Autor(a):

Filomena Fonseca
Saltando do Parêntesis

Reflexão sobre o vazio e a essência do ser

“Trinta raios convergem para um único eixo;
é no buraco do centro que assenta o funcionamento da carroça.
Faz do barro um vaso, e é o espaço do seu interior que o torna útil.
Faz portas e janelas bonitas,
mas a divisão é útil por estar vazia.
A utilidade do que é depende do que não é.”
Lao Tsu, Tao Te Ching

Nestes versos de Tao Te Ching, tão provocador, Lao Tsu evoca o valor do vazio, ao qual tantas vezes não prestamos atenção. O mestre explica esta noção através de imagens simples: o buraco no eixo de uma roda, o espaço no interior de um vaso de barro, o vazio de uma divisão numa casa. E conclui — a utilidade do que é depende do que não é.

Por outras palavras, as partes visíveis só adquirem sentido pela falta que nelas habita. O que parece não ser o que surge como ausência é precisamente o centro onde se permite a existência e o movimento. Esta passagem convida-nos a viver a partir desse vazio invisível existente no coração do nosso ser, mudando o modo como nele pensamos e sentimos.

Recordo-me de um músico que, um dia, me disse: “O silêncio de onde emerge cada nota é mais importante do que a própria nota.” Explicou-me ser o espaço vazio entre as notas o elemento que, na prática, permite à música ser música. Sem esse intervalo, o som seria apenas contínuo, indistinto.

Podemos aplicar esta noção a tudo o que experimentamos na vida quotidiana. Perguntemo-nos: o que faz uma árvore ser uma árvore? A casca, os ramos, as raízes, as folhas — tudo isso compõe a sua aparência, mas nenhuma dessas partes isoladas constitui verdadeiramente a árvore. Para que ela exista, é necessário algo invisível, uma força vital impercetível, a qual escapa aos cinco sentidos.

Podemos cortar, esculpir, analisar uma árvore, procurar incessantemente as suas células, mas nunca encontraremos essa energia essencial da qual depende a sua vida. Assim também nós: o vazio do centro da roda, necessário ao movimento, pode ser comparado ao vazio interior essencial para vivermos plenamente.

Dentro de cada um de nós existe um espaço de não existência, um lugar onde a vida se recolhe em silêncio. É preciso reconhecer que tanto o visível — o corpo — como a essência invisível de onde dependemos fazem parte do mesmo todo. O que somos contém esse espaço misterioso sustentando aquilo a que chamamos “eu”.

Quando se fala de viver a partir do vazio, fala-se de regressar a esse centro impercetível onde reside a essência vital. Reserve algum tempo para transferir a sua atenção para aquilo que muitos consideram “nada”. Pergunte a si mesmo: o que é a minha essência? Qual o sinal que irradio quando silencio o ruído exterior? Esse espaço emana da invisibilidade responsável por toda a criação.

Os pensamentos emergentes do ser interior são amor puro e bondade essencial. A sua não existência interior não é uma parte separada de si; é o próprio centro de onde tudo brota. Por isso, é preciso procurá-lo e explorá-lo, sem medo. Pense nele como um espaço contido no seu ser físico, a partir do qual fluem para o mundo todas as perceções e gestos.

Em vez de tentar produzir noções positivas ou agradáveis, limite-se a ser sensível à essência da sua não existência. Permita que esse centro silencioso de amor revele a sua utilidade inigualável. Deixe que os pensamentos emergentes entrem no seu ser físico e depois desapareçam, tal como acontece com a respiração: inspirar e expirar.

Dedique, todos os dias, alguns minutos a estar atento ao espantoso poder da sua essência vital, essa presença impercetível sustentando tudo o que existe. Há muitas maneiras de o fazer: a meditação é uma delas, ferramenta poderosa ajudando-o a sentir uma felicidade tranquila nascida do contacto com o vazio interior.

Faça o voto de se tornar mais consciente desse “lugar sem lugar” existente dentro de si e de onde flui a sua própria existência. Encontre o seu caminho para entrar nesse espaço limpo e puro, em harmonia com o amor que o habita.

Experimente, pelo menos durante quinze minutos diários, viver no vazio onde reside o seu verdadeiro ser. Ignore por um momento o corpo e tudo o que o rodeia — os elementos materiais com os quais se identifica: nome, idade, profissão, origem. Limite-se a estar nesse espaço intermédio, nesse vazio absolutamente fundamental.

Olhe para o mundo à sua volta a partir do que não é e reconheça que a sua própria utilidade, como ser material, depende completamente desse vazio.

Torne-se, a partir de hoje, amigo dessa parte de si que permanece invisível, a mesma que sustém tudo.

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AUTOR(A)
Filomena Fonseca

Filomena Fonseca é apaixonada por desenvolvimento pessoal, comunicação e filosofia oriental. Com formação em Enologia, é instrutora de Yoga Coreana uma prática de longevidade e saúde que faz desde 2017. Tem dedicado os últimos anos à escrita como ferramenta de transformação. Iniciou o seu percurso literário através da poesia, tem colaborado com revistas como “Ofélia em Poesia”, já tem alguns dos seus poemas publicados com regularidade mensal e, presentemente, na revista Poética volume IV, com a coordenação Editorial de Simone Martins, versão impressa lançada em maio de 2025, e mais recentemente com a revista literária a “Palavrar”. Nos livros que lê, vê uma forma de se desenvolver e de se conhecer melhor. Está neste momento a preparar o manuscrito para o seu primeiro livro de Poesia. Fez várias formações na área da escrita com a mentora Analita Santos. Concluiu o mestrado depois dos 40, aprendeu coreano depois dos 50 e continua a inspirar mulheres a começarem ou recomeçarem com coragem. Presentemente está a trabalhar no seu projeto literário, que iniciou com a formação “Caminho do livro I e II”, o livro de desenvolvimento pessoal, com a coordenação e supervisão da sua mentora, que brevemente estará disponível, reflexo do seu percurso de reinvenção e autenticidade.

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