hoje contratei um poeta.
precisava de um poema
bem escrito
de sintaxe impecável
e até com algum lirismo
coloquei-o numa sala isolada
deixei-lhe uma água castelo
perguntei até se queria whisky.
liguei a ventoinha do teto
e abri as janelas de par em par
dei-lhe as instruções precisas
sobre o poema que precisava
várias folhas de papel não reciclado
alguns lápis Caran d’Ache
e até uma afiadeira
passadas umas horas voltei.
o poeta tinha desaparecido.
sobre a mesa que eu não referi
uma das folhas, dobrada
despertou a minha atenção:
“de pó e ar se faz um poeta
de pé e dor se desfaz
de pá e cal se branqueia
poemas não nascem nas árvores
quem escreve precisa de uma cadeira”
Catarina Canas
(A Utilidade do Inútil)

