Nos tempos atuais, já não sabemos o que é «nada fazer». O simples ato de parar tornou-se suspeito, uma espécie de falha moral no seio da sociedade produtiva e de consumo que nos ensina a olhar para o vazio como desperdício. Interrogamo-nos sobre esse nada que tememos; o nada que não queremos para a nossa vida, como se, nesse espaço silencioso e desocupado, estivesse escondido um inimigo capaz de nos desmontar.
Assumimos um papel de controlo total sobre a existência, como se fôssemos fontes inesgotáveis de energia. “Nada é impossível”, repetimos. Tudo é alcançável, basta tentar mais, produzir mais, acelerar mais. Tornamo-nos máquinas de precisão emocional, a girar sem interrupção, sem perceber que o cansaço — prelúdio do esgotamento — nos observa pela lateral, paciente, discreto, à espera de um descuido.
Byung Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, descreve este novo homem hiperativo, expropriado da capacidade de atenção profunda, incapaz de se demorar, de contemplar, de permanecer consigo. A quietude tornou-se um território estrangeiro. No entanto, lembra-nos que o tédio profundo é indispensável: é o ponto alto da descontração espiritual, o portal para a contemplação, para esse vazio fértil onde tudo tem princípio. Só quando o ritmo abranda é que as ideias começam a respirar.
A produtividade, pelo contrário, provoca um tédio estéril, aquele gesto repetido que não inaugura nada, apenas o prolonga. É o impulso contínuo que nos impede de pensar, o fazer sem pausa, hesitação ou retorno ao centro. O homem moderno desaprendeu a arte de nada fazer e, no processo, esqueceu o valor do silêncio interior.
A atenção profunda tem sido atropelada pela hiperatenção. Esta, alimentada por estímulos constantes, não nos torna mais capazes, apenas mais inquietos. Dizem-nos que produzir, fazer e acumular tarefas nos concede poder. Vangloriamo-nos da multitarefa como se fosse evolução, mas trata-se, na verdade, de um retrocesso subtil. Na vida selvagem, quem vive em alerta permanente são os animais, obrigados pela sobrevivência a proteger a prole, defender o território, a caçar. O que neles é instinto, em nós tornou-se vício.
Ao imitarmos essa vigilância animal, afastamo-nos da nossa capacidade mais humana: criar. A multifuncionalidade dispersa-nos, rouba-nos a profundidade e transforma o pensamento num mosaico de fragmentos que nunca se completam. Pelo frenesim das multitarefas, perdemos a habilidade de permanecer num gesto, num pensamento, num desejo.
O Homem precisa, urgentemente, de repensar a sua humanidade. De recriar movimentos que lhe devolvam a liberdade de ser mais ele, menos máquina, mais corpo vivo. Se caminhar se torna entediante, que corra; se correr o aborrece, que dance. Só a humanidade é capaz de dançar, de transformar o simples ato de mover o corpo numa revelação, numa invenção contínua.
Talvez o nada que tanto evitamos seja, afinal, o espaço de renascimento. O intervalo em que a criatividade ganha fôlego. O solo fértil que reinventa o gesto. E talvez aprender a nada fazer seja, paradoxalmente, o primeiro passo para fazermos tudo aquilo que realmente importa.


