Tranquilidade, paz, ordem, beleza, são palavras que nos ocorrem ao passarmos na via rápida e descortinarmos a Vila no vale. Com o sol a incidir sobre ela, é uma verdadeira paisagem de postal. Mas digo-lhe, caro leitor, ninguém sabe o que se passa dentro daquelas paredes ou que enigmas espreitam pelas janelas.
A rua principal vai até ao largo onde encontramos a junta de freguesia e outros serviços administrativos e do poder local.
Uma casa azul, bem no meio da avenida, é onde vive o Manuel. Os pais eram pessoas abastadas e ele é formado em direito e homem bem-apessoado, se acreditarmos no que dizem as mulheres da vila. Ora, aí vai ele. Todos os dias, pelas 7h30, sai de casa, dirige-se à pastelaria da Dona Rosa para tomar o pequeno-almoço. Local charmoso, decorado como uma típica casa de chá, com vitrine virada para a porta de entrada, onde estão dispostos todos os tipos de bolos, com frutas, chantilly, frutos secos, chocolate, um verdadeiro paraíso para os gulosos.
— Então o que vai ser hoje, Dr. Manuel?
— Hoje vai ser meia torrada, um café e dois queques, um de chocolate e o outro de noz.
— Sempre me saíste um guloso.
— São pequenos prazeres.
Senta-se na mesa junto à janela, a mesma de sempre, e delicia-se com o pequeno-almoço, enquanto lê o jornal.
A seguir, vai para o seu escritório. O Dr. Manuel Monteiro e Cunha é o advogado proeminente da vila.
Durante a manhã, verifica vários processos e perto da hora de almoço pede à secretária, Piedade, para ir ao seu gabinete.
— Estes são os casos que não vamos aceitar. Ficamos só os processos do presidente da junta e da fábrica têxtil.
Piedade repara no processo que está no cimo da pilha dos não aceites.
— Não vai defender o Sr. Joaquim? Ele tem os documentos que provam que as terras são dele. É um homem honesto, trabalhador e esta alegação é despropositada.
— Ele não tem como me pagar. Não faço pro bono.
A secretária revira os olhas, mas decide não fazer comentários.
— O Sr. Agostinho passou cá ontem, ao final do dia, para receber o que falta das obras que fez em sua casa.
— Hum, é preciso ter lata, não fez aquilo que pedi para ele fazer e agora quer receber por um trabalho mal feito? Nem pensar.
Faz um aceno com a mão e Piedade sai. Ainda pensou em argumentar, contudo seria um desperdício, ele fazia sempre o mesmo. Pegou na mala e saiu.
Alguém a vigia, espera que ela vá almoçar para serpentar até à porta.
Do outro lado da rua, o Agostinho, que está a supervisionar a obra na sala da Dona Gertrudes, constata que a Dona Carmen, mulher bonita e ainda jovem, casada com o padeiro, logo que Piedade vai almoçar, entra para visitar o advogado. Tem sido assim nos últimos três dias. Quando sai vem meio ofegante e um pouco desalinhada. O empreiteiro fica a olhar para a porta enquanto coça a barba. Tem os olhos brilhantes e um pequeno sorriso.
O nosso douto causídico passa a tarde ao telefone com dois clientes, a referir casos e explanar jurisprudência escusada. Mal termina a última chamada, entra no gabinete o seu assistente.
— Dr. Monteiro e Cunha, o Sr. Juiz decidiu a nosso favor.
— Excelente meu rapaz, ainda te farás um bom advogado. — Entrega-lhe mais três pastas. — Aqui tens estes novos casos para trabalhares, quando tiveres as peças preparadas, deixa-as na minha secretária que dou uma vista de olhos, temos de conseguir um veredito que nos seja favorável.
Pega na pasta, despede-se de Rudolfo e da assistente. Com o bater da porta, Piedade olha para a cara preocupada do colega.
— Já devias estar habituado, o trabalho árduo é para ti, ele anda de mão dada com a Dona Indolência.
No caminho para casa vê um Porsche Cayenne branco a aproximar-se, pára no semáforo, aprecia o carro e nota o vidro a descer.
— Gosta do meu novo meio de transporte, Dr. Monteiro e Cunha?
O sinal fica verde, o som da gargalhada e o ronco do motor fundem-se, deixando um Manuel de lábios comprimidos e punhos cerrados a resmungar.
— Como é que o sacana do eletricista conseguiu aquela bomba?
Quando chega a casa ainda vai a ruminar sobre o Porsche. Logo após entrar, a campainha toca. Com a cabeça cheia, abre a porta sem ver quem é.
— Que raios quer você?
Agostinho não lhe dá hipóteses de continuar a falar, invade o seu espaço pessoal, empurra-o e entra em casa. Tal é a perturbação de Manuel, que se deixa empurrar.
— Saia, imediatamente.
— Primeiro vamos falar sobre o que me deve.
— Não lhe devo nada. Você não fez um bom trabalho.
— Isso é o que o Sr. Dr. diz. Na realidade tudo foi feito como estava no projeto, por isso ficou tudo feito e bem feito, porque sou um bom profissional. E o excelentíssimo Sr. Dr. Monteiro e Cunha vai pagar tudo, se não quiser que se saiba que é um homem dado à lascívia. Principalmente com senhoras casadas.
— Chantagem e injúria, é o que é.
— Durante a hora do almoço recebe a visita da D. Carmen. Nos fins-de-semana alivia a solidão à mulher do Gervásio, enquanto aquele se entretém nos campeonatos de xadrez. E quando é preciso dar despacho da papelada, vem a D. Mafalda, esposa do nosso presidente da junta, despachar.
— Filho da mãe, quem achas que és para…
Manuel fica muito vermelho e perde os sentidos. Agostinho chama a ambulância e, no meio do alarido dos habitantes da vila, levam-no para o hospital.
Na pastelaria, sentado na mesa junto à janela está Agostinho, acompanhado de um café frio. Piedade, guiada pela fome, entra no café e vê-o ali prostrado.
— Por aqui, a esta hora? — Sem lhe dar hipótese de resposta, senta-se. — Não o via desde o funeral. Sabe, como tratei de tudo para organizar o funeral, pelo certificado de óbito
fiquei a saber que o Dr. tinha vários problemas, colesterol, níveis elevados de açúcar, pressão alta, etc. Ele vivia a vida sem se preocupar e, no final, esses pecados levaram-lhe o corpo.
Nota: por desejo da autora, este conto não segue o Acordo Ortográfico de 1990


