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Editorial

A utilidade do inútil

Aprendi, após meio século de vida, a observar o tédio sem querer afastá-lo. Antes, cercada de obrigações e prazos que me sufocavam; agora, sem culpas, descobri um lugar interior onde a mente se aquieta e as perguntas surgem sem urgência. Aceitar o tédio foi entrar num espaço que a cultura atual nos empurra para evitar, como se ficar sem ocupação fosse uma falha de carácter ou de produtividade.

Nesta edição de PALAVRAR reunimos, de forma consciente, palavras que não se deixam medir por padrões utilitários. Os contos, os poemas e os ensaios que aqui encontram espaço não são definidos pela sua capacidade de servir algo útil de imediato; são úteis num sentido mais profundo: ajudam-nos a pensar e a reconhecer que a vida não se resume à produção de resultados quantificáveis.

A literatura sempre soube que a densidade de uma frase, a pausa entre dois parágrafos e o espaço branco na página são lugares onde o pensamento se reconfigura. Esta utilidade do inútil é a mesma que nos permite revisitar a memória do sorriso doce de uma avó, observar uma rosa como se fosse a primeira vez ou aceitar que a mente vagueie sem destino fixo. Voltar ao espírito da criança que se perdia nas férias de verão, na moleza do nada fazer. Viver o tédio, o aparente inútil, é uma forma de existir que extravasa a eficiência e a obrigação. Transforma-se em liberdade de imaginar outras possibilidades, destrinçar novos sentidos e reconecta-nos com o que somos, distante da lógica do rendimento. É aí que a grande Fonte da criatividade reside: «O material para o nosso trabalho rodeia-nos a cada passo», diz Rick Rubin, no seu «O Ato Criativo», mas para isso é necessária presença, sem urgência.

Escrever e ler sem a pressa de o justificar é coragem. Devolve-nos aquilo que esquecemos com frequência, a nossa capacidade de estar inteiros, presentes. O inútil ensina-nos a ser atentos não só ao que nos rodeia, mas também ao que nos habita. Nesta edição, cada texto é um convite a suspender a pressa e a redescobrir o valor do não planeado.

Quando abrimos um livro sem procurar nele uma resposta pronta, começamos a vislumbrar outras perguntas; quando deixamos o olhar repousar numa frase sem necessidade de interpretação imediata, damos espaço à experiência. Este número da PALAVRAR celebra o lugar de encontro entre o leitor e a palavra, para nutrir a vida interior.

Convido-o a ler sem premências, a deixar cada página respirar consigo e que o silêncio entre palavras se torne parte da leitura. Que esta PALAVRAR seja um lembrete: o que julgamos inútil pode ser, na realidade, aquilo que mais nos transforma.

 

Analita Alves dos Santos

Caro leitor.

Celebramos a décima edição da nossa revista. Um número que convida a refletir sobre a persistência e paixão que nos move. Para assinalar esta marca, escolhemos um tema provocador: «A utilidade do inútil».

Vivemos sob o jugo do útil, medidos pela produtividade, pela eficácia, pelos resultados tangíveis. Esmagados pela eterna pergunta: «Para que serve»? Nesta asfixia, a literatura é uma bolha que nos permite respirar tudo aquilo que não serve para nada.

Um conto, um poema ou um devaneio gratuito recordam-nos a possibilidade de ampliar o fôlego do pensamento. Devolvem-nos ao essencial: momentos de abrigo que permitem o deslumbramento, a criatividade e despertam emoções inesperadas.

Gostamos de pensar que fazemos a diferença, ao receber nesta bolha alguns dos que consideram o inútil — este aparente despropósito — uma forma de lucidez ou um espaço de liberdade, passível, até, de prescrição médica.

Permitamos ao pensamento demorar-se num território que se alargue.

Celebremos a beleza da palavra que, apesar de supérflua para incautos, nos transforma e nos salva. Uma inutilidade que nos humaniza.

 

Paula Campos

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