Enquanto tiravam fotografias, Manuel manteve-se encostado à parede. Mãos nos bolsos, óculos escuros que lhe permitiam observar sem que os outros se apercebessem.
Parecia estar a ver uma peça de teatro, cuja personagem principal foi colocada numa posição estranha e tudo ao seu redor tanto aparenta encaixar como, ao mesmo tempo, é estranho. Dali, conseguia ver a tatuagem, o número 14. A distância impedia-o de perceber como fora feita, no entanto, lá estava ela.
— Inspector, já fotografamos e recolhemos as evidências, pode prosseguir com a sua análise.
Dirigindo-se ao corpo, pôde comprovar que os caixotes de papelão acumulados nas traseiras do armazém eram ideais para o ocultar dos olhos de quem por ali passasse.
Era uma mulher jovem. As duas outras vítimas haviam sido homens, um com vinte e oito e outro com quarenta e dois. Qual seria a sua idade? Tal como nos outros, o 14 estava impresso na pele. Terá também sido marcada ainda em vida? Só o relatório da autópsia irá responder a estas questões. Nunca apresentavam qualquer desvio na pele. Provavelmente drogados, sem possibilidade de locomoção.
Precisava de confirmar, mas tinha uma sensação de que aquela vítima também perecera no período entre a lua crescente e a minguante, como o primeiro. O segundo acontecera entre a lua cheia e a nova, em ambos os casos era um ciclo de catorze dias.
Manteve-se de cócoras, ao lado do cadáver, olhos perspicazes à procura de tudo o que pudesse ajudar a elaborar o perfil. As roupas pareciam não lhe servir. Ela era elegante, mas quanto tempo teria sido necessário para a roupa lhe ficar tão larga dando a impressão de não ser dela? Ou não era mesmo dela? E nesse caso de quem seria? Outra vítima?
Fechou os olhos e respirou fundo. Nunca era produtivo ir por aí.
A forma como ela estava era uma pose. Fora ali colocada para causar impacto.
Cabelos castanhos, longos, espalhados à volta da cabeça, como se estivesse repousada numa almofada. O braço direito fletido com a mão encostada ao rosto, inclinado para os dedos. As pernas esticadas e o tornozelo esquerdo a sobrepor-se ao direito, o esquerdo esticado, na diagonal. O outro braço ao comprimento do tronco, com a mão repousada um pouco abaixo da cintura.
Manuel levanta-se, dá dois passos atrás e percebe: ela estava colocada como se esperasse o amante, deitada numa cama, em posição sensual.
— Posso assegurar-lhe que nenhum dos outros corpos foi encontrado daquela forma. Os outros foram descartados, o terceiro corpo está posicionado. É uma declaração. Só não se sabia o que significava.
O fumo do cigarro vai traçando o seu bailado enquanto sobe juntando-se ao fumo dos anteriores. A sala é pequena e a janela de correr tem uma pequena abertura, insuficiente para limpar o ar. O olhar do inspector está no passado, a reviver perguntas sem resposta.
— Mas conseguiram prendê-lo, foi uma vitória.
Calmamente, volta ao presente, faz um movimento com os lábios sem estes conseguirem formar um sorriso.
— É verdade, prendemo-lo. As famílias das vítimas puderam assistir ao julgamento, condenação e encarceramento, só ficou por saber o porquê. O não saber, não compreender, pode ser tão devastador como a perda.
Esmaga o cigarro no cinzeiro como se esse acto pudesse banir as assombrações.
— Aguardamos um novo ciclo de catorze dias, num misto de esperança por um novo homicídio, para se conseguir pistas e prender o culpado, e a inexistência de um crime.
— Os registos indicam que não houve.
Manuel aspira um novo cigarro, expele o fumo com lentidão.
— Passaram-se cinco ciclos de catorze dias, aconteceu entre a lua cheia e a nova. Em dois meses ocorreram outros crimes, novas pistas a serem seguidas, não caiu no esquecimento, mas na minha torre de processos foi ficando cada vez mais em baixo, sem nada que o fizesse escalar o monte de papelada. Até ter aparecido outro corpo.
— Outra mulher, certo?
— Sim. A outra tinha vinte e oito anos, esta tinha quarenta e dois.
— Como nos dois primeiros homicídios, o primeiro homem tinha vinte e oito anos e o segundo quarenta e dois. A que conclusões chegaram?
— Era difícil traçar-lhe um perfil. Inteligente, pois não havia nada nos locais dos crimes que pudéssemos usar para o identificar. Seria forte, ou teria muitos recursos, para poder manipular as vítimas. Como as escolhia era uma incógnita, até porque não havia relação entre elas que nos desse indícios.
— Os registos mostram que foi com um pedaço de pele, na cena do crime do último homicídio, que o conseguiram apanhar.
— Certo. Fiquei sempre com a dúvida. Tinha conseguido cometer três crimes sem deixar vestígios e no quarto fere-se, não se apercebe, e o seu ADN trama-o. Nunca respondeu a nada. Confessou os assassinatos, sabia como tinham sido perpetuados, no entanto ficou, muito por responder. O porquê dos ciclos da lua? E a obsessão pelo 14? Porque o tatuava, antes de os matar?
— Acha que prenderam o homem errado?
— Todas as provas o indicavam como sendo o criminoso.
— Mas, acha…
— Não tenho opinião, cinjo-me às provas. Quer um conselho, senhor jornalista? Foque o seu trabalho em quem eram as pessoas que foram assassinadas, cuja vida foi ceifada por razões anti-natura. É inútil ficarmos a pensar em todas as perguntas que ficaram por responder. Para as famílias, que utilidade existe em remexer no caso e falar do criminoso? Enalteça, fale e deixe na memória os que, sem escolha, foram apagados.
— Agradeço-lhe o seu tempo e amabilidade de ter falado comigo, inspector. Saúde.
Manuel sorri-lhe nas costas. Saúde… essa já o abandonara.
Nota: por desejo da autora, este conto não segue o Acordo Ortográfico de 1990


