Autor(a):

Leonilda Pereira
Per ficta resistire

Retalhos de vidas

Vagueava pelas ruas da aldeia, sem eira nem beira. Uma fatia de centeio aqui, um arroz de feijão ali; assim o Amândio passava os dias e as noites. Como as irmãs. Filhos de pais emigrantes na América, ficaram pela aldeia aos cuidados da avó Aida, viúva, já com anos de labor nos campos de outrem.

Certo dia, o senhor António cruzou-se com a avó do rapazito.

— Desanimada, senhora Aida?

— Três bocas para alimentar. As miúdas estão a servir, lá comem com os patrões. A Augusta até pensa chegar longe, vai estudar como os filhos dos senhores. Agora o rapaz, ai, senhor, não sei.

— Sabe, ontem, ele apareceu nas hortas, à hora do pessoal comer. Deram-lhe pão com chouriço. Agradeceu e alegou: “pão preto, não como.”

— Tem dessas exigências, mas não lhe apare mordomias. Tiro mastigas da boca para lhe dar, mais não posso. Sou pobre e viúva.

— Posso levá-lo comigo. A quinta é perto. Ajuda com o gado. Ali, todas as pequenas tarefas são úteis e necessárias. A senhora pode visitar-nos.

— Que favor tão grande. Dê-lhe comida e dormida, que já é muito.

— Vou ver como corre, mas alguma coisa há de receber. Está lá o Luís, um rapazito novo; hão de entender-se.

As pernas da ti Aida ganharam asas, e a voz ecoou pela aldeia: “Amândio, onde estás?”

Pouco tempo depois, o rapaz de sete anos recebeu o veredito e a guia de marcha. O coração da avó ganhou leveza; a mente voou para o merecido descanso de octogenária. Ainda assim, ajoelhou-se diante do minúsculo oratório. Mal não fazia pedir por “aquele filho de Deus”, ao deus-dará. Talvez tivesse encontrado caminho para ele.

Com alguma calma, António e a esposa foram ensinando Amândio a cuidar de pequenos recados. No início, amuava e uma lágrima ou outra escorria-lhe pela face. Amélia, a cozinheira, aparava-lhe os desesperos com abraços perfumados de carne estufada, o prato favorito do rapazito.

Amândio cresceu na quinta, aprendeu o valor do esforço e do pão repartido. O tempo moldou-lhe a vontade e a bondade do coração. Era o primeiro a chegar, o último a sair. Quando o patrão morreu, foi ele quem ficou com as chaves e com a guarda dos animais. Dona Amélia confiou nele. Era homem feito, capaz de colaborar até na esfrega das tábuas da sala. Lavava e encerava, fazendo “inveja a muitas mulheres”.

A patroa e a cozinheira estimavam aquele menino, sempre disponível.

Com o tempo, comprou a quinta por um bom preço, com o fruto do seu trabalho. Era agora patrão.

Nos dias de feira, quando via as gentes da aldeia, distribuía o que tinha: pão, fruta, histórias. Nada lhe parecia inútil. Tudo servia um propósito — nem que fosse dar um sorriso.

As palavras da avó Aida voltaram-lhe à memória: “Nada é para deitar fora se ainda pode servir alguém.” Essa lição acompanhou-o ao longo dos anos. Fez dele quem era. Gostava tanto que a avó o visse. Elevava os olhos ao céu, e a estrela mais brilhante seria enviada por ela para lhe iluminar as escolhas. Estaria orgulhosa?

Muito tempo depois, também eu percebi o sentido daquela herança. Recordo-me da visita ao Centre Georges Pompidou, em Paris: esculturas feitas com desperdícios — metais torcidos, pedaços de plástico, vidros, objetos do quotidiano. Uns riam; outros criticavam.

“Chamam a isto arte?”

“Paguei para isto?”

Do alto dos meus onze anos, olhava as esculturas e as pessoas como quem vê um barco à deriva. Não sabia se gostava, mas percebi que havia ali algo que me tocava — o poder de transformar o lixo em arte, o feio em beleza.

Mais tarde, adulta, aprendi a reconhecer nos artistas o mesmo olhar da avó Aida e do Amândio: o olhar de quem vê valor no que os outros rejeitam.

O artista português Bordalo II constrói enormes esculturas a partir de sucata, denunciando o desperdício e a destruição ambiental. As suas obras — animais feitos de inutilidades — são gritos visuais contra o descuido humano.

Recordo Real Bordalo, que dizia do neto:

— O meu neto? Artista à sua maneira.

No brilho dos seus olhos, via-se o orgulho.

Revejo os socalcos do Douro, a estação do Pinhão, as vinhas altivas. Beleza e harmonia dos lugares.

Lembro Xico Gaivota, pescador e marisqueiro, que transforma o plástico recolhido nas praias em esculturas marinhas. E Madalena Martins e Ricardo Nicolau de Almeida, que dão nova vida a resíduos, criando objetos belos, úteis e conscientes.

Todos, como Amândio e a avó Aida, revelam a capacidade de ver mais além: o gesto de transformar, cuidar e criar com o que parece perdido.

Tudo pode servir a Humanidade.

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AUTOR(A)
Leonilda Pereira

Maria Leonilda Soares Videira da Fonseca Pereira, licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, ama as palavras.

A vida de professora de Português do Ensino Secundária, os clubes de escrita e leitura, a publicação anual do livro Olhares da Lua (textos dos alunos, selecionados e editados em colaboração com os colegas da escola), a fomentação de intercâmbios escolares, nacionais e internacionais, evidenciam o gosto e amor à Língua Portuguesa.

Publicou Da Minha Janela, um livro de poesia, A Gargalhada do Medo, livro infantojuvenil, contos e poemas em coletâneas, revistas e redes sociais.

A escrita e a leitura adoçam-lhe os dias.

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