Era uma vez…perdão, era uma voz, como defende Afonso Cruz. Segundo o autor, todas as histórias deveriam começar pela segunda forma, porque quem as conta tem voz própria, muito sua, singular.
A minha voz não fazia barulho. Nasci mudo. As nuvens engoliram o som quando nasci. Não chorei. Aquelas formas brancas de água condensada choraram por mim numa chuva de inundar a vila. O amigo trovão apareceu no momento em que elas se beijaram e, assim, nasceu a voz dos céus, não a minha.
Mesmo na ausência das palavras, eu era um miúdo feliz. Brincava ao pião, saltava à corda com as meninas, jogava ao berlinde e às cartas nas tardes de verão, com os rapazes.
A esplanada do Ti’ Toino costumava estar cheia de gente a falar alegremente. Havia homens já embebidos no bagaço da garrafa que pendia de uma mão, enquanto a outra segurava as cartas. Atira um valete, corta a dama, ganha cinco pontos. Aprendia com eles, vendo-os na eufórica jogatana do “bate carta na mesa”, como jogava com as outras crianças, quando as havia.
Barulhenta e agitada, com vinho a saltar de mesa em mesa e bebidas gaseificadas com sabor a laranja, a taberna era a minha segunda casa. Ali, sentia-me bem, o barulho não saía de mim, nascia na boca dos outros.
Nem todos os homens agitavam a taberna e, além disso, havia horas mortas. Era assim que lhes chamava a Ti’ Berta, mulher do Ti’ Toino. Ela falava muito comigo e, embora não obtivesse resposta, a não ser um aceno de cabeça, continuava, como se houvesse um diálogo gostoso entre nós. Percebi o que “horas mortas” significava ao fim de uma semana. A taberna hibernava ao princípio da tarde. Todas as vozes grossas e efusivas dos homens evaporavam-se, porque eles não estavam ali. Estariam a trabalhar.
Como dizia, nem todos agitavam a taberna. Lá num canto, sentado numa cadeira invisível, vivia um senhor. Nunca tinha reparado nele, mas as “horas mortas” mostraram-mo, finalmente. Calvo, fino como um espeto, envergava sempre o mesmo fato cinzento. Engolido dentro da roupa elegante, por ser demasiado larga. Das mangas compridas, surgiam duas mãos esqueléticas, dedos longos e unhas limpas. O homem era um armário, estanque, imóvel. Porém, as mãos chamaram a minha atenção. Pousadas sobre os joelhos, com os dedos enlaçados, como se uma mão se desse à outra. Os polegares, os únicos irrequietos, brincavam um com o outro, em movimentos circulares. Tal como uma roldana, um polegar rodava sobre o outro e vice-versa, ininterruptamente. Vivia naquela cadeira noite e dia, enquanto a taberna estivesse aberta. O olhar, fixo nas duas mãos longilíneas, era intrigante e o fulano, desconcertante.
Confesso que andei semanas a pensar naquilo. Não era normal. Teria o senhor algum problema na cabeça? Seria louco? Não tinha como perguntar. O trovão tinha tomado a minha voz à nascença e eu seria para sempre “o mudo”. Sim, é verdade, tinha a minha forma de comunicar. Uma forma gestual rudimentar. Na maior parte das vezes, funcionava. Porém, não era somente a falta de som da minha garganta que me impedia de interpelar o velho homem. Talvez tivesse receio por ele ser tão estranho e taciturno.
Tornei a ir à taberna quantas vezes me apeteceu. «Huguinho, andas sempre ali metido. Vai para a rua. Vai brincar com os outros meninos». Dizia-me a minha mãe, com doçura maternal e preocupação nas entrelinhas. Não me convenceu. Transformei-me num cliente assíduo e arranjava sempre uns tostões, quanto mais não fosse para uma pastilha elástica, para poder sentar-me a ver o careca. Mas a coragem, metia-a num saco. No mesmo saco onde levava o meu primeiro baralho de cartas, comprado com o dinheiro que ganhei a engraxar sapatos com o meu pai. Lá ficava ela metida, tímida, acanhada, mas irrequieta. O saco parecia saltar sob a minha mão, que nele pousava.
Descobri o motivo: com a coragem veio a sua irmã mais nova, a curiosidade. A mais nova espicaçava a mais velha para esta ir falar com o careca. Era tão insistente e mexerica, que naquela sexta-feira acabou por convencê-la. Abeirei-me do velhote. Naquele início de tarde, os polegares estavam frenéticos. Sentei-me na mesa ao lado e observei-o de soslaio. Não reparou em mim ou, se me viu, ignorou-me. De repente, a minha sacola parou de se mexer por si mesma. Espreitei para dentro dela. Vi que a timidez tinha mandado calar a curiosidade, que, por sua vez, deixou de atazanar o juízo da coragem. Vim-me embora de mãos a abanar, a minha tentativa foi debalde.
Na vila morava o Sr. Isaltino. Tinha noventa e um anos, estava perfeitamente lúcido e vivia sozinho. Chamavam-lhe sábio porque, além de saber de todas as coisas, era curandeiro, endireita e vidente. Tive a brilhante ideia de lhe perguntar sobre o careca. Talvez ele, que tinha tantos anos quantos os da igreja da vila, soubesse explicar o bizarro comportamento daquele velho da tasca.
Subi o escadório íngreme, de degraus tão imperfeitos quanto escorregadios, que dava até ao cume da colina onde ficava a minha vila. Era lá que o senhor Isaltino morava. Surgiu antes de eu bater à porta da pequena casa, modesta, feita de pedra. Trazia boina de xadrez virada ao lado, calças gastas pelo tempo, camisa aberta até a meio do peito e olhos embaciados por baixo de um par de óculos com lentes tão sujas quanto o chão de terra. Um bloco de notas por baixo do braço. Mostrei-lhe os dentes. Ele sorriu de volta.
«Ó rapaz, estava à tua espera».
Boquiaberto, fiz que sim com a cabeça. Tinha a capacidade de me surpreender sempre, apesar de ser um hábito ir ter com ele mensalmente e de já saber que adivinhava as coisas.
«O que te traz por cá?»
Ora essa! Se era adivinho, deveria saber o motivo da minha visita ou aquela pergunta seria retórica? Mandou-me sentar ali mesmo, no degrau da soleira da porta, onde o sol amigo nos beijava a pele com ternura. Ambos gostávamos de sol. Sentou-se, muito devagar, numa cadeira de verga, ao meu lado.
Já tinha entrado na casa dele. Não era uma casa. Era o caos in persona. Livros espalhados pelo chão da entrada, uns abertos, outros fechados e ainda outros amontoados; velas usadas, com o pavio negro, umas compridas, algumas curtas e outras apenas uns tocos; copos de vidro na mesa, nos parapeitos das janelas, no chão ao pé da lareira, uns vazios e outros meio cheios de um líquido qualquer; cinco espelhos fixados nas paredes, um de corpo inteiro, um feito em pedaços e os outros três perfilados na primeira parede, de frente para a porta de entrada; e quadros, todos os géneros de telas e pinturas, algumas de pintores conhecidos, outras nem por isso, mas quase todas desalinhadas do perfil do chão e do teto.
Não fiquei triste por não ter entrado. Ali, na parte de fora de casa, estava-se melhor.
Mesmo sendo adivinho, obrigou-me a escrever sobre o que eu queria saber. Entregou-me o bloco de notas e o lápis, que tirou da parte de cima da orelha, onde o tinha enfiado.
Escrevi: Quem é aquele careca que está na taberna do Ti’ Toino, sem fazer nada, num canto? Encolheu os ombros. Insisti: Porque é que ele está sempre a mexer assim os polegares? Perguntei, enquanto lhe mostrava o gesto circular dos polegares com os outros dedos enlaçados entre si. «É um néscio!» Respondeu, secamente. O que é um néscio? Perguntei, curioso. Encolheu os ombros.
Pela primeira vez, vinha de casa do senhor Isaltino, sem resposta. Ou melhor, resposta tive, mas não que me satisfizesse.
Como não sou de desistir, ao jantar, perguntei à minha mãe, com o auxílio da escrita, uma vez que desconhecia a palavra néscio e por isso, não conseguia convertê-la em gestos. A minha mãe só me respondeu com outra pergunta: «Néscio?» Ela também não sabia. Então falei-lhe no velho careca e nos hábitos obsessivo-compulsivos dos dois polegares.
Perguntei-lhe: Quem é ele?
«Ah, esse! Um inútil, meu filho, um perfeito inútil.»
Mas porque faz ele aquilo constantemente? escrevi.
A resposta foi curta e grossa: «Porque é um inútil, não trabalha como a gente».
Mas não pode trabalhar? Tem algum problema?
De novo o enfadonho encolher dos ombros, igual ao do senhor Isaltino.
Na semana seguinte falei com a coragem e convidei-a para vir comigo no bolso. Ela aceitou de bom grado. Tinha de esclarecer aquilo de uma vez por todas, naquele dia. Às duas da tarde, entrei na taberna, aproximei-me de mansinho e sentei-me mesmo ao lado do careca misterioso. Levava comigo o meu caderno e caneta e escrevi: Porque está sempre a fazer assim com as mãos? Pousei a caneta e o caderno e imitei-o.
A Ti’ Berta, que nos observava do balcão, manifestou-se. «Ele não sabe ler, Hugo.»
Esmoreci, encolhi os ombros e olhei para o chão por mais minutos do que aqueles que um quarto de hora contém.
Levantei-me de sobressalto e sei que o som não saiu bem, as palavras soaram imperfeitas, um balbucio, mas perguntei: «Porque está sempre a fazer assim com as mãos? Só sabe fazer assim?» Eu, o mudo, falei. Foi num som arrastado, pouco nítido e aos tropeções, mas falei, pela primeira vez.
Respondeu-me prontamente: «Não, também sei fazer assim». As mãos continuaram em cima dos joelhos, entrelaçadas, mas os polegares giravam agora no sentido contrário.


