale, todos o aplaudiram. E nomearam-no guardião do vulcão e do gelo.
Desde então, nunca mais ninguém se riu dele. Quando os verões eram demasiado quentes, chamavam Draco para refrescar o ar. Quando havia um incêndio fora de controle, ele era o primeiro a chegar. E assim, o dragão que se sentia inútil descobriu que o seu sopro frio era, na verdade, um dom precioso.
— Tinhas razão, Nerimbo — disse Draco numa das suas visitas ao mago —, não devemos alterar os dons que nos foram dados. No fim de contas, o mundo precisa tanto de fogo quanto de gelo!
— É isso mesmo, querido amigo! Todos são preciosos, à sua maneira.


