Autor(a):

Ana F. Pinheiro
Per ficta resistire

O jardim do Elias

Diziam que Elias tinha enlouquecido.

Que passava os dias a conversar com coisas mortas – uma chávena sem asa, uma pena sem tinta, um relógio parado nas quinze horas e trinta e quatro minutos, um porta-moedas sem fecho, um botão perdido e tantos outros.

No quintal da sua casa, entre ervas e silêncios, não havia flores, nem árvores, nem sombras frescas. Apenas restos. Fragmentos de um tempo que não voltava. Objetos que a pressa do mundo abandonou, e que ele, por teimosia, havia plantado para os salvar do esquecimento. Apelidou-o de jardim dos inúteis.

 

Num pequeno vilarejo esquecido entre montanhas, Elias, um professor de filosofia aposentado, passava os dias a cuidar do seu jardim peculiar.

No jardim, não havia flores que perfumassem o ar, nem frutos que servissem de alimento. Apenas objetos que o tempo deixara para trás, cuidadosamente enterrados, como se fossem flores, pela mão paciente de Elias. Regava-os com a mesma delicadeza com que se rega uma planta viva, falava-lhes e, não raras vezes, parecia ouvir-lhes resposta, que só ele compreendia.

Os poucos habitantes do lugar achavam-no estranho. Sinistro até. Muitos diziam que fazia bruxarias com objetos. As velhas benziam-se quando passavam à sua porta, a caminho da igreja. Muitas vezes ouvia-as dizer: “Pobrezinho, a idade e a solidão levaram-lhe o juízo”.

Elias sorria, como quem guarda um segredo que o mundo não é capaz de entender. E continuava a sua empreitada pelo jardim – regar, limpar o pó e conversar com as coisas.

— Dizem que o inútil é o contrário do necessário. Mas o que é o necessário? – perguntava, incessante, Elias, enquanto afagava a chávena sem asa, sentindo o frio da porcelana, como quem toca o pulso da memória, quebrada, inútil, e ainda assim, mais viva do que ele próprio.

 

Há umas semanas que Elias notava movimento na casa ao lado. Uma nova família, e a parafernália de sacos, sacolas, malas, maletas e vários camiões de mudanças, cruzava o ar. Todos os dias chegavam coisas novas. Até que, uma noite, o burburinho cessou e apenas uma carrinha familiar ficou parada na entrada.

Uns dias mais tarde, começou a reparar nele. Pequeno, franzino, olhar fixo no horizonte. Nas mãos, um pequeno objeto escuro, que não reconheceu. O rapaz, agora seu vizinho, passava as tardes debaixo do grande carvalho da entrada.

Ao início, o garoto parecia não retribuir. Elias sorria-lhe. Numa das tardes, reparou que o fitava, com a curiosidade limpa de quem sente o fascínio do desconhecido.

— Olá, eu sou o Elias — disse, enquanto se aproximou da cerca que dividia as propriedades. O rapaz baixou o olhar. — Não tenhas medo, sou só um pobre velho solitário.

O menino sorriu em silêncio.

Uma tarde, em que se afadigava de volta dos objetos, sentiu passos a aproximarem-se. Reconheceu-o assim que se voltou. Sorriu-lhe. Leu-lhe nos olhos a inocência com que falou:

— Senhor Elias, porque guardas coisas que já não servem para nada? — perguntou.

— Porque o que não serve é o que sobra do mundo depois do mundo acabar.

O rapaz não entendeu. Mas ficou. De olhos fitos naquele jardim, observou a dedicação que o velho votava a cada objeto.

— Como te chamas?

— João.

— Já ouviste falar de mim, não foi João?

— As pessoas dizem que a idade te levou o juízo.

— Quantos anos tens?

— Oito.

 

Ao longe, a voz de uma mulher soou, quase em desespero: — João, João, onde te meteste?

Ao ouvir a voz da mãe, fugiu assustado. Elias ainda conseguiu ouvir ao fundo: — Não quero que te dês com esse…

 

Mas João continuou a visitar o jardim de Elias. Trazia no olhar o espanto fresco de quem ainda não aprendeu a desprezar. Deliciava-se com as histórias do velho. Era impossível ficar indiferente. Quase um encantamento.

— Sabes, João, no meu jardim não há árvores nem flores. Há coisas. Objetos que perderam o nome. E, por isso, ganharam o silêncio.

— Porque os regas com tanta paciência?

— Rego-os com a paciência com que outros rezam, não para pedir, mas para escutar.

— O que têm eles para te dizer? Não são tudo coisas que já não servem?

— Talvez … — sussurra— talvez a utilidade seja apenas uma máscara que o mundo veste para esconder o medo de ser nada. As pessoas correm, produzem, prometem, exibem. No fundo, querem apenas não desaparecer. Desaparecer é inevitável, talvez seja mesmo uma bênção.

João insiste: — Mas porque os guardas, se não servem para nada?

— Porque o que não serve é o que sobra do mundo depois do mundo acabar.

Mais uma vez, João não entendeu. Todavia, encantado, voltou nos dias seguintes. Não sabia explicar, havia ali uma paz que não encontrava nas coisas úteis, aquelas que exigem, pesam, cobram e mandam. No inútil sentia algum descanso, o direito de existir sem propósito.

— Elias, eu gosto muito de ti. Tanto como gosto de ler.

O velho riu com gosto: — Ah, sim! E o que mais gostas de ler?

— Histórias misteriosas. Quanto mais mistério melhor. Talvez por isso também goste de ti.

Achas que sou misterioso?

— É o que toda a gente diz. Até têm medo de ti, sabias?

 

O professor sabia que o mundo o achava louco. Mas não era loucura recusar o ritmo das máquinas. Loucura era correr atrás do tempo como se ele fosse um cão a ser domado. Fitou os olhos nos objetos, depois de João, novamente, ter saído a correr quando a mãe o chamou.

O relógio parado nas quinze horas e trinta e quatro minutos, o único que saberia medir a eternidade.

A pena seca, que escreveria apenas o ar, no lugar onde as palavras se libertam da obrigação de significar.

A chávena partida, que guardaria o resto da mão que a ofereceu, mais inteiro do que qualquer asa de porcelana.

E tantos outros, cujos significados preservaria na sua história.

João demorou uns dias a regressar ao jardim. O especial jardineiro continuava, pacientemente, à sua espera.

— Senhor Elias — a voz infantil de João sobressaltou-o — é hoje que me vais dizer porque guardas coisas que não servem para nada? Este mistério está-me a fazer comichão…

Elias franziu a testa e encarou-o. Fez sinal para que o seguisse e ajoelhou-se junto a três dos objetos. Sem o fitar, falou num murmúrio:

— Esta chávena foi o último presente que a minha mulher me deu. Nunca mais consegui beber nela, mas é ela que me mata a sede da lembrança.

Em seguida, apontou para o relógio parado: — Marcou a hora em que o meu pai partiu. Tinha eu a tua idade. Desde então, deixou de contar o tempo, mas é ele que me lembra de o viver. Talvez seja isto a eternidade, mais um minuto em que nos recusamos a morrer.

Por fim, mostrou-lhe a pena seca: — Com ela escrevi o que já esqueci. E ainda assim, é a única lembrança de quem fui. Agora posso escrever no ar, — fazendo o gesto elucidativo — no lugar onde as palavras são livres.

O menino ouviu tudo em silêncio, como se o mundo tivesse parado naquele instante suspenso entre o pó e a ternura.

Voltou a visitá-lo todos os dias e, aos poucos, aprendeu também a regar e cuidar das coisas mortas.

 

Quando a doença chega, não vem como inimiga.

Chega como uma brisa que apaga as velas.

 

Elias sentiu-a e aceitou-a sem medo, não como desistência, mas como quem finalmente se reconhece matéria entre matérias, pó entre pós, coisa entre coisas.

O tempo, esse velho operário do esquecimento, continuou o seu ofício e, um dia, o homem não se levantou mais, adormecendo no seu último sono, qual botão esquecido numa velha gaveta.

A aldeia respirou o alívio das rotinas que voltariam a ser normais. Falavam em limpar o terreno, deitar fora as velharias, plantar flores de verdade, uma vez que não havia herdeiros conhecidos.

João, quase a completar dezoito anos, não deixou.

— Não toquem em nada. Este jardim agora é meu. Elias deixou-mo em testamento, e ensinou-me que até o que não serve tem o seu lugar no mundo.

Cuidou do jardim, não por piedade, mas por fé. Ergeu uma placa na entrada, onde em letras manuscritas se podia ler: “Aqui floresce o que não serve para nada, e, por isso, serve para tudo”.

Ao entardecer, quando o vento soprava entre os objetos, um leve tiquetaque atravessava o ar, como um relógio que voltava a bater. Mas não vinha do relógio, era o som de tudo o que o tempo já esqueceu, continuando, de algum modo, a existir. Do coração antigo das coisas. Do modo como sobrevivem, mesmo quando o mundo insiste em chamá-las de inúteis.

E nesse tiquetaque – quase como um suspiro – o universo, cansado de ser útil, encontrava, por fim, repouso.

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AUTOR(A)
Ana F. Pinheiro

Ana F. Pinheiro, nasceu em 1985, em Almancil, Loulé. Casada, mãe de dois rapazes, licenciou-se em Educação Social; atualmente exerce funções de Coordenadora Técnica de respostas sociais numa IPSS e formadora.

Apaixonada pela leitura, descobriu o prazer da escrita com a participação no Concurso de Escrita Criativa Poeta António Aleixo. Permitiu-se soltar as suas palavras, participando como autora de um conto na coletânea “Não Vão os Lobos Voltar”, na Revista literária PALAVRAR – Ler e Escrever é resistir, em outras revistas e concursos literários.

É autora da página no Instagram e Facebook Escrita à Mesa, onde faz pequenas partilhas, como textos, contos, crónicas e reflexões.

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